Arthur Raposo Gomes *
Quem acompanhou eleições há 15 ou 20 anos provavelmente se lembra de uma rotina diferente. O Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) ocupava um espaço definido na televisão e no rádio, os debates concentravam atenção durante algumas horas e boa parte da repercussão ainda passava pelos jornais do dia seguinte.
Em 2026, tudo isso continua existindo. Mas a eleição também acontece em outros espaços e, muitas vezes, em vários deles ao mesmo tempo.
Um debate exibido durante duas ou três horas na televisão continua depois que a transmissão termina. Uma resposta vira corte nas redes, outra aparece no grupo de WhatsApp e tem também aquela frase que viraliza e se torne meme. Os principais momentos são comentados por jornalistas, influenciadores, políticos e pelos próprios eleitores.
Alguém pode não ter assistido a um minuto do debate e, ainda assim, acordar no dia seguinte sabendo quais foram as falas que mais repercutiram.
Os dados do eleitorado brasileiro ajudam a colocar essa mudança em perspectiva. Mais de 158 milhões de pessoas estão aptas a votar neste ano. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 23,6% têm 60 anos ou mais. Outros 25,85% estão entre 21 e 34 anos. São gerações que começaram a acompanhar eleições em contextos bastante diferentes e que hoje dividem algumas das mesmas telas.
Isso não significa que a televisão tenha perdido espaço para o celular ou que as mídias sociais tenham simplesmente ocupado o lugar dos meios tradicionais. A relação é mais misturada: uma entrevista na TV rende vídeos para as páginas no Facebook, Instagram ou TikTok. Uma reportagem circula pelo WhatsApp. Uma publicação feita por um candidato vira assunto no rádio, na televisão ou no jornal.
Também não é mais necessário procurar por política para encontrar uma campanha.
O eleitor pode abrir uma mídia social para acompanhar futebol, música ou qualquer outro assunto e receber, no meio do caminho, o vídeo de um candidato. Pode conhecer uma proposta por um influenciador, receber uma declaração no grupo da família ou ter o primeiro contato com determinado episódio por meio de um meme.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das mudanças mais interessantes desta eleição. A campanha não disputa apenas o voto. Disputa também a atenção do eleitor em um ambiente onde política, entretenimento, informação e opinião aparecem misturados o tempo inteiro.
Isso também muda o trabalho das próprias campanhas. Já não basta pensar no programa eleitoral, na entrevista ou no debate como produtos que começam e terminam naquele espaço. Uma fala de poucos segundos pode circular muito mais do que a entrevista inteira. Um trecho aparentemente secundário pode ganhar repercussão. E uma mensagem pensada para determinado público pode chegar a muitos outros, inclusive fora do controle de quem a produziu.
Para o eleitor, o desafio também é diferente. Nunca houve tanta possibilidade de acompanhar uma eleição por tantos caminhos. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil acompanhar apenas fragmentos dela. Um corte sem contexto, uma manchete, um meme ou uma publicação compartilhada por alguém de confiança podem acabar pesando na percepção sobre uma candidatura.
A televisão continua ali. O rádio também. Os jornais, os debates e o horário eleitoral seguem fazendo parte da campanha. Mas agora convivem com feeds, grupos, influenciadores, algoritmos e uma circulação de conteúdos que não para quando a programação termina.
A eleição de 2026 ainda tem algumas semanas pela frente. E observar por onde ela chega ao eleitor talvez ajude também a entender como as escolhas vão sendo construídas até outubro.
Mudou a campanha. Mudaram os caminhos da informação. E mudou, junto, a forma de acompanhar uma eleição. Aguardemos o passar dos dias.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT
Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.
