
João Gabriel Gusmão
Em 2018, Rebecca F. Kuang publicava seu livro de estreia, “A Guerra da Papoula” (The Poppy War no inglês) recebendo aclamação da crítica e do público pela obra. O livro, assim como suas sequências A República do Dragão e The Burning God (O Deus em Chamas em tradução literal, ainda sem tradução oficial) pintam, através de um mundo de fantasia, magia e deuses que andam na terra, a imagem de um mundo sombrio, de guerra devastadora e tortura contínua.
É nesse sofrimento que Kuang brilha.
A autora chinês-americana trata em suas histórias temas que fazem parte da história chinesa e mundial, como a Segunda Guerra Sino-Japonesa no caso de Guerra da Papoula, em um mundo de fantasia que nem sempre garante aos seus protagonistas um final feliz. Essa capacidade de mesclar a história real com a ficção, além da sua grande habilidade de escrita, adiciona aos livros da autora reflexões que muitas vezes aparecem de forma desconexa em outros mundos de fantasia.
Em seu quarto livro, Babel: Or the Necessity of Violence: An Arcane History (“Babel: Ou a Necessidade da Violência: Uma História Arcana” em tradução literal) ela mais uma vez combina a história real com a fantasia, dessa vez utilizando o mundo real como cenário, adicionando magia à ele.
E mais uma vez, os temas de opressão são tratados de forma clara e descritiva: a vida dos personagens, aqui imigrantes acadêmicos em Oxford, é repleta de momentos de elitismo acadêmico, racismo, colonialismo e machismo.
Entretanto, a conexão entre a realidade e a ficção não são os únicos pontos positivos das obras de Kuang. Sua escrita é poética e filosófica mesmo em batalhas e prende o leitor às páginas, mesmo nos momentos que é quase acadêmica. Seus personagens não são bons ou ruins do ponto de vista moral, vivem no espaço entre os dois extremos, os garantindo uma maior tridimensionalidade.
A opressão que vivem os personagens é parte intrínseca dos mundos e histórias de Kuang e são características do subgênero grimdark (classificado como ficção especulativa com um tom, estilo ou cenário particularmente distópico, amoral e violento), mas entre tantos que escrevem nesse subgênero, o destaque da autora é claro.
E assim como a grande maioria das obras literárias, os livros de Rebecca F. Kuang devem ser experienciados para serem totalmente apreciados.
É necessário reconhecer aqui que escrevo de uma posição de privilégio.
Para muitos, a leitura, em especial a fantasia, é uma forma de escape à opressão e livros em que isso é parte essencial da história podem não ser atrativos e até mesmo gatilhos emocionais.
Assim, embora acredite que os livros da autora sejam essenciais para os amantes de fantasia, em especial por virem de uma mulher de cor em um ambiente dominado por homens brancos, recomendo ao leitor interessado entender os possíveis gatilhos dos livros, para assim poder aproveitá-los ao máximo.
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