Arthur Raposo Gomes *
Durante algumas horas, candidatos dividem o mesmo estúdio, respondem perguntas, apresentam propostas, fazem críticas e precisam reagir ao que acontece ali, ao vivo. Do lado de fora, porém, outro debate já começou.
E enquanto a transmissão acontece, trechos das falas são recortados pelas próprias campanhas. Veículos fazem lives simultâneas. Jornalistas comentam os principais momentos em tempo real. Perfis políticos selecionam respostas, apoiadores compartilham vídeos e os primeiros memes começam a circular antes mesmo do encerramento do programa.
Quando o mediador se despede, muita gente já acompanhou bastante coisa sem ter assistido ao debate inteiro. Isso não significa que a televisão tenha perdido importância. Pelo contrário. O debate continua sendo um dos poucos momentos em que diferentes candidaturas ocupam o mesmo espaço, submetidas às mesmas regras e obrigadas a responder perguntas diante do eleitorado.
Mas a transmissão deixou de ser o único caminho possível para acompanhar aquele encontro.
Um episódio das eleições municipais de 2024 ajuda a lembrar disso. Uma discussão entre dois candidatos terminou em uma agressão com uma cadeira. A cena durou poucos segundos, mas percorreu as mídias sociais, virou meme e alcançou um público muito maior do que aquele que estava diante da televisão naquele momento.
O caso foi extremo. A lógica, nem tanto. Um debate de duas ou três horas pode acabar resumido, para parte do eleitorado, a uma frase inesperada, uma provocação, uma reação ou um vídeo de trinta segundos que circulou mais do que qualquer proposta apresentada naquela noite.
E em 2026, surgiu ainda outro elemento importante: a ausência. Nas últimas semanas, diferentes candidaturas passaram a anunciar que não participariam de determinados debates. Em Minas Gerais, encontros foram realizados com púlpitos vazios. Em outras disputas, a falta de confirmação de candidatos levou até ao cancelamento de debates previstos por veículos de comunicação. A decisão de não comparecer também passou a fazer parte da campanha. E isso comunica.
Uma ausência gera perguntas durante o programa, críticas dos adversários, justificativas das assessorias, editoriais na imprensa e discussões nos grupos de WhatsApp. Às vezes, o candidato calcula que tem mais a perder participando. Outras vezes, entende que sua estratégia eleitoral passa justamente por evitar determinado confronto. Concordando ou não com a escolha, ela produz efeitos políticos.
Há uma diferença importante, no entanto, entre assistir ao debate e conhecer apenas aquilo que repercutiu.
O corte já chega escolhido. Alguém decidiu onde ele começa, onde termina e qual legenda vai acompanhá-lo. O meme faz outra seleção. A manchete também. Cada formato apresenta apenas uma parte daquele encontro e ajuda a construir a leitura que será feita depois.
Isso sempre existiu em alguma medida. Jornais, rádios e telejornais também selecionavam os principais momentos. A diferença está na velocidade com que esses fragmentos circulam e na quantidade de caminhos que cada um pode seguir.
Por isso, talvez seja cada vez mais comum alguém não assistir a um debate e, ainda assim, sentir que acompanhou tudo.
A questão é outra: qual debate chegou até essa pessoa?
Aguardemos o passar dos dias.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT
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Texto inicialmente e também publicado no portal “Barbacena Online”.
