ARTIGO DE OPINIÃO: ELEIÇÕES 2026, CLEITINHO AZEVEDO FORA DA DISPUTA EM MINAS GERAIS E UMA LIÇÃO SOBRE O TEMPO DA POLÍTICA

Arthur Raposo Gomes *

Os fatos falam por si. O partido esteve pronto. A candidatura, porém, nunca foi formalmente assumida por quem deveria liderá-la“: foi assim que os diretórios estadual e nacional do Republicanos encerraram a nota, divulgada nesta quarta (dia 29), em que confirmaram que o partido deixaria de aguardar uma definição do senador Cleitinho Azevedo e seguiria outro caminho na disputa pelo Governo de Minas.

O episódio é delicado. Em praticamente todos os cenários das pesquisas de intenção de voto divulgadas nos últimos meses, quando o nome de Cleitinho aparecia entre os possíveis candidatos, ele liderava a disputa. Ainda assim, ao longo desse período, os sinais sobre uma eventual candidatura nunca foram definitivos.

Ao mesmo tempo em que convidava o então prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão, para compor uma chapa majoritária como vice, evitava confirmar que realmente disputaria o Palácio Tiradentes. A decisão foi sendo adiada.

No início do ano, quando as articulações para 2026 começavam a ganhar força, Cleitinho usou a tribuna do Senado para pedir “um tempo” à imprensa e ao “pessoal da política”. O motivo era pessoal e compreensível. Seu irmão, Matheus Azevedo, havia voltado a enfrentar a leucemia quase duas décadas após o primeiro diagnóstico. Os meses passaram e, no último dia 18, Matheus faleceu.

Dias depois, começou o período das convenções partidárias. A do Republicanos aconteceu no último dia 25, mas Cleitinho não compareceu e nenhuma definição sobre a disputa majoritária foi anunciada. Até que veio a nota nesta quarta (dia 29), que o Notícias del-Rei teve acesso a íntegra.

Esse episódio ajuda a compreender uma característica importante da política.

O calendário eleitoral estabelece datas e prazos. Mas o tempo da política nem sempre acompanha o calendário. Se olharmos apenas para as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ainda havia alguns dias para que as decisões fossem oficializadas. Na prática, porém, partidos, dirigentes e possíveis aliados já não podiam mais esperar.

A política também funciona a partir da conjuntura. Enquanto o campo progressista aguardou por meses uma possível candidatura do senador Rodrigo Pacheco (PSB) ao Governo de Minas antes de consolidar outro caminho com Patrus Ananias (PT), partidos do centro e da direita também mantiveram parte das negociações em aberto à espera da definição de Cleitinho. Não por acaso, várias convenções deixaram atas sem todas as deliberações concluídas, justamente para preservar espaço para decisões de última hora.

Cleitinho ascendeu na política mineira como um outsider: construiu sua imagem fazendo críticas aos “políticos tradicionais”, ao “sistema” e à forma como a política costuma funcionar. Ao longo da trajetória, também transitou por pautas associadas a diferentes campos ideológicos, preservando uma identidade própria diante do eleitorado. Na noite dessa terça (28), publicou um vídeo nas mídias sociais, feito com Inteligência Artificial, onde Cleitinho parecia sinalizar que iria aceitar “a missão de ser candidato a governador”. Mas parece que foi tarde demais para dirigentes partidários da própria legenda.

Disputar um mandato parlamentar é diferente de liderar um projeto majoritário. Uma candidatura ao Governo do Estado depende de definições partidárias, alianças, coordenação política e planejamento eleitoral. Em algum momento, até mesmo quem construiu a carreira questionando a lógica da política precisa lidar com ela.

Agora, partidos como o PL e a Federação “União Progressista” (formada por União Brasil e PP) correm contra o tempo para reorganizar seus projetos e definir quem será o rosto desse campo político na disputa pelo Governo de Minas Gerais. Um nome comentado é o do ex-secretário de Governo de Minas Gerais, e até então pré-candidato ao Senado, Marcelo Aro (PP).

Curiosamente, no início deste mês, o próprio Cleitinho voltou à tribuna do Senado para dizer que adiaria mais uma vez qualquer decisão e afirmou: “quem está com 2% que lute”. Ao que tudo indica, vão lutar.

As convenções partidárias devem encerrar parte das indefinições nos próximos dias. Mas o episódio já deixa uma lição para a eleição mineira de 2026: liderar pesquisas é importante, porém não basta.

Em política, existe um tempo para construir candidaturas. E, quando esse tempo passa, dificilmente ele volta.

Aguardemos o passar dos dias…

* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.


Imagem de destaque: Waldemir Barreto / Agência Senado

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