ELEIÇÕES 2026: HORÁRIO ELEITORAL AINDA TEM PESO MESMO COM AVANÇO DAS MÍDIAS SOCIAIS

Lídia Oliveira, Luis Philipe Resende Amaral e Paulo Mambelli

Entre vídeos curtos, cortes, memes e conteúdos pensados diretamente para as redes sociais digitais, o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) continua ocupando espaço nas estratégias das campanhas de 2026. A propaganda eleitoral no rádio e na televisão começou em 28 de agosto e segue até 1º de outubro, convivendo com uma comunicação cada vez mais distribuída entre diferentes plataformas.

Neste ano, porém, nem todos os candidatos têm espaço no horário eleitoral. Na disputa pela Presidência da República, quatro dos 13 concorrentes contam com tempo no HGPE. Em Minas Gerais, seis dos 11 candidatos ao Governo aparecem na propaganda em rádio e TV (confira a relação abaixo). A divisão leva em consideração, principalmente, o tamanho das bancadas dos partidos na Câmara dos Deputados.

Ao longo das últimas décadas, o próprio formato da propaganda eleitoral passou por mudanças. Novas regras também foram incorporadas para as eleições de 2026, incluindo normas relacionadas ao uso de inteligência artificial, disparos de mensagens e outros atos de campanha. Mesmo com o crescimento das plataformas digitais, pesquisadores apontam que televisão e rádio ainda cumprem um papel importante, principalmente na apresentação das candidaturas a um público mais amplo.

O Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral foi criado em 1962, por meio da Lei nº 4.115, durante o governo do então presidente João Goulart. Na época, emissoras de rádio e televisão deveriam reservar duas horas da programação diária para a propaganda política durante os 60 dias anteriores à eleição. Em 2015, esse período foi reduzido para 35 dias, com 25 minutos destinados à propaganda no rádio e na televisão.

Divisão do tempo e papel do HGPE

A Minirreforma Eleitoral de 2017 (Lei nº 13.488/2017) reduziu a duração das campanhas na televisão e estabeleceu blocos fixos. Do tempo total, 90% são distribuídos proporcionalmente ao tamanho das bancadas eleitas para a Câmara dos Deputados no pleito anterior, enquanto os outros 10% são divididos de forma igualitária entre as legendas. Partidos que não alcançaram representação parlamentar em 2022 não possuem tempo garantido no HGPE.

Candidato / ColigaçãoTempo por bloco (TV e rádio)Total de inserções (1º turno)
Lula (PT e aliados / Brasil Pronto para Mais)5 min e 31 seg433
Flávio Bolsonaro (PL)4 min e 20 seg339
Ronaldo Caiado (PSD)2 min e 02 seg159
Augusto Cury (Avante)35 segundos47
Tempo de TV e inserções – Presidência da República (1º turno de 2026)

Candidatos de partidos sem bancada eleita na Câmara em 2022, como Novo, Missão, DC, PCB, PSTU, UP, PCO, Democrata e PRTB, não possuem tempo fixo no HGPE.

O professor dos cursos de Jornalismo e Publicidade da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Fernando de Resende Chaves, explica que a produção da propaganda eleitoral envolve equipes especializadas de comunicação e marketing, que atuam em diferentes áreas e linguagens. O resultado, segundo ele, é um “processo complexo” de construção dos programas.

Fernando, que é doutor e mestre em Comunicação, destaca que as decisões de campanha “são orientadas por pesquisas eleitorais, levantamentos de opinião pública, análise de dados e, cada vez mais, pelo monitoramento do comportamento e das discussões dos eleitores nas mídias digitais”.

Segundo o pesquisador, diferentes fatores podem pesar na forma como o eleitor recebe a propaganda. De um lado, aparecem elementos mais racionais, como propostas e projetos. De outro, questões relacionadas ao afeto, à moral e à religião também podem influenciar essa percepção.

