VOCÊ SABIA QUE EXISTE UMA DELEGACIA DE MULHER EM SÃO JOÃO DEL-REI?

Mateus Castro

O Notícias del-Rei faz esta entrevista especial com Bruna Alves, que responde pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher no município.

Quem é a delegada

Bruna tem 33 anos e é graduada em Direito. Ela já prestou alguns concursos no âmbito da Justiça, mas abriu mão para atuar como delegada.

Com passagens por outras duas cidades, está em São João del-Rei desde fevereiro de 2023. Ela conta que ainda na faculdade já se interessava pelo material ligado à criminalística.

Cenário regional, estadual e nacional

Reportagem da Agência Senado mostra que, em 2019, apenas 417 municípios brasileiros dispunham de Deams. O número foi ainda menor do que em 2014, quando havia delegacias de mulheres em 441 cidades no país.

Já de acordo com o portal O Tempo, Minas Gerais conta, em 2023, com 69 unidades de delegacia de mulheres, sendo duas na capital e as demais nas áreas metropolitanas e no interior. Número muito baixo para atender a demanda do estado: matéria publicada pelo Estado de Minas destaca que o Minas Gerais teve maior número de feminicídios no Brasil em 2021.

A delegada comenta que, nos últimos anos, tiveram poucos concursos para suprir a demanda de mão de obra. Analisando São João del-Rei, por exemplo, hoje a equipe da unidade conta com três escrivães, duas investigadoras e dois investigadores.

Em locais como nas cidades vizinhas, que não têm uma delegacia especializada, o apoio ocorre nas delegacias militares. Bruna reitera que “a polícia, hoje, tem investido muito na capacitação da mão de obra para poder realizar o atendimento”.

Quanto a prática de estupro, Bruna pontua que esse “crime horrível” ocorre sem testemunhas e, muitas vezes, no eixo de convivência da vítima, como atestado por pesquisa do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2023.

Levantamento nacional traça um mapa dos casos de estupro
(Imagem: reprodução / Anuário de Segurança Pública de 2023)

Relatos e experiências

Ao perguntar à delegada sobre a conduta dos agressores diante ela, Bruna responde que os denunciados tendem a ter perfis similares de conduta: a primeira, em casos que já tenham passagem por algum tipo de transgressão ou agressão, a negativa das acusações é frequente.

Por outro lado, acusados “primários”, ou seja, que não tiveram contato anterior com a instância policial, muitas vezes, relatam que “derrubaram panela”, “quebraram celular” ou disseram “palavras indevidas”, mas não bateram na vítima. Nesse ponto, destaca-se que muitos agressores consideram somente a instância física, sendo que existem mais modalidades de violência contra a mulher.

Bruna ainda diz que, em alguns casos, ela mesma tem que se impor, pois ao verem que é uma mulher que está representando a justiça, eles tentam intimidá-la.

“Eu já fui ouvir um agressor e ele falou que tinha ofendido a mulher com várias palavras de baixo de calão. Ele disse: ‘eu ofendi mesmo, é o que eu acho dela’. Eu achei aquilo um absurdo! Falei com ele: ‘a partir do momento que você acha, guarda pra você. Mas quando você externar isso, passar isso pra ela, isso é crime, né?'”, narra.

Ela continua. “Aí eu expliquei: ‘você gostaria de ser ofendido? Se você estivesse na rua, um amigo, qualquer pessoa que você não conhecesse, te ofendesse dessa forma, você ia gostar? Isso é crime, né?’. Aí eu vejo isso, que tem muito homem, às vezes, que fica um pouco retraído, e tem uns outros que acham que a mulher é boba, pelo fato das oitivas geralmente serem feitas por mulher“, completa.

O papel da escola

A delegada descreve que, recentemente, recebeu uma denúncia graças a uma professora que detectou um comportamento diferente em uma aluna e graças a essa observação foi possível ajudar essa criança. Ela reitera que, com a pandemia da Covid-19, muitas crianças ficaram restritas ao convívio familiar, impedindo a vivência na escola e esse tipo possível de ajuda. 

Em São João del-Rei, existem parcerias com as escolas para propiciar palestras e eventos com intuito de promover a orientação.

Bruna ainda conta outra história de uma senhora que tinha 25 anos de casada e, através do seu filho de 13 anos, foi realizada a denúncia. Isso devido a criança ter participado de uma palestra na sua escola: ele identificou que sua mãe estava sofrendo violência e fez a denúncia da condição que a figura materna enfrentava.

Condição social

Em setembro de 2023, foi sancionada a lei federal que prevê o aluguel para mulheres vítimas de violência. Em suma, ela destinará recursos para que a mulher que seja vítima de violência possa ter condições de manter-se longe do agressor. O valor que ela receberá depende da condição social da mesma e cidade que fica.

Bruna comenta que em algumas situações as denúncias só chegam aos canais após as vítimas começarem a trabalhar ou ter condição de se manterem. A delegada reflete que que esse tipo de dependência financeira impede, muitas vezes, a denúncia. Além disso, em alguns casos é falado no eixo familiar de um condição, mas as pessoas no entorno não acreditam nos fatos relatados.

Casos de violência na região

Em março de 2023, condenado na Lei Maria da Penha, um vereador de São João del-Rei perdeu mandato. O caso ganhou repercussão, pois Stefânio Pires (União Brasil) era líder do governo na Câmara Municipal.

A delegada comenta que é de suma importância o trabalho da imprensa de noticiar casos de figuras públicas para o encorajamento das vítimas.

Ela conta que tem agressores que debocham das vítimas: “eu só vou pagar no máximo uma cesta básica, não vai dar em nada”.

Serviço

Os canais de denúncia para que possam relatar situações de violência podem ser: 180, 190 – em caso de urgência (24 horas por dia)-, ou pelo disk 100. 

As vítimas ainda podem procurar a delegacia mais próxima ou contactar a Delegacia de Mulheres pelo WhatsApp (32) 9 9927-1566. A unidade fica na rua Fiscal Januário Ramos, número 117, no bairro Fábricas.

Imagem: reprodução / GoogleMaps

Também é possível o envio de fotos e vídeos que possam ajudar no caminhar dos processos.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Freepik

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