O QUE MOTIVOU A NOVA GREVE DOS TÉCNICOS-ADMINISTRATIVOS E QUAIS OS IMPACTOS NA UNIVERSIDADE

Bianka Monteiro, Carolina Maia, Magno Júnior,
Clara Prado, Madu Bataglia, Maria Eduarda Resende e Natália Vitória

Menos de dois anos após o encerramento da última greve nacional, os técnicos-administrativos das universidades federais voltaram a cruzar os braços. Na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), a greve teve início em fevereiro e já provoca reflexos em diferentes setores da instituição, atingindo serviços administrativos, atividades de laboratório e a rotina esportiva de estudantes. No centro da mobilização está a cobrança pelo cumprimento de pontos do acordo firmado entre a categoria e o governo federal após a greve de 2024.

Faixa exposta no Campus Santo Antônio sobre a reforma administrativa em tramitação no Congresso (Foto: Clara Prado)

O movimento integra uma mobilização nacional organizada pela Fasubra Sindical, entidade que representa os servidores técnico-administrativos das instituições federais de ensino. A categoria cobra do governo dederal o cumprimento integral do Termo de Acordo nº 11/2024, assinado após a greve realizada em 2024 e responsável por encerrar o movimento naquele ano.

O acordo previa reajustes salariais, alterações na estrutura da carreira e a criação de grupos de trabalho para discutir reivindicações históricas da categoria, como o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), a implementação da jornada de 30 horas semanais sem redução salarial e medidas voltadas aos servidores aposentados. Segundo a Fasubra, parte desses compromissos não avançou conforme o previsto, o que motivou a retomada da mobilização nacional.

Para o coordenador da pasta jurídica do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da UFSJ (Sinds-UFSJ), Rafael Vinícius Nonato, a atual paralisação é uma continuidade direta do movimento realizado em 2024.

Essa greve é uma sequência do acordo de 2024“, afirma.

Segundo ele, a mobilização foi retomada diante da avaliação de que parte dos compromissos assumidos pelo governo ainda não foram efetivamente cumpridos.

Entre as principais críticas da entidade está o encerramento dos grupos de trabalho que discutiam temas considerados centrais para a categoria. Os representantes dos trabalhadores afirmam que as negociações foram esvaziadas e que pontos considerados fundamentais do acordo permanecem sem encaminhamento efetivo.

Já o governo federal sustenta, por meio de informações divulgadas pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), que parte das medidas previstas no acordo de 2024 depende de procedimentos administrativos e análises técnicas antes de sua implementação. O ministério também destaca avanços relacionados aos reajustes salariais e às mudanças aprovadas para a carreira dos técnico-administrativos.

Na UFSJ, embora as aulas continuem acontecendo normalmente, a greve afeta setores administrativos ligados ao funcionamento da universidade. A situação levanta questionamentos sobre os impactos da paralisação para estudantes, docentes e para a própria instituição.

Categoria cobra cumprimento integral do acordo

Assembleia do Comando Local de Greve do SINDS-UFSJ debate os rumos da paralisação e as reivindicações da categoria (Foto: Magno Júnior)

Embora a atual mobilização tenha como principal justificativa o cumprimento do acordo firmado em 2024, a discussão sobre a valorização dos técnico-administrativos acompanha a categoria há anos. Os sindicatos argumentam que os servidores acumularam perdas no poder de compra ao longo da última década, especialmente entre 2019 e 2022, período em que os servidores federais do Poder Executivo não receberam reajustes salariais lineares.

Nos últimos anos, o governo federal retomou as negociações com os servidores da educação. Em 2023, foi concedido um reajuste linear de 9% para os servidores do Poder Executivo Federal. Já o acordo assinado em 2024 garantiu novos reajustes de 9% em 2025 e 5% em 2026, além de mudanças na estrutura da carreira. Ainda assim, representantes da categoria afirmam que a valorização dos servidores não depende apenas dos reajustes salariais, mas também do cumprimento integral das medidas acordadas para a carreira.

Segundo informações repassadas pelo Comando Local de Greve (CLG) da UFSJ à reportagem, entre os pontos que permanecem sem cumprimento estão o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a racionalização dos cargos e a extensão dos ganhos obtidos na última greve aos servidores aposentados.

