Júlia Valgas *
Outro dia ouvi um colega do jornalismo dizer que “não existe pauta melhor que outra, tudo depende do jornalista“. Desde então, tenho pensado sobre isso. E com a licença dos meus colegas de profissão, eu discordo: as pautas necessariamente refletem valores e ideologias.
Calma. Eu não estou dizendo que um jornalista não tem, em suas mãos, o poder de transformar uma pauta pouco inovadora em uma matéria excelente. Mas acredito que, em uma profissão que influencia tanto a opinião pública, é ingenuidade ignorar o peso das tais “decisões editoriais“.
Nos últimos 20 anos, tem se consolidado, em todo o mundo, um campo de conhecimento chamado “agnotologia”, dedicado a investigar como a ignorância é produzida, disseminada e mantida socialmente.. Essa vertente de pesquisa defende que o quê uma sociedade escolhe estudar ou não, diz muito sobre o que reconhece e valoriza. Mas o fenômeno não é recente e, talvez, seu exemplo mais emblemático sejam as teorias racistas (já refutadas!) do século XIX sobre as supostas relações entre raça e criminalidade.
A produção da ignorância, assim como a produção do conhecimento, é marcada por interesses econômicos, políticos, sociais e até militares. O próprio computador, pelo menos “o pai” desse que usamos hoje, foi criado durante a segunda guerra mundial, para facilitar o cálculo da trajetória de armas.
Mas o papel do jornalista é, sobretudo, informar. Fazer conhecer. Todos os dias, tomamos decisões sobre o que mais importa para os nossos leitores – com base em métricas, é verdade, mas sobretudo com base no que editorialmente é considerado interesse público.
Em alguns casos, as matérias apenas não interessam e ficam esquecidas no site ou jogadas em uma gaveta, no caso dos jornais impressos. O problema mesmo é quando um fenômeno localizado, restrito ou sem lastro na realidade se torna uma grande pauta. Mobiliza as pessoas. Influencia a política e a cultura. Se torna relevante.
Como esquecer dos bebês reborn que tiveram seu atendimento vetado no SUS, quando o Ministério da Saúde não registrou, oficialmente, casos da ocorrência? Os projetos de lei foram respostas às encenações para as redes sociais. Antes disso, a grávida de Taubaté já participava de diversos programas de televisão, inclusive em horário nobre, e ganhava presentes para os filhos… que não existiam.
As pautas precisam importar para os jornalistas. Sobretudo porque, enquanto tem gente indo para o trabalho em ônibus lotados, na fila de espera por uma vaga no hospital ou largando os estudos porque precisa se sustentar, o jornalismo não pode se dar o luxo de falar apenas sobre as principais trends do Tiktok e as músicas viralizadas no YouTube.
O problema não é falar de comportamento, tendências ou cultura – isso é importante e, pessoalmente, eu amo! O problema é quando esses assuntos passam a ocupar um espaço desproporcional em relação a questões que afetam, de formas concretas, a vida das pessoas.
Quer um exemplo? A morte do Papa Francisco recebeu uma cobertura de 7h54min na Rede Globo e 4h35min no SBT, enquanto, na Record, uma emissora privada do Bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, o tema totalizou apenas 15 minutos.
Apesar da discrepância no tempo de cobertura, não há aqui um certo e errado, propriamente. Existem escolhas editoriais e critérios de noticiabilidade – no caso da Record, muito fiéis àquilo que a audiência valoriza, inclusive. Mas é inegável: o jornalismo se faz de escolhas. E como jornalista, é preciso sustentar as suas.
* Júlia Valgas é estudante de Jornalismo e realiza pesquisas sobre Inteligências Artificiais Feministas.
Imagem de destaque: banco de imagens / Pexels
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