DE PRIMEIRA MOTOQUEIRA A CO-ADMINISTRADORA DO APP DE TRANSPORTE: CONHEÇA LUNNA BEAUMONTT

Maria Paula Santiago

A são-joanense Lunna Beaumontt tem 25 anos e é uma mulher trans que trabalha atualmente como motoqueira e co-administradora do aplicativo Moto SJ. Além dessa profissão primária, ela também possui o espaço de design de unhas Beaumontt Nails e atua como sacerdotisa de umbanda. 

Ao Notícias del-Rei, ela conta que, desde nova, teve uma vida muito agitada em relação ao trabalho. Com 12 anos, começou a dar aulas particulares para outras crianças. Após algum tempo, foi repositora de mercadorias em supermercado e garçonete em um bar da cidade.

Mudou-se para Ipatinga, onde se formou no curso de Manutenção Mecânica Industrial e trabalhou na Usiminas. De volta para São João del-Rei, iniciou os estudos na graduação em Economia na UFSJ e ocupou-se como auxiliar de secretária em uma clínica credenciada do Detran durante o dia e pizzaiola à noite. 

Há dois anos e meio, uma nova fonte de renda se concretizou na vida de Lunna: o interesse em pilotar e fazer viagens para fora fez com que entrasse para a equipe do aplicativo de transporte Moto SJ. Para além disso, a liberdade de não ter um patrão e a flexibilidade de horários foram outros pontos positivos que encontrou no ofício. 

No início deste novo trabalho, ela apenas realizava viagens de moto. Desde o final do ano passado, entretanto, atua também na parte de gerenciamento de mídia e tornou-se responsável pelas parcerias e credenciamento de novos motoqueiros. Atualmente trabalha como motoqueira durante cinco dias da semana, de quarta à domingo, no turno da noite e madrugada. 

A presença em um universo composto em sua maioria por homens

À reportagem, Lunna relata que o Moto SJ fez parte de sua transição, pois quando entrou para o aplicativo ainda era um menino.

 No início sentia receio e ficava pensando se eu teria espaço”

– enfatiza Lunna.

Mas sua mudança foi recebida de forma agradável pela gestão da época, que realizou todos os procedimentos necessários para a troca de cadastro. Ela aponta que, mesmo sendo a única motoqueira trans, todos foram receptivos e respeitosos.

Após assumir a co-administração, Lunna ressalta que passou por muitos desafios, visto que alguns motoqueiros se sentiram incomodados ao receberem ordens de uma mulher trans.

“Por exemplo, dentro das reuniões, às vezes eu dava ideias e não era ouvida. Mas quando alguém dizia as mesmas coisas todo mundo acatava ou alguns desviavam o olhar no momento de minha fala”, elenca. 

Desafios do cotidiano

Quando o aplicativo tomou uma proporção de mídia maior e a motoqueira começou a ser mais conhecida, foram instaladas algumas dificuldades, como o cancelamento frequente de corridas, principalmente por homens. Os comentários maldosos, feitos clientes e por próprios “colegas” de profissão sempre foram recorrentes.  

Dentre os vários obstáculos, aconteceu um episódio transfóbico que marcou muito a vida de Lunna. Um homem solicitou uma corrida por meio da conta de sua namorada e quando se aproximava do destino, atendeu uma ligação no viva voz da companheira. Nesse momento a motoqueira escutou um comentário extremamente ofensivo vindo do outro lado da chamada. Após a situação, a moça teve sua conta suspensa do aplicativo. 

Casos como esses só reforçam como esse tipo de comportamento pode gerar traumas profundos às vítimas. 

O meu maior medo hoje em dia é de me assassinarem ou difamarem a minha imagem

– desabafa.

A importância de ocupar espaços diversos

O preconceito contra pessoas trans se encontra associado a vários estigmas, entre eles a ideia de que elas entregam suas vidas somente à prostituição. Dessa forma, a população marginaliza esses indivíduos, tornando-os vulneráveis. 

A motoqueira revela que já pensou em seguir esse caminho, uma vez que era difícil se enxergar ocupando espaço no mercado de trabalho. Assim, para se inserir necessitou de uma auto-aceitação.

“É um processo delicado pois temos que analisarmos o que somos durante toda a trajetória de vida e se policiar em relação a isso para não fraquejar”, reflete Lunna.

Foto: arquivo pessoal

Hoje em dia, ela se vê como uma porta de entrada para aqueles que querem ocupar seus espaços com respeito e reconhecimento de seus trabalhos. Ao mesmo tempo que é um norte para alguns, é motivo de disseminação de ódio para outros. 

Me policio muito para zelar pela minha profissão e pelo meu nome: são as únicas coisas que eu tenho

– finaliza Lunna.


Edição: Arthur Raposo Gomes

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