Anita Delgado, Clara Lages, Manoela Cássia,
Helbert Ignácio, Maiara Maia e Marina Pedocchi
A cidade de São João del-Rei, localizada no Campo das Vertentes, em Minas Gerais, possui uma população de 90.225 habitantes, segundo o último censo IBGE (2022). Para além de uma cidade histórica, é também uma cidade universitária que abriga um dos últimos cinemas de rua em atividade no Brasil. Fundado em 1947, o Cine Glória tem uma arquitetura quase teatral e sobrevive em meio às modernidades e a era dos streamings. O local é o único cinema da cidade, atualmente gerenciado pelos dois filhos de Welerson Itaborahi, popularmente conhecido como Lilinho. A família é proprietária do estabelecimento desde a década de 80. O Cine Glória possui duas localizações; a sala principal, na Avenida Tiradentes, e uma sala mais compacta, no Shopping Hills.
Nesse mês de abril, o cinema da cidade entrou em reforma para atualizar seu espaço interno, construindo mais salas e melhorando a infraestrutura.
“Você não precisa mais de uma sala gigantesca, mas precisa de variedade de filmes”, afirma Wallace Itaborahy, um dos sócio-proprietários do Cine Glória. A estratégia busca ampliar a oferta de sessões e títulos, ainda que com uma leve redução da capacidade total de público.

A iniciativa se fundamenta em uma verdade: o público nos cinemas tem diminuído mesmo. Com a popularização dos streamings e com os custos para cada sessão, as pessoas têm optado por ver filmes e séries em casa. Em grandes centros, como Belo Horizonte (MG), os valores de um ingresso podem chegar a R$ 59 (inteira) em uma sala convencional, de acordo com o portal Ingresso.com. Em São João del-Rei, interior de Minas Gerais, o Cine Glória cobra R$ 30 para a entrada inteira: esses valores representam, em média, 3% do atual salário mínimo brasileiro.
Para atrair o público, os proprietários do Cine Glória têm comercializado ingressos com preços promocionais durante alguns dias da semana, ofertas de meia entrada – para além do público estudantil – e eventos que proporcionam sessões gratuitas.
Para o historiador e comunicador, Tiago Augusto de Deus Nogueira, ações como essas atraem o público e permitem que o único cinema da cidade permaneça de portas abertas. “Avalio que os desafios estão sendo bem enfrentados e os cinemas estão sobrevivendo, vão se fortalecendo, como é o caso do Cine Glória. É interessante ver isso, a história acontecendo diante dos nossos olhos”, afirma Nogueira.
Além disso, Tiago diz que os valores dos ingressos estão de acordo com o custo de vida são-joanense e que, diferentemente dos grandes centros, em que o cinema foi elitizado, como também aconteceu em outros segmentos, o Cine Glória ainda se mantém acessível.
“A gente está vendo esse movimento acontecendo em festivais de música, nos eventos esportivos. É uma elitização. E tudo isso era ‘programa de massa’. […] E o cinema, a mesma coisa. Isso tudo foi se elitizando e afastando a classe trabalhadora, as classes menos abastadas desses eventos ou tendo que fazer sacrifícios para participar”, pondera.
Para o estudante e empreendedor Rick Souza, de 25 anos, o cinema é uma programação cara, mas é importante valorizar a cultura.
“Tem filme que tem que ser visto no cinema. Dá outro ‘tchan’ pro filme”, argumenta.
Já Amanda Rodrigues, camareira, de 19 anos, discorda que os ingressos sejam caros. Ela afirma que só vai ao cinema se for uma programação em família.
“Só se for para curtir com a família ou alguém importante… Porque, sozinha, eu não vou, não!”, afirma.
Outro fator que afasta o público das sessões é a popularização de plataformas de streaming como Netflix, HBO Max e Prime Video. Esses serviços por assinatura permitem que os telespectadores tenham acesso a um catálogo variado de filmes e séries, com uma média de valores de mensalidade entre R$ 15 e R$ 60, dependendo do plano, permitindo ao usuário assistir de onde estiver e em qualquer horário.
A trabalhadora autônoma Vanessa Silva, de 52 anos, afirma que sua última ida ao cinema ocorreu em 2020 e que agora, com a popularização da internet, prefere investir o valor do ingresso em uma assinatura de streaming para assistir mais filmes.
“Acho caro, sim. Pago R$29,90 e assisto milhares de filmes nos streamings”, indica Vanessa.
Cinema x Streaming
Os números mostram que o cinema ainda é muito procurado. Em 2024, os cinemas do Brasil faturaram R$2,7 bilhões, segundo a Agência Nacional de Cinema (Ancine). O cinema nacional foi o grande responsável por esse movimento: “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles, arrecadou mais de R$200 milhões globalmente e rendeu ao Brasil o primeiro Oscar de melhor filme internacional. Além disso, apenas nas primeiras semanas de 2026, milhões de brasileiros foram aos cinemas assistir “O Agente Secreto”, acumulando mais de R$50 milhões em bilheteria global. E o futuro também parece promissor: um estudo da PwC projeta que o cinema brasileiro pode chegar a R$3,6 bilhões em arrecadação até 2029, um crescimento de 34% em relação a 2024.

Cinema independente
O Cine Glória não está sozinho nessa luta. A maioria das pessoas, quando pensa em ir ao cinema, pensa num shopping. E faz sentido: em 2024, 88% das salas de cinema do Brasil estavam dentro de shoppings. Das mais de 3.500 em funcionamento, só 423 eram de rua.
Mas esses poucos cinemas de rua que ainda existem têm algo que o shopping não tem: história. Em São Paulo, o Caixa Belas Artes chegou a fechar as portas, mas foi reaberto e virou patrimônio histórico da cidade. No Rio, o Cine Odeon e o Cine Santa Teresa seguem funcionando em uma cidade que já teve quase 200 cinemas de rua nos anos 1960 e hoje restam apenas oito.
Em São João del-Rei, o Cine Glória é esse lugar. Com quase 80 anos de história, sempre há algo novo acontecendo por lá, seja uma sessão gratuita, uma semana temática ou a estreia de um filme local.
Mas nem só de salas de cinema vive a cultura audiovisual no Campo das Vertentes. Desde 2023, o Coletivo Cinema na Rua ocupa praças e espaços públicos de São João del-Rei e região com sessões gratuitas. A iniciativa é de Ana Lua Minerbo, de 25 anos, e Pedro Garbo, de 35, que sentiram falta de um espaço mais aberto para ver e discutir filmes.
“Levar o cinema pra rua quebra a lógica de que ele precisa estar dentro de um espaço fechado ou pago”, explica Pedro. Para eles, democratizar o cinema vai além do preço do ingresso. “Não adianta só ter acesso se as pessoas não se veem nas histórias”, diz Ana Lua.
O coletivo prioriza filmes brasileiros e latino-americanos e já alcançou gente que não ia ao cinema há anos, ou que nunca tinha ido. E existem outros cinemas itinerantes e cineclubes na cidade, como o Cineclube Galeria, que faz parte de um projeto da Universidade Federal de São João del-Rei, ou mesmo o Cineclube de Cinema Chinês que ocorre na Biblioteca Municipal uma vez por mês.
Para Ana Lua e Pedro, porém, levar o cinema pra rua é só metade do caminho. “Não adianta só ter acesso se as pessoas não se veem nas histórias”, diz Ana Lua.
“A democratização do cinema é também disputar quais histórias são contadas e por quem”, completa.

Imagem de destaque: Marina Pedocchi / O cinema de São João del-Rei entra em reforma.
Edição: Najla Passos
Supervisão: Arthur Raposo Gomes
