COMO A COPA DO MUNDO APROXIMOU BRASIL, MÉXICO E ESTADOS UNIDOS EM SÃO JOÃO DEL-REI, NO INTERIOR DE MINAS GERAIS

Arthur Raposo Gomes

A Copa do Mundo de 2026 ocorre nos Estados Unidos, México e Canadá, mas dois jovens estadunidenses têm acompanhado a competição de um lugar bem diferente: São João del-Rei. Morando na cidade para estudar, eles dividem a torcida entre países, culturas e histórias familiares. Em comum, carregam a surpresa com a forma como os brasileiros vivem o futebol e transformam cada partida em um acontecimento coletivo.

Há seis meses no Brasil, Pablo Enrique Martinez Bojorquez, de 25 anos, participa do Portuguese Flagship Program, iniciativa voltada para estudantes norte-americanos que desejam alcançar fluência avançada em outros idiomas. Nascido em Tucson, no Arizona, ele carrega uma história que atravessa fronteiras: nasceu nos Estados Unidos, mas é filho de mexicanos. Por isso, a Copa de 2026 tem um significado especial.

É um sentimento de orgulho e pertencimento aos dois países. Parece uma Copa que também conta um pouco da minha própria história”, comenta.

A divisão também aparece na hora de torcer. Apesar de reconhecer a importância dos Estados Unidos em sua trajetória acadêmica e profissional, Pablo admite que as raízes familiares falam mais alto.

“Meu coração costuma pender mais para o México por causa da minha família e das minhas raízes. Mas nunca foi uma escolha simples, porque também me sinto americano e é graças a o governo dos Estados Unidos que eu tive a oportunidade de estudar no Brasil e anteriormente na Espanha”, afirma.

A Copa, segundo ele, sempre foi um momento de união familiar.

A Copa sempre foi um momento de união. Reunir a família, vestir as cores do time e viver cada jogo com emoção são lembranças que carrego com carinho”, revela.

Perguntado se é estranho acompanhar uma Copa em que seu país de nascimento é sede, mas não está lá, Pablo reflete: “(É) um pouco”. “Ao mesmo tempo, é especial enxergar a Copa através dos olhos de um país que respira futebol como o Brasil”, complementa.

Se pudesse escolher uma partida para acompanhar no estádio, a preferência seria um duelo carregado de simbolismo. “México x Estados Unidos. Seria como ver duas partes da minha identidade se encontrando em campo, mas essa copa é do homem Cristiano Ronaldo’, defende.

E quanto a uma reta final hipotética envolvendo Brasil, Estados Unidos e México, ele não hesita em apontar qual seleção tem sua torcida mais forte: “México. Seria impossível ignorar minhas raízes familiares, sempre grato com os Estados Unidos, mas o coração pesa muito”, indica.

Sobre a relação dos brasileiros com o futebol, Pablo destaca a intensidade da paixão.

“No Brasil, o futebol parece fazer parte da vida cotidiana, das conversas, das memórias e da identidade das pessoas, lá nos Estados Unidos não tem jogadores de futebol, tem atletas. Durante minha vida tive a oportunidade de jogar com americanos como eu, com pais de diferentes países, me senti em um ambiente de paz e tranquilidade entre diversas culturas”, argumenta.

Também natural de Tucson, no Arizona, Julianna Sarah de Oliveira Schrader, de 21 anos, vive no Brasil enquanto estuda Português e Psicologia na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Filha de mãe brasileira, ela cresceu em uma família que sempre torceu pela Seleção Brasileira, mesmo vivendo nos Estados Unidos.

“Desde que eu era criança minha família torcia para o Brasil em vez do EUA (minha mãe é brasileira), mas eu sigo a informação da equipe do meu país também da mesma forma…e eu ‘torço em segredo’ para nossos jogadores também”, brinca.

Para ela, viver a Copa no Brasil é diferente do que costumava experimentar nos Estados Unidos.

“Eu sinto falta da comida e decorações que minha mãe faz. Nós festejamos em casa juntos com nossas vuvuzelas antigas dos anos 90. Mas fora da casa eu sinto mais uma cultura da Copa do Mundo aqui no Brasil. Eu não vejo muita felicidade e ansiedade para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Não é nosso esporte”, avalia.

Uma das diferenças que mais chamou sua atenção foi a mudança na rotina das cidades brasileiras durante os jogos da Seleção.

O que mais me chamou atenção foi que os supermercados fecham nos dias do jogo do Brasil. Achei muito estranho como se fosse feriado, mas é muito legal. Os brasileiros têm muito orgulho do seu país e querem apoiar os jogadores representativos. Todo mundo fala sobre futebol. Tudo é sobre futebol durante esse mês”, observa.

Mesmo acompanhando algumas partidas sozinha ou enquanto realiza tarefas da faculdade, Julianna se impressiona com a forma como o futebol mobiliza os brasileiros. “Os estereótipos sobre o Brasil e o futebol não fazem justiça ao país em sua paixão”, argumenta.

E conclui com uma percepção que, para ela, ajuda a explicar a relação entre os brasileiros e a Seleção.

“Mesmo hoje em dia com o clima polarizado no pais, todo mundo está muito orgulhoso do país e dos jogadores. Eu admiro que é como se todos eles fossem nossos irmãos ou filhos da nossa própria família. Mesmo com os clubes, eles se cuidam”, finaliza.

Ao centro da foto, Pablo (de camisa amarela); ao lado dele, Julianna (de calça jeans), e amigos em visita a estádio brasileiro (Foto: arquivo pessoal)


Imagem de destaque: arquivo pessoal

Apoio à Produção Jornalística: Deogracia Goleng

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