ARTIGO DE OPINIÃO: EM UM BRASIL DE TANTOS ”FABIANOS”, COMO FALAR EM POLARIZAÇÃO?

Lídia Oliveira *

“- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
– Você é um bicho, Fabiano.”
(Vidas Secas, Graciliano Ramos)

Em um Brasil de tantos Fabianos, explorados, maltratados pelas desigualdades e pela falta de oportunidades, como pensar em polarização política? Suponho ser desonesto afirmar que os dois lados dessa mesma disputa política sejam simétricos e pesem o mesmo peso, enquanto Sinha Vitória e filhos sem nome sobrevivem à rotina exploratória da escala 6×1 sem poder reclamar sob pena de serem rotulados como preguiçosos.

“O brasileiro não gosta de trabalhar”, “o governo dá auxílios demais”, “pobre não deveria fazer faculdade”. Humilhações cotidianas, violência policial, necropolítica. Um projeto de país que relega os mais vulneráveis ao abismo social, ao fundo do poço do discurso meritocrático, ao mais baixo escalão da decadência. Pobres defendendo ricos na esperança de ocuparem cadeiras de representatividades daqueles que os odeiam. Um cálculo complexo de ser feito porque pesam crenças e valores muitas vezes entranhados na cabeça da população, que a confunde, que a leva a defender interesses alheios.

Não deveria ser difícil compreender que os interesses da elite não contemplam os mais pobres, pelo contrário, querem mantê-los pobres e submetidos à roda da exploração secular que coloca direitos e possibilidades como moeda de troca. Se a história brasileira de escravidão, de autoritarismo e de violência não são suficientes para transformar mentes em favor do bem comum, o que seria? A consciência de classe? A falta dela? O fenômeno de escolher políticos como se escolhe uma influenciadora preferida leva vídeos curtos nas mídias a serem base política para defender ferrenhamente um candidato, sem levar em conta suas propostas políticas – se é que elas existem.

Fabiano conversa consigo mesmo no silêncio de suas palavras. Tantos Fabianos olham nos olhos da política e não se enxergam de verdade, levando-se ao encontro de promessas de falsos profetas. A mobilização emocional e religiosa encontra na desesperança do trabalhador terreno fértil para ganhar a confiança e o voto de quem se perdeu nesse processo.  O ódio, esse aliado nunca mencionado, existe. Existe e se prolifera em cada discurso carregado de mentiras e de falsidade.

Polarização? Um lado apela para o bom senso coletivo, para a educação e para o trabalho digno. O outro retoma pautas extremistas, de eliminação do adversário. Discursos abertamente proclamados em palanques digitais recortados milimetricamente para caber no tempo e no ressentimento de eleitores que, podem até negar, mas não aceitam que pobres tenham condições de vida, comida na mesa e educação superior. O medo de perder espaços estruturalmente destinados às elites contribui para essa narrativa, impedindo que avancem negros, mulheres e comunidades historicamente violentadas.

Quem paga a conta pelas escolhas movidas pelo ódio e pelo preconceito de classe, de raça e de gênero? Todos.

Parece óbvio, mas um candidato que consegue se eleger deve governar para todos, não apenas para a parcela que votou nele. O paradoxo político da tolerância reside no fato de que denunciar posturas antidemocráticas – golpe de Estado, lavagem de dinheiro, estimulação à violência e eliminação da diversidade – nunca se caracteriza como polarização.

* Lídia Oliveira é graduada em Letras e mestre em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela UFSJ. Cursa Comunicação Social – Jornalismo pela mesma instituição. Faz parte do projeto de extensão Vertentes Agência de Notícias, no qual é uma das revisoras das matérias publicadas, e do Observatório de Comunicação Política do Campo das Vertentes. Tem experiência em redação e em revisão de textos jornalísticos. Suas áreas de interesse abrangem discussões sobre grupos minorizados, direitos femininos e política.


Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT

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