”ALÉM DA CAMPANHA”: O VOTO ÚTIL TE ORIENTA?

Daniela Mendes

A defesa do voto conjunto em Marília Campos (PT) e Áurea Carolina (PSOL) marcou a passagem da candidata petista ao Senado por São João del-Rei, no último dia 24. Em seus discursos, candidatas, candidatos e lideranças presentes reforçaram a importância de eleger as duas representantes do campo da esquerda e rejeitaram o chamado voto útil em nomes da direita ou do centro. O encontro reuniu algumas das principais lideranças de esquerda e de movimentos sociais da região, sobretudo mulheres, que fizeram questão de se posicionar publicamente pelas candidaturas femininas ao senado.

Também no último dia 17 (imagem em destaque), o presidente Lula criticou em Montes Claros a combinação de votos entre Marília Campos e Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo Senado. Ele reafirmou a dobradinha de Marília com Áurea Carolina e deixou claro que não endossa o chamado “Marécio”. Chegou ao conhecimento dele que eleitores e apoiadores da ex-prefeita de Contagem vinham estimulando o segundo voto no tucano para evitar uma eventual eleição de Domingos Savio (PL).

O incômodo tem histórico: a disputa presidencial de 2014 em que o tucano concorreu contra a petista e pela articulação do golpe de estado contra Dilma Rousseff que foi encabeçada por Aécio Neves em 2016. No palanque, Lula resgatou justamente esse episódio e rejeitou a possibilidade de combinar o voto de Marília com outros nomes de centro-direita, como Marcelo Aro (PP).

A preocupação do Presidente e todo campo que o apoia alcança o chamado “voto útil”, que é a razão de muitas reviravoltas na política. E é dele que vamos falar na coluna Além da Campanha essa semana.

  • O chamado voto útil ocorre quando o eleitor escolhe um candidato que não necessariamente é sua primeira opção. Ou seja, é a decisão que leva em conta as chances de cada candidatura: o eleitor abre mão da preferência levando em consideração o resultado provável da eleição.

Aécio Neves confunde a escolha ideológica

Na Quaest de 22 a 26 de abril, em cenário com os dois nomes, Aécio aparecia com 11% e Áurea com 6%. A margem de erro era de três pontos percentuais. Na rodada de 22 a 26 de julho, Aécio passou para 16%, enquanto Áurea apareceu entre 2% e 3%, dependendo da situação. No cenário 1, que incluía os dois, eram 16% para Aécio e 3% para Áurea.

A trajetória ficou interrompida em agosto, porque Aécio anunciou que não disputaria a eleição em 4 de agosto e deixou de ser testado em algumas pesquisas. Depois, ele voltou atrás e confirmou a candidatura ao Senado em 28 de agosto.

Na Quaest realizada entre 4 e 7 de setembro, já novamente com Aécio na disputa, o levantamento que combina os dois votos para senador registrou 10% para Aécio e 2% para Áurea. Foram entrevistados 1.506 eleitores, com margem de erro de três pontos percentuais.

Isso permite descrever os números, mas não atribuir causalidade: na série da Quaest, Áurea passa de 6% em abril para 3% em julho e 2% em setembro; Aécio passa de 11% para 16% e depois 10%. A distância entre os dois, portanto, aumenta em relação ao início da série.

É verdade que entre julho e setembro os dois caem simultaneamente: Aécio de 16% para 10% e Áurea de 3% para 2%. Isso enfraquece a hipótese simples de uma transferência direta de votos de Áurea para Aécio. Se estivéssemos vendo apenas um movimento de substituição entre os dois, esperaríamos encontrar indícios adicionais de que a queda de um acompanha o crescimento do outro.

Há ainda um pequeno “experimento” interessante dentro da própria Quaest de julho. No cenário 1, com Aécio, Áurea tinha 3%. No cenário 4, sem Aécio, Áurea continuava com exatamente 3%. Quem mudava eram outros candidatos e, principalmente, indecisos: estes passavam de 10% para 17%.

Uma análise da Quaest de julho publicada por O Tempo afirma que Aécio aparecia como o segundo nome mais citado tanto entre eleitores de esquerda quanto entre eleitores de direita para a segunda vaga. Como o eleitor mineiro pode votar em dois candidatos ao Senado, isso levanta uma questão diferente e mais interessante do que simplesmente “Aécio rouba votos de Áurea”: o tucano pode estar conseguindo entrar como segundo voto de eleitores de diferentes campos políticos.

Mais pesquisas eleitorais

Na rodada da Quaest para o Senado em 17 de setembro, a corrida ao senado apontava Marília (PT) na liderança com 13%, Aécio Neves (PSDB) com 10% e Carlos Viana (PSD) com 8%. Na retaguarda, Domingos Sávio (PL) com 6%, Marcelo Aro (PP) com 4% e Áurea Carolina com 2%. Outros candidatos somam 7%, indecisos 29%, brancos e nulos 21%.

É pelo número de indecisos que podemos afirmar que a corrida ao senado não tem ninguém garantido e se o campo da esquerda começar a atribuir voto útil em candidatos de direita, até a preferência em Marília pode ser derrubada. A desculpa, no entanto, de quem não escolhe campo é a rejeição ao PL, partido do antagonista do presidente Lula, Flávio Bolsonaro. É nisto que a campanha de Aécio Neves tem apostado nas redes sociais e o que tem preocupado a campanha petista.

Há ainda um dado muito expressivo na pesquisa espontânea: 85% não souberam indicar candidato ao Senado. Marília tinha 3%; Carlos Viana, Marcelo Aro e Domingos Sávio, 2% cada; Aécio e Áurea, 1% cada. Este é um tipo de levantamento feito por institutos de pesquisa em que o entrevistador pergunta ao eleitor, sem apresentar nenhuma lista de candidatos, em quem ele pretende votar. Ou seja, a resposta vem da lembrança imediata do eleitor, sem estímulos ou opções prévias.

