Arthur Raposo Gomes *
A eleição de 2022 acabou há quatro anos, mas parte do clima daquela disputa parece ter ficado. Foi um período de forte tensionamento político, com discussões entre amigos e familiares e muita gente expondo abertamente suas preferências. Em 2026, a sensação foi diferente: a política continuou presente, mas a campanha demorou a ganhar temperatura e o voto parece ter ficado mais silencioso.
Isso não significa, necessariamente, desinteresse. Pesquisa Datafolha de setembro mostrou que 32% dos eleitores se consideravam menos engajados em fazer campanha presidencial do que em 2022. Depois de uma disputa tão tensionada, é possível que parte do eleitorado tenha preferido acompanhar a eleição sem transformar cada escolha em discussão pública.
Faltou confronto de projetos de sociedade também entre os candidatos
Na disputa presidencial, os principais concorrentes não estiveram frente a frente no primeiro turno. Em Minas Gerais, os debates também foram marcados por ausências, e somente na reta final os seis principais candidatos ao Governo do Estado dividiram o mesmo palco.
Isso não significa que não tenha havido debate eleitoral. Houve entrevistas, sabatinas e encontros entre candidatos. A campanha também aconteceu intensamente nas redes, com vídeos, cortes, memes, pesquisas e declarações circulando o tempo todo. O que faltou foi um confronto mais contínuo entre os principais nomes e, muitas vezes, entre os próprios projetos em disputa.
Uma declaração feita pela manhã podia receber resposta horas depois, em outro ambiente. Cada candidato escolhia onde falar, como responder e, em alguma medida, a quais discussões se submeter. É uma dinâmica bastante diferente daquela do debate, em que a pergunta, a resposta e o contraditório dividem o mesmo espaço.
A própria conjuntura ajudou a embaralhar a campanha. A sucessão de acontecimentos políticos ocupou espaço na imprensa e nas redes, enquanto saúde, educação, trabalho, segurança, desigualdade e desenvolvimento precisavam disputar atenção todos os dias. Os temas estavam lá, mas nem sempre permaneceram no debate público tempo suficiente para serem aprofundados.
E uma eleição também deveria ser oportunidade para colocar diferentes projetos de país e de estado em confronto. As redes ampliaram as possibilidades de comunicação, mas falar diretamente para quem já acompanha um candidato não produz necessariamente o mesmo efeito que responder ao contraditório.
Neste domingo, as urnas mostrarão o resultado de uma campanha que demorou a engrenar. Depois, virão as análises sobre quem ganhou, quem perdeu e por quê. Compreender 2026, porém, também exigirá olhar para uma eleição vivida sob a memória de 2022, com menos disposição para alguns confrontos e uma conversa pública atravessada pela velocidade dos acontecimentos.
O eleitor pode ter falado menos sobre o voto. A partir deste domingo, será preciso entender o que esse silêncio também estava dizendo.
Aguardemos o passar dos dias.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT
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