FUTURO DA MARIA FUMAÇA SEGUE INDEFINIDO APÓS ANÚNCIO DE TRANSFERÊNCIA DA OPERAÇÃO PELA VLI

Ana Messias, Jak Azevedo e Lívia Godoi

Há 60 anos, Dalmiro acompanha a movimentação da estação ferroviária que liga a cidade de São João del-Rei à Tiradentes. Da calçada, onde mantém uma banca de balas, chicletes, sinos, relógios e outros itens variados, ele viu gerações de turistas chegarem e partirem a bordo da Maria Fumaça.

Sobre o futuro do trem turístico e da troca de gestão, porém, ele diz saber pouco.

“Não estou sabendo de nada disso não. Eles não falam nada pra gente”, comenta ao Notícias del-Rei.

A fala resume o cenário que cerca o anúncio da VLI sobre a transferência da operação do Trem Turístico São João del Rei – Tiradentes. Em resposta à reportagem, a concessionária confirmou que mantém tratativas para repassar a atividade a um novo operador voltado exclusivamente para o turismo.

“A VLI confirma tratativas iniciais para que a atividade em questão seja assumida por outro operador com foco exclusivo no turismo. O eventual novo operador, quando instituído, deverá ser uma associação sem fins econômicos, atendendo à recomendação dos órgãos competentes”, aponta-se no texto recebido e assinado pela VLI.

A empresa indica ainda que não haverá interrupção das atividades durante o processo de transição.

Durante todo o período em que esteve responsável pela operação – e até a conclusão da transferência – a VLI conduz e seguirá conduzindo o ativo com zelo e segurança pela operação e pelos empregados responsáveis por ela, reafirmando seu compromisso institucional, não havendo qualquer impacto na continuidade das atividades”, lê-se em outro trecho do comunicado.

Segundo a concessionária, o trem turístico transporta atualmente cerca de 120 mil passageiros por ano.

Turistas no embarque da Estação Ferroviária de Tiradentes. (Foto: Jak Azevedo)

Apesar da confirmação da transferência, a assessoria de comunicação da VLI não divulgou detalhes sobre quem assumirá a operação, qual será o modelo de gestão adotado ou qual será o cronograma da mudança.

Patrimônio histórico e símbolo da cidade

A discussão vai além da operação de um atrativo turístico. O trecho ferroviário integra um complexo histórico composto pela estação, pelo Museu Ferroviário, pela Rotunda e por outros bens ligados à antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM).

A cabine da locomotiva é desacoplada e empurrada manualmente na rotunda para voltar aos trilhos e seguir viagem a São João del-Rei. (Vídeo: Jak Azevedo)

Criada em 1878, a EFOM teve participação direta da população local. Segundo o historiador Alex Lombello Amaral, também morador de São João del-Rei, comerciantes e moradores investiram recursos para tornar o projeto possível.

“Merece destaque que a Estrada de Ferro Oeste de Minas foi criada pela população local. O povo comprou ações. Depois o Banco Almeida Magalhães, considerado o mais antigo de Minas Gerais, completou o que faltava”, narra.

Maria Fumaça na estação de São João del-Rei. (Vídeo: Jak Azevedo)

Para ele, a ligação entre a cidade e a ferrovia permanece viva até hoje. “Ainda existe forte vínculo com a ferrovia. São João tem muitas famílias de ferroviários“, aponta.

O historiador avalia que o trem ultrapassou sua função original e se tornou parte da identidade cultural local.

O trem entrou para a cultura da cidade, com seu apito, a fumaça e toda a memória construída ao redor dele“, garante.

120 mil turistas visitam o Complexo Ferroviário por ano. (Foto: Jak Azevedo)

Artesãos aguardam definição sobre uso dos espaços

A indefinição também alcança comerciantes e artesãos que atuam no entorno da estação.

Dalmiro afirma que trabalha na calçada da estação há seis décadas, mas nunca participou das feiras que já funcionaram dentro do complexo ferroviário.

“Estou há 60 anos aqui na calçada da estação. Tenho alvará do IPHAN para estar aqui, mas nunca participei de nenhuma feira lá dentro”, conta.