O efeito Dilma

Um exemplo de como a decisão tomada na reta final pode alterar uma disputa ocorreu na eleição para o Senado por Minas Gerais em 2018. Dilma Rousseff (PT) liderou as pesquisas durante a campanha inteira, mas terminou fora das duas vagas.

Na véspera da eleição, o Datafolha mostrava Dilma com 23% dos votos válidos, seguida por Rodrigo Pacheco (DEM), com 15%, Carlos Viana (PHS hoje PSD), com 14%, e Dinis Pinheiro (Solidariedade), com 12%. Pacheco, Viana e Dinis estavam tecnicamente empatados. Havia ainda grande indefinição: considerando o segundo voto para senador. O número de  28% dos entrevistados não sabiam em quem votar.

No final, as urnas produziram um resultado bastante diferente. Rodrigo Pacheco e Carlos Viana foram eleitos, enquanto Dinis Pinheiro ficou em terceiro e Dilma, em quarto.

A mudança ocorreu num contexto de forte disputa política em torno do PT e de Dilma, que havia sofrido impeachment dois anos antes. O próprio desempenho eleitoral mostra, porém, que houve também uma movimentação expressiva entre os demais candidatos nos últimos dias: em 28 de setembro, por exemplo, o Datafolha registrava Dilma com 28%, Pacheco com 17%, Viana com 14% e Dinis com 10%.

Uma das hipóteses para compreender mudanças desse tipo foi o voto útil ou estratégico. O eleitor abandonou sua primeira preferência e escolheu outra candidatura para evitar um resultado. No caso mineiro, a enorme quantidade de eleitores ainda indecisos para a segunda vaga deixava espaço para esta alteração importante na reta final. E é um quadro pré-eleitoral que lembra muito o desse ano.

É verdade que o caso de 2018, apesar de mostrar com segurança uma grande mudança entre as pesquisas finais e as urnas, não prova simplesmente a consequência do voto útil. Pois a participação do voto estratégico nessa mudança é uma interpretação que precisa ser sustentada por pesquisas específicas sobre comportamento eleitoral. Mas ele é uma expressão política que merece atenção.

Entre o cálculo e a escolha política

Na reta final da eleição, a disputa pelas duas vagas ao Senado continua aberta e o segundo voto ganhou um peso político que talvez não tivesse no início da campanha. A Quaest divulgada nessa terça-feira (29) mostra Domingos Sávio com 14%, Marília Campos com 13%, Carlos Viana e Aécio Neves com 12% cada. Áurea Carolina aparece com 4%. Com margem de erro de três pontos percentuais, os quatro primeiros estão tecnicamente empatados, Aécio caiu e Áurea subiu.

Além disso, a poucos dias da eleição, o número de eleitores que ainda não definiu seus votos para o Senado permanece alto em Minas Gerais. Na pesquisa Quaest divulgada em 29 de setembro, os indecisos representam 18% no resultado que combina as duas escolhas para o Senado. Outros 17% declaram que pretendem votar em branco, anular ou não votar. Na pesquisa espontânea, em que os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, a indefinição é ainda maior: 76% não souberam citar nem um nome para o Senado.

A incerteza é maior na escolha da segunda vaga. Quando a Quaest pergunta separadamente sobre cada um dos dois votos a que o eleitor mineiro tem direito, 16% estão indecisos sobre o primeiro voto e 13% dizem que votarão em branco, nulo ou não irão votar. No segundo voto, os indecisos sobem para 22%, enquanto 20% afirmam que votarão em branco, anularão ou não irão às urnas. Em relação à pesquisa de 23 de setembro, porém, houve redução da indecisão: ela caiu de 26% para 16% no primeiro voto e de 31% para 22% no segundo. Além disso, 33% dos entrevistados afirmaram que ainda podem mudar sua escolha para o Senado.

Aparentemente, a condenação do efeito “Marécio” ganhou espaço, dado o aumento de pontos percentuais de Áurea Carolina. A defesa da dobradinha Marília e Áurea parte de manter os dois votos dentro do campo político de esquerda para sustentar as duas candidaturas ou pelo menos uma. E em Minas Gerais o voto estratégico deixa de ser apenas uma conta eleitoral. Escolher o segundo nome passa a significar a decisão de quais diferenças políticas podem ser relativizadas para tentar produzir determinado resultado.

Também não há pesquisa capaz de garantir que determinada combinação produzirá o resultado imaginado por quem a defende. A experiência de 2018 mostra justamente o tamanho da movimentação possível nos últimos dias sem oferecer uma fórmula para 2026 propriamente. Pesquisa registra um momento da disputa. O voto estratégico depende da leitura que o eleitor faz desses números, das candidaturas que considera competitivas e, sobretudo, do resultado que pretende favorecer ou evitar.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas se o voto útil orienta. Ele orienta a partir de uma escolha anterior: qual resultado o eleitor considera mais importante produzir. Em uma eleição com duas vagas para o Senado, isso fica ainda mais evidente. O primeiro e o segundo voto podem expressar preferência, cálculo, rejeição ou uma mistura dessas coisas.

No domingo, quando essa conta sair das pesquisas e chegar às urnas, vamos descobrir o resultado. O que não será possível saber apenas olhando o placar. Afinal, ele não diz o quanto dele nasceu da primeira preferência do eleitor e quanto veio desses cálculos feitos na reta final.

Para entender isso, como quase sempre acontece na política, será preciso olhar além da campanha.


Imagem de destaque: Ricardo Stuckert / divulgação

Apoio Editorial: Arthur Raposo Gomes

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