Letícia Rabelo e Manuella Oliveira
Júlio César Cabral, 69 anos, é livreiro há mais de três décadas e mantém bancas de livros em Barbacena. Durante sua trajetória, Júlio César acumulou vivências defendendo com veemência seus pontos de vista e se esforçando para manter seu posicionamento firme, principalmente durante a ditadura militar, período em que sofreu com a censura e chegou a ser preso.
Apaixonado por literatura e política, o livreiro dedica sua vida a transmitir conhecimento por meio da leitura acessível, administrando livrarias voltadas para preços populares e livros de não ficção. Além da venda de livros, também produz jornais culturais independentes, distribuídos junto às vendas realizadas pela internet e em universidades da região. Em entrevista, ele fala sobre jornalismo, literatura, política e resistência cultural.
Reportagem: Como começou sua trajetória no jornalismo e nas livrarias?
Júlio César: Comecei há 33 anos, com uma banquinha pequena em Santos Dumont. Depois fui para Barbacena e continuei trabalhando com livros e jornais culturais.
Reportagem: Qual é o foco do seu jornalismo?
Júlio César: Meu jornalismo é cultural. Gosto de trabalhar com autores progressistas, muita arte, literatura e política. Acho importante levar cultura gratuitamente para as pessoas.
Reportagem: Como você relaciona cultura e política?
Júlio César: Tudo na vida é político. Desde o que a gente consome até a forma como vive. Meu jornal mistura muito arte, pintura, literatura e discussão política.
Reportagem: Qual foi o período mais difícil para atuar no jornalismo?
Júlio César: A época da ditadura militar. Em 1980, quase ninguém queria fazer jornalismo por causa da repressão e da censura. Os livros e jornais eram censurados.
Reportagem: Mesmo com o crescimento do digital, por que continuar produzindo jornais impressos?
Júlio César: Porque o jornal impresso tem um valor especial. É diferente entregar o jornal na mão da pessoa, ver ela levar para casa e ler depois.
Reportagem: Como surgiu a ideia da livraria?
Júlio César: Comecei com uma banca pequena e até tentei misturar venda de livros com bebidas e salgados. Mas não deu certo. Acabei escolhendo ficar só com os livros.
Reportagem: Quais são suas maiores referências literárias?
Júlio César: No Brasil, gosto muito de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Cecília Meireles. No exterior, gosto de Sartre, Bukowski, Shakespeare e Albert Camus.
Reportagem: De onde veio seu interesse pela leitura?
Júlio César: Minha mãe era professora e insistia muito para que eu lesse desde criança. Naquela época não existia internet, então os livros eram muito presentes.
Reportagem: Você acredita que suas livrarias cumprem o objetivo que imaginava?
Júlio César: Sim. Em Barbacena, acredito que consegui aumentar bastante o número de leitores ao longo desses anos, principalmente porque vendo livros baratos e acessíveis.
Reportagem: Que público mais frequenta suas bancas?
Júlio César: Tem de tudo, mas muita gente jovem ainda gosta de ler. Existe esse discurso de que o jovem não lê mais, mas isso não é verdade.
Reportagem: Em poucas palavras, o que os livros representam para você?
Júlio César: Livro é resistência. Livro é tudo.

Edição: Najla Passos e Arthur Raposo Gomes
Supervisão: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Letícia Rabelo