Para Fernando, “essa heterogeneidade é justamente um dos elementos que tornam uma disputa eleitoral tão complexa” e ajuda a explicar o investimento crescente das campanhas em “pesquisa, segmentação e profissionalização da comunicação”.

A relação com outras mídias

Para Fernando, o crescimento das mídias digitais modificou o papel do HGPE, mas não retirou sua importância.

O HGPE continua sendo um espaço importante para os candidatos apresentarem suas narrativas e tentarem pautar a esfera pública durante uma eleição”, afirma.

Recortes de falas e vídeos exibidos inicialmente na televisão também passam a circular posteriormente nas redes sociais digitais, prolongando a vida desses conteúdos, conforme apontado por Fernando. Nesse sentido, o pesquisador não vê uma substituição direta de uma mídia pela outra.

A Comunicação Eleitoral, segundo ele, passou a ser pensada para diferentes suportes e públicos: uma peça produzida para televisão pode reaparecer depois como vídeo curto, mensagem ou meme.

“Temos uma Comunicação Eleitoral cada vez mais híbrida, na qual televisão, rádio e mídias digitais dialogam permanentemente”, destaca.

TV e rádio

Fernando também chama atenção para o peso do rádio em regiões do interior – principalmente em locais onde a presença da televisão local é mais limitada. Além disso, parte da população não utiliza as redes sociais como principal fonte de informação e mantém um consumo frequente desse meio.

Em muitas cidades, o rádio acompanha atividades cotidianas e os deslocamentos para o trabalho. “Por isso, o rádio complementa de maneira importante o ecossistema informacional no qual se desenvolve uma campanha eleitoral”, explica.

Já a televisão acrescenta à disputa um forte componente visual. Fernando lembra que as campanhas estão cada vez mais profissionalizadas e que algumas produções chegam a adquirir características “quase cinematográficas”.

Para o pesquisador, esse nível de produção também abre uma discussão sobre o recurso financeiro destinado às produções eleitorais e sobre o próprio papel da propaganda.

Em uma democracia, o que deveria prevalecer no debate eleitoral é a capacidade de apresentar propostas, argumentos e projetos para a sociedade“, defende.

As inserções

Em Minas Gerais, seis candidatos ao Governo contam com tempo no Horário Eleitoral em 2026.

CandidatoPartido / ColigaçãoTempo por blocoInserções AO LONGO DA PROGRAMAÇÃO
Mateus SimõesPSD / Minas no Caminho Certo2 min e 46 seg302 comerciais
Patrus AnaniasPT / Pra Minas Gerais Voltar a Sonhar1 min e 55 seg208 comerciais
Flávio RoscoePL1 min e 42 seg186 comerciais
Cleitinho AzevedoRepublicanos1 min e 07 seg122 comerciais
Gabriel AzevedoMDB48 segundos87 comerciais
Alexandre KalilPDT / Cuidar de Minas41 segundos75 comerciais
Informações levantadas pelo Notícias del-Rei junto a plataforma do Tribunal Superior Eleitoral.

As inserções distribuídas ao longo da programação também cumprem um papel específico na campanha. Segundo Fernando, elas conseguem alcançar o eleitor em momentos nos quais ele não está necessariamente disposto a assistir ao bloco tradicional do horário eleitoral.

O formato também amplia a exposição dos candidatos e exige uma comunicação mais curta e direta, próxima da lógica das plataformas de mídias sociais.

O pesquisador pondera, porém, que as inserções “são muito eficientes para produzir visibilidade e reconhecimento, mas oferecem pouco espaço para argumentações mais complexas”.

Ataques a adversários como estratégia de campanha

Fernando Chaves também analisa o uso da campanha negativa como estratégia eleitoral. Para ele, o contexto é determinante e existem riscos quando esse tipo de abordagem não é bem planejado.

A estratégia pode gerar desgaste para o próprio candidato que realiza os ataques. Por outro lado, em determinados contextos, pode ser utilizada no confronto com um adversário forte ou para expor contradições ao eleitorado.

