Arthur Raposo Gomes *
Um dado das eleições gerais de 2026 ajuda a dimensionar o espaço que as mídias sociais ocupam nas campanhas eleitorais nos tempos atuais: dos 7.679 candidatos a deputado federal, em todo o país, que declararam informações ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 5.493 utilizam o Instagram. São cerca de 72% do total – e há candidatos que registraram mais de uma conta na plataforma. O número não chega a surpreender. Mas diz bastante sobre a eleição que estamos acompanhando.
Para quem disputa uma vaga na Câmara dos Deputados, existe primeiro um desafio básico: ser conhecido. São milhares de candidatos espalhados pelo país, centenas deles em Minas Gerais, disputando a atenção de um eleitor que recebe conteúdo político praticamente o tempo inteiro.
Nesse cenário, quem já chega com audiência larga vantagem na disputa por visibilidade. Influenciadores, comunicadores e personagens que aprenderam a operar bem a lógica das plataformas conseguem alcançar milhares – às vezes milhões – de pessoas sem depender dos espaços tradicionais da política ou da imprensa.
Isso faz parte da Comunicação Política contemporânea. E não é, por si só, um problema. A questão aparece quando os critérios das redes começam a se confundir com os critérios que deveriam ser utilizados na escolha de representantes.
O Instagram premia alcance, reação, compartilhamento, comentário. Um mandato parlamentar exige outras coisas. Exige posicionamento, articulação, capacidade de fiscalizar, votar, construir projetos e representar os interesses de um estado que não é pequeno nem simples.
Em Minas, são 753 candidaturas com pedidos registrados junto ao Tribunal Superior Eleitoral e serão 53 deputados federais eleitos no dia 4 de outubro. E não faltam exemplos, nos diferentes campos políticos, de candidaturas que chegam à disputa com grande capacidade de mobilização digital. É aí que vale algum cuidado com a formação de uma espécie de “bancada do like”.
Não porque alguém com milhares ou milhões de seguidores seja menos preparado para exercer um mandato. Essa relação automática também seria equivocada. O problema está justamente em tomar popularidade digital como sinal suficiente de capacidade política.
Comunicação importa. Pode-se dizer até que importa cada vez mais: saber apresentar ideias, conversar com diferentes públicos e prestar contas também faz parte da atividade política. Mas uma eleição não pode virar apenas uma competição pela atenção.
Até outubro, curtidas, seguidores e visualizações vão continuar ajudando a mostrar quem está conseguindo furar a bolha e alcançar o eleitor. Mas, na hora do voto, é importante incluir outras perguntas: quem é esse candidato? Qual trajetória construiu? Que interesses pretende representar? Conhece o estado pelo qual disputa uma cadeira? Quais bandeiras pretende empunhar ao longo de quatro anos de um eventual mandato?
O Instagram pode ajudar o eleitor a conhecer as respostas. Só não deveria substituir as perguntas. Afinal, a Câmara dos Deputados não é formada pelos 53 mineiros com maior engajamento nas redes. Pelo menos, não deveria ser esse o critério.
Aguardemos o passar dos dias.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
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