ARTIGO DE OPINIÃO: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – UM FUTURO EM DISPUTA

Júlia Valgas *

A gente já se acostumou a lidar com a inteligência artificial: dos fiscais dos travessões do ChatGPT àqueles que acreditam que não usam IA, mas marcam consultas por chatbots, todos nós, gostemos ou não, estamos em um mundo mediado pela inteligência artificial.

No entanto, automatizar tarefas rotineiras esconde um problema: programar o presente de acordo com as experiências do passado significa manter a ordem social vigente – e isso inclui as desigualdades políticas e sociais já intrínsecas aos dados. Afinal, toda IA depende de dados e todo dado é marcado por ideologias e relações de poder.

É claro que marcar uma consulta de forma automática não têm consequências imediatas sobre o racismo estrutural, o problema está na automatização de diagnósticos, contratações, julgamentos… A questão é que as ideias propostas por uma inteligência artificial anteriormente foram o modo de pensar de seres humanos marcados por suas próprias experiências de mundo e influenciam na forma como compreendemos a sociedade hoje.

Além disso, seria ingenuidade desconsiderar as implicações físicas do uso dessas tecnologias. Infraestruturas de inteligências artificiais incluem um exagerado consumo de água para resfriamento dos data centers, trabalho precarizado de rotulação e classificação de dados feito por pessoas vulneráveis em países em desenvolvimento, o uso dos nossos dados pessoais para o treinamento ostensivo de máquinas, entre outros lastros materiais das tecnologias digitais.

Mas enquanto as discussões sobre a ascensão das ferramentas de IA parecem estar polarizadas entre utilizá-las ou não, há uma alternativa – um pouco mais realista – sendo ignorada: a internet, assim como o mundo da vida, é campo de disputa. 

Resta a nós, usuários diários – conscientes ou não – das interfaces de inteligência artificial, o poder de disputar quais usos faremos – e quais escolhemos rejeitar – dessas tecnologias. Quais ideologias queremos reforçar? Quem tem o direito de contribuir para moldar o mundo em que vivemos? Com quais impactos sociais e políticos queremos – ou poderemos – lidar?

O futuro da inteligência artificial não é definido exclusivamente pelas grandes empresas de tecnologia. Nós estamos, a todo momento, aceitando ou questionando o poder das plataformas. E se a tecnologia é um campo de disputa, cabe a nós pautarmos a construção do futuro que sonhamos.

* Júlia Valgas é estudante de Jornalismo e realiza pesquisas sobre Inteligências Artificiais Feministas.


Imagem de destaque: banco de imagens / Pexels

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