A perspectiva dos eleitores sobre o HGPE

De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), 16.377.659 eleitoras e eleitores mineiros estão aptos a votar no dia 4 de outubro. Minas Gerais possui o segundo maior colégio eleitoral do país e concentra 10,32% do eleitorado brasileiro.

Essa diversidade também aparece na maneira como os próprios eleitores acompanham a propaganda eleitoral.

Michele Avelino, de 40 anos, considera o voto uma forma importante de participação política e cidadania. A recepcionista, moradora de Ritápolis, conta que acompanha alguns programas eleitorais para conhecer as propostas dos candidatos. O que mais chama sua atenção são propostas claras e objetivas, embora também perceba promessas exageradas, ataques pessoais e candidatos que considera despreparados.

Alisson Oliveira, também de 40 anos, raramente assiste à propaganda eleitoral gratuita. Para ele, suas escolhas passam principalmente pelos valores defendidos pelos candidatos, pelo alinhamento ideológico e pelo histórico de atuação na vida pública.

Michele percebe uma diferença entre as redes sociais digitais e os meios tradicionais. Na internet, destaca a rapidez e a interatividade. Na televisão e no rádio, entende que existe mais espaço para a apresentação detalhada das propostas. Alisson, por outro lado, considera que as próprias redes oferecem mais tempo para exposição de projetos, já que não existe uma duração previamente determinada para esse conteúdo.

Isadora Ribeiro, de 27 anos, também não costuma acompanhar a propaganda eleitoral gratuita e prefere seguir os perfis nas mídias sociais dos candidatos. Para a secretária, os conteúdos digitais chamam atenção pela rapidez, frequência e facilidade de compartilhamento. Suas escolhas políticas estão relacionadas a propostas sobre diversidade, inclusão, educação, direitos das minorias e melhores condições de trabalho.

Pedro Henrique Teófilo não acompanha a propaganda eleitoral. O cabeleireiro afirma que fez essa escolha por considerar que os conteúdos são muito parecidos e que não percebe grandes diferenças entre televisão, rádio e mídias sociais.

O motorista Marcos Custódio, de 39 anos, também não acompanha a propaganda política na televisão ou no rádio por causa da rotina de trabalho. Os grupos nas mídias sociais e aplicativos de mensagens acabam sendo sua principal fonte de informação política. Para ele, temas como saneamento básico, segurança, saúde e educação pesam na escolha dos candidatos.

Marcos afirma perceber muitas informações falsas, propostas que considera “mirabolantes” e ataques a adversários, sobretudo nas mídias sociais. Também observa mudanças em relação às eleições anteriores, principalmente pela maior presença de influenciadores digitais nas campanhas.

Ketlen Amaral, de 31 anos, acompanha algumas vezes o horário eleitoral na televisão e também utiliza as mídias sociais. Para a fisioterapeuta, conteúdos rápidos, objetivos e com linguagem acessível chamam mais atenção. Na hora de escolher os candidatos, considera o histórico, as propostas, a experiência política e os valores defendidos.

Ela também percebe uma aproximação cada vez maior entre os diferentes meios. Na sua avaliação, as propagandas digitais são mais rápidas e diretas, enquanto as televisivas costumam ser mais elaboradas e longas.

O futuro do HGPE

A circulação de conteúdos políticos entre diferentes meios já faz parte das campanhas eleitorais brasileiras. Televisão, rádio e mídias sociais passaram a funcionar de forma cada vez mais integrada, alcançando públicos distintos e fazendo com que uma mesma mensagem possa circular por diferentes formatos.

Para Fernando Chaves, essa convergência amplia o acesso às informações durante a campanha. O rádio mantém alcance em públicos e lugares onde as redes sociais não estão tão presentes, enquanto as plataformas digitais permitem que os conteúdos circulem entre diferentes grupos.

Nesse cenário, na visão de Fernando, o futuro do horário eleitoral passa menos pelo desaparecimento da televisão e do rádio e mais pela adaptação de suas linguagens a um eleitorado cada vez mais conectado.


Edição: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: arquivo / Agência Brasil

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