Já Eduardo, vendedor ambulante de colares e pulseiras, que frequenta a cidade desde 1979, lembra da existência da feira, mas afirma que ela já não funcionava quando veio para morar em definitivo na região.

“Eu lembro da feirinha, mas faz pouco tempo que vim morar aqui, e o pessoal já vendia só aqui fora. Eu sempre fiquei por aqui mesmo”, afirma.

As barracas de artesanato atualmente ocupam o jardim e a praça da Estação de São João del-Rei. (Foto: Jak Azevedo)

A realização de atividades comerciais dentro do complexo passou a enfrentar restrições nos últimos anos, e apesar das tentativas de diálogo envolvendo representantes da categoria, a Prefeitura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a situação permanece da mesma forma.

IPHAN confirma discussões sobre ocupação dos espaços

Procurado pela reportagem, o IPHAN informou que a autorização para operação do trem não depende diretamente do órgão, mas qualquer gestão deve assegurar a conservação do patrimônio ferroviário.

“Todas as exigências para a seleção do novo gestor são pautadas a partir da preocupação com a preservação e difusão do patrimônio, bem como visando a continuidade da operação do trem no longo prazo”, sinaliza-se.

O IPHAN também confirmou que há discussões em andamento sobre a utilização dos espaços internos do complexo, sem entrar em detalhes.

“A proposta de uso dos espaços está em discussão a partir do plano apresentado pela Prefeitura de São João del-Rei”, lê-se, em nota.

De acordo com o órgão, atividades comerciais e culturais podem ser autorizadas, desde que sejam compatíveis com a preservação do patrimônio histórico e com a segurança da operação ferroviária, mas não deixou claro quais eram as irregularidades que retiraram a antiga feira de artesanato do complexo. A resposta indica que o futuro uso dos espaços por artesãos e comerciantes ainda está sendo debatido.

Prefeituras não detalham próximos passos

Ao ser contacada para esclarecer qual será seu papel na transição, quais critérios serão adotados para a escolha do futuro operador e qual é a situação das negociações envolvendo os espaços da estação, a Prefeitura de São João del-Rei informou que necessitaria de mais tempo para responder aos questionamentos.

A reportagem entrou em contato com João Marcos, gestor do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e responsável pela coordenação do processo de transição. Em conversa inicial, ele afirmou que o tema exigia uma resposta mais detalhada devido à sua complexidade, mas não encaminhou posicionamento até o fechamento desta reportagem.

Tentativas de contato por meio de canais oficiais da administração municipal são-joanense também não obtiveram retorno.

Até o momento, as tentativas de contato com a Prefeitura de Tiradentes também não foram respondidas.

O espaço segue aberto.

Turismo continua movimentando a ferrovia

Enquanto o futuro da gestão permanece indefinido, o trem continua atraindo visitantes de diferentes regiões do país.

A turista Sueli, natural do Ceará e moradora de Belo Horizonte há dez anos, esteve recentemente em Tiradentes para realizar um sonho antigo: viajar de Maria Fumaça.

Ao chegar à estação, descobriu que os ingressos para o dia já estavam esgotados. Mesmo sem embarcar, permaneceu para acompanhar a chegada da locomotiva e registrar o momento.

“Eu gostei de ver. É muito bonita. Eu não sabia que andava tão rápido. Vai ficar pra próxima”, pontua.

Início da viagem de São João del-Rei à Tiradentes. (Foto: Jak Azevedo)

O que se sabe até agora

Até o momento, a VLI confirmou apenas que está em andamento um processo para transferência da operação do trem turístico a uma associação sem fins econômicos voltada ao turismo.

O IPHAN informou que acompanha o processo para garantir a preservação do patrimônio ferroviário e confirmou que existe uma proposta da Prefeitura para utilização dos espaços do complexo.

Enquanto a Maria Fumaça continua percorrendo os trilhos entre São João del-Rei e Tiradentes, as questões centrais – como a identidade do futuro operador, os critérios de seleção, o cronograma da transição e o futuro dos espaços ocupados por comerciantes e artesãos – seguem sem respostas oficiais.


Imagem de destaque: Jak Azevedo

Edição: João Barreto, Najla Passos e Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

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