Arthur Raposo Gomes *
Uma das coisas que mais me chamou atenção nesta Copa do Mundo não ocorreu dentro de campo: aconteceu nas ruas.
Nas últimas semanas, vi fotografias de ruas pintadas em diferentes cidades. Vi crianças ajudando a desenhar bolas e bandeiras no asfalto. Vi moradores organizando enfeites, pendurando bandeirinhas e retomando uma tradição que atravessa gerações. Uma cena antiga. Tão antiga que, talvez por isso mesmo, tenha me chamado atenção.
Porque muita coisa mudou: a Copa de 2026 acontece em três países. Muita gente já não acompanha os jogos da mesma forma que acompanhava anos atrás. Alguns assistem pela televisão. Outros preferem transmissões no YouTube. Há quem acompanhe pelo streaming, pelo celular, e comentando lances nas mídias sociais em tempo real.
Mudaram as telas. Mudaram os narradores. Mudou a forma de torcer. Mas alguns hábitos permaneceram.
Mas, olhando aquelas ruas pintadas, fiquei pensando que algumas tradições não desaparecem. Elas apenas encontram outras formas de continuar existindo.
O Brasil empatou com Marrocos e agora enfrenta o Haiti. Haverá análise tática, críticas, elogios e discussões sobre escalação. Isso faz parte. O resultado importa, claro. Mas talvez exista algo acontecendo fora das quatro linhas que também mereça atenção.
Tem gente reunindo amigos para assistir ao jogo. Tem criança perguntando sobre jogadores que os pais admiravam. Tem grupo de WhatsApp voltando a falar de futebol. Tem gente que diz não ligar muito para a Copa, mas sabe exatamente o horário da próxima partida.
Talvez a Copa do Mundo não seja mais a mesma de outras décadas. E tudo bem. Porque o mundo também não é.
Ainda assim, existe algo de bonito em perceber que, num tempo em que cada pessoa vive cercada pelas suas próprias telas, pelos seus próprios interesses e pelo seu próprio algoritmo, ainda somos capazes de compartilhar alguns rituais.
Por algumas horas, milhões de pessoas param para olhar na mesma direção. Não porque pensem igual. Mas porque continuam encontrando, no futebol, uma forma de viver algo em comum.
E talvez seja por isso que aquelas ruas pintadas tenham me chamado tanta atenção. Porque elas não falam apenas de futebol. Elas falam de memória. E, principalmente, de permanência.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação. Já lecionou a disciplina de “Jornalismo Esportivo”.
Imagem de destaque: Rafael Ribeiro e Nelson Terme / CBF