Entre as pautas consideradas prioritárias pela categoria, o dirigente sindical destaca a regulamentação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) e a implementação da jornada de 30 horas semanais. Segundo Nonato, ambos os temas possuem forte impacto para os servidores e seguem entre as principais reivindicações do movimento.

“Do ponto de vista econômico, o RSC é um dos maiores ganhos possíveis para a carreira”, afirma. Já em relação à jornada reduzida, ele reconhece que se trata de uma das pautas mais difíceis de avançar nas negociações com o governo.

A questão das 30 horas e do RSC são os pontos mais importantes para a nossa base“, destaca.

Os representantes do movimento afirmam que a retomada da paralisação ocorreu após o encerramento do prazo para cumprimento do acordo firmado em 2024 sem que essas demandas fossem efetivamente atendidas.

Para o Comando local, embora a greve provoque impactos imediatos em diversos setores da universidade, o objetivo da mobilização é garantir melhorias de longo prazo para a educação pública. A entidade argumenta que a desvalorização das carreiras, a perda de servidores qualificados e o avanço da terceirização podem comprometer a qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão universitária.

Impactos percebidos pela comunidade acadêmica

Entrevista com estudantes do Campus Santo Antônio sobre os impactos da greve dos técnico-administrativos na rotina acadêmica (Foto: Clara Prado)

Embora a greve tenha como foco reivindicações relacionadas à carreira e ao cumprimento do acordo firmado com o governo federal, seus reflexos já são percebidos por parte da comunidade universitária.

Entre estudantes entrevistados pela reportagem, há diferentes percepções sobre o movimento. Algumas delas envolvem dificuldades no acesso a serviços da Universidade, enquanto outras apontam para a falta de informações sobre as pautas da greve.

As estudantes Nina Laçalo, de 18 anos, e Yasmin Cascaputo, de 19, ambas do curso de Engenharia Mecânica, afirmam apoiar a mobilização dos técnicos-administrativos. Apesar disso, relataram impactos em atividades acadêmicas e serviços oferecidos pela instituição. Segundo elas, a redução do funcionamento da biblioteca e as dificuldades de atendimento no setor de Tecnologia da Informação (TI) afetaram parte dos estudantes.

Yasmin também relata problemas de acesso ao e-mail institucional e ao Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGAA) no início do semestre.

“A gente não conseguia acessar o SIGAA porque precisava fazer a verificação em duas etapas, mas para isso era necessário entrar no e-mail institucional, que também estava inacessível”, afirma.

Já os estudantes Jorge Tomás, de 19 anos, da Engenharia Mecânica, e Gustavo Pegado, de 22 anos, da Engenharia de Produção, destacam outro aspecto da paralisação: a falta de informações sobre as reivindicações da categoria.

“Eu não tenho uma opinião muito bem formada porque até então não foi passado nada para a gente”, diz Jorge.

Além disso, os universitários apontam possíveis consequências da greve para os próximos períodos letivos: entre as preocupações citadas estão o funcionamento da biblioteca, o ingresso de novas turmas de estudantes e eventuais dificuldades nos processos de matrícula e oferta de disciplinas.

Os relatos mostram que, embora a paralisação não tenha interrompido as atividades de ensino na UFSJ, seus efeitos já alcançam parte da rotina acadêmica, evidenciando o impacto que os serviços técnico-administrativos exercem sobre o funcionamento da universidade.

Impactos chegam aos laboratórios de ensino

Os reflexos da greve também são sentidos em atividades práticas que dependem diretamente da atuação dos técnicos-administrativos: é o caso da disciplina Laboratório de Microbiologia, ofertada para os cursos de licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas da UFSJ.

Segundo a professora Juliana Pereira Lyon, de 48 anos, docente do Departamento de Ciências Naturais (DCNAT), a ausência dos técnicos compromete etapas fundamentais para o funcionamento das aulas práticas.

Ela explica que o trabalho desses profissionais começa dias antes da realização das atividades, envolvendo a preparação de materiais, organização dos experimentos e descarte adequado dos resíduos produzidos no laboratório.

