CRÔNICA: ENTRE FICAR E SEGUIR

João Vitor Resende

Normalmente, os ares do inverno me trazem uma certa melancolia. Os dias quase sempre amanhecem nublados, frios e arrastados. Por morar em uma cidade alta, isso acaba piorando mais ainda, criando assim o tom melancólico perfeito que essa estação do ano me faz sentir. Mas a verdade é que eu coloco a culpa da minha melancolia no tempo, e não na verdadeira causa, que é: o tempo.

O tempo tem sido imperdoável comigo nos últimos anos. O senhor dos senhores vem passando por cima das minhas ações e emoções, que acaba que nem consigo processar muito bem o dia a dia, que quando vejo, já é noite, e a manhã já vem trazendo outro dia, e outras coisas acontecem, e tudo prossegue em uma louca sequência que não consigo nem respirar. Isso me deixa uma impressão de que eu não dou conta de acompanhar as minhas próprias mudanças. A sensação é que os dias têm sido atravessados, e não vividos, mas sempre com um gancho me puxando pra um tempo pregresso.

Um pregresso quando junho só era frio e nublado, e não me trazia a melancolia e o tom de saudade que tenho tido nos últimos anos. A saudade em questão é dos junhos em que a minha casa era tomada pelos clássicos sertanejos de Milionário e José Rico, as gérberas no altar de Nossa Senhora, cheiro de comida fresca na hora do almoço, e beijos de boa noite antes de dormir. E esses dias de junho acabavam se estendendo durante os outros meses e estações.

A verdade é que depois daquele junho, em que a visita mais indesejada de todas as visitas passou pela minha família, eu perdi o brilho nesses dias. E desde então, os outros meses do ano têm sido um pouco junho. Mas apesar disso, os dias continuam passando. Imperdoáveis, sem horas pra porquês. O mundo continua girando, apesar de o meu ter parado. Parado não, mas diminuído a rotação. Nesse dia de junho em que essa chave foi virada, eu me peguei refletindo olhando a cidade. As casas ao redor continuavam alegres, com músicas e risadas. As pessoas continuavam indo para seus empregos, ou indo comprar pão. A vizinha da esquina, que sempre foi uma grande analista do bairro, para não a chamar de coisa pior, continuava realizando com ardor a sua função. As ruas continuaram a ser varridas, os carros a rodarem por aí. Tudo seguiu seu rumo, como se nada tivesse sido interrompido. E realmente, para o mundo, aquele dia foi só mais um.

Mas no meu interior, algo foi interrompido. Desde então, eu sigo como se corresse atrás da vida, que segue o ritmo de uma banda, tocando uma marcha marcial acelerada. Um, dois, um dois. E tem dias que eu não consigo acompanhar essa marcha, e acabo ficando muito pra trás. Quando foi que a vida ficou tão acelerada assim?

A ausência que aquela visita que eu citei lá atrás deixou não é bem uma ausência. Seria mais uma presença deslocada. Apesar da ausência e do tempo que ainda está ali seguindo na marcha acelerada, eu ainda sinto a presença daquela que se foi em pequenas coisas. Seja na música que a casa entoava, no chinelo que ficou na beirada da cama, no colar que ainda está sob a penteadeira, e principalmente no silêncio ensurdecedor das madrugadas, madrugadas essas que tanto passamos acordados.

O tempo fez o que ele faz: seguiu. E eu tenho tentado seguir junto. Hoje, cinco junhos depois do fato que me faz vomitar essas palavras sob a tela do computador (sei que papel seria mais poético, mas devo ser sincero), eu entendo que a ausência não é preenchida: ela é ressignificada. A saudade passa a ser algo possível de se carregar, e até mesmo serve de lembrete de que a vida continua. Ela segue me chamando, mesmo quando eu penso em ficar pra trás.

Na música Coisas da Vida, de Rita Lee, ela diz: “São coisas da vida que a gente se olha e não sabe se vai ou se fica”. Naquele dia de junho, eu tive esse questionamento. Mas, mesmo quando quis ficar, eu fui. Segui o tempo, a vida e seu ritmo, até mesmo quando fica acelerado demais. O mundo continua girando, o meu também, mas num ritmo diferente. E sinceramente, acho que ele nunca mais vai voltar como antes.

Mas o que posso fazer? São coisas da vida.


Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Magnific

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