“A disciplina ‘Laboratório de Microbiologia’ é exclusivamente prática e depende dos técnicos para preparação, trabalho que se inicia algumas vezes com uma semana de antecedência, organização, descarte de material, entre outras atividades”, explica.

Para evitar a interrupção das aulas, a disciplina passou a ser ministrada com o auxílio de monitores. Ainda assim, parte das atividades precisou ser adaptada.

“A maioria das práticas sofreu adaptações e o descarte do material ficou impossível”, relata a professora.

Apesar dos esforços para minimizar os prejuízos aos estudantes, Juliana reconhece que a ausência dos técnicos afeta diretamente a qualidade das atividades desenvolvidas.

“Tenho o maior cuidado para que os estudantes sofram o menor impacto possível, mas é fato que as práticas sofrem adaptações e poderiam ser melhores com a presença dos técnicos do laboratório”, destaca.

Perguntada sobre as reivindicações da categoria, a docente responde compreender os motivos da mobilização.

“Acredito que o funcionário tenha direito de greve e me solidarizo com as demandas”, declara.

Greve também afeta atividades esportivas

Os reflexos da paralisação também são sentidos fora das salas de aula. Segundo a presidente da Associação Atlética Acadêmica Brutus, Tânia Resende, a greve dos técnicos-administrativos tem impactado diretamente a preparação das equipes esportivas da UFSJ.

De acordo com a estudante, a utilização dos espaços esportivos do Campus Tancredo Neves (CTAN) depende da autorização de um técnico responsável pela gestão desses locais. Com a paralisação, o acesso dos atletas às quadras, ao campo e a outros espaços destinados aos treinamentos foi interrompido.

“A Brutus busca treinar frequentemente visando às competições de que participa e a greve dos técnicos tem afetado negativamente e diretamente toda a preparação e interação dos atletas”, defende.

Espaço esportivo do Campus Tancredo Neves utilizado pelas equipes da Atlética Brutus. O acesso aos locais de treinamento foi impactado pela greve dos técnico-administrativos (Foto: Magno Júnior)

Segundo ela, desde o início da greve, o acesso de estudantes aos espaços esportivos administrados pela universidade ficou paralisado.

A situação afeta não apenas a rotina dos treinamentos, mas também o desempenho das equipes em competições universitárias.

“Não é possível obter bons resultados sem a preparação adequada”, destaca Tânia.

Além do aspecto competitivo, a presidente da atlética chama atenção para a importância do esporte na permanência estudantil. Segundo ela, as atividades promovidas pela Brutus contribuem para a integração de alunos à vida universitária.

“O espaço universitário é de extrema importância não somente para as práticas esportivas, mas também para a interação entre os estudantes e, em muitos casos, um meio de combater a evasão desses alunos que encontram no esporte e na atlética segurança, amizade e prazer em fazer parte da comunidade acadêmica da UFSJ”, argumenta.

Apesar dos prejuízos enfrentados pelos atletas, Tânia afirma compreender as reivindicações dos técnicos-administrativos.

Acredito que a greve seja importante na luta dos técnicos pelos seus direitos. É direito e dever pressionar o governo por melhores e mais justas condições de trabalho”, afirma.

Para ela, no entanto, a situação também evidencia questões estruturais da universidade. A estudante questiona a concentração da gestão dos espaços esportivos em um único servidor e sugere que a dificuldade enfrentada durante a greve pode estar relacionada à reduzida quantidade de profissionais disponíveis no departamento responsável.

“Não sei se a greve é o melhor caminho para pressionar o governo, mas sei que ela revela problemas que vão além da luta dos técnicos”, conclui.

Perguntado sobre as perspectivas para o encerramento da greve, Rafael Vinícius Nonato afirma não ter uma visão otimista para uma solução imediata. Segundo ele, a regulamentação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) representaria um avanço importante nas negociações e poderia aproximar a categoria de uma resolução do movimento.

Enquanto isso, os técnico-administrativos seguem mobilizados em defesa do cumprimento integral do acordo firmado com o Governo Federal em 2024.


Imagem de destaque: Clara Prado

Edição: João Barreto, Najla Passos e Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

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