Hugo Santos de Oliveira
Era sábado de abril, apenas um dia depois da minha chegada a esta nova cidade. Estava de visita, conhecendo onde seria minha nova morada, quase um ano antes de começar meus estudos. Eu me sentia em Carcosa, um lugar distante, quase místico, obscuro, conhecido por mim apenas pelas vagas descrições vindas de meu amigo, quase-irmão, que ali tinha ido morar, dado um acordo feito por nós, e agora esperava o cumprimento de minha parte. Era na casa desse amigo que eu me hospedaria por um dia e meio, antes de meu regresso à minha terra.
Foi um dia simples com meu quase-irmão: após o almoço, visitamos minha futura casa, uma república estudantil, assim como a casa de meu amigo. Fomos bem recebidos. Deixaram-nos uma boa impressão: simpáticos, animados com a promessa de um novo morador.
Logo após, fomos andar pelo centro da cidade, que parecia viva, com muitas pessoas andando, desconhecidas aos meus olhos, em um local mais desconhecido ainda. Porém, meu guia emitia uma luz que iluminava meus caminhos. Era a primeira vez que eu o via pessoalmente em todos os seis anos de nossa boa amizade, ambos trazidos ao mesmo lugar por um combinado bobo, coisa de jovem sonhador.
Passamos por tabacarias, compramos nossos cigarros, caminhamos sem rumo, jogando conversa fora – conversas guardadas por seis longos anos -, e a luz que dele eu via parecia estar se intensificando, prestes a me cegar, porém nunca ousou me causar mal algum.
Algum tempo passou, e decidimos voltar para sua casa. Lá, aproveitamos o resto da tarde. Ambos tocamos um pouco de seu contrabaixo – algo que eu o influenciei a fazer -, e ele já estava em um nível diferente do meu.
Enquanto ele tocava suas músicas, eu “arranhava” o instrumento, meio perdido, improvisando na base do possível, visto que nunca tive muito tempo para praticar como ele tinha.
Durante nosso tempo de lazer, chegou aos nossos ouvidos que os outros moradores de sua república iriam a uma festa durante a noite, e nós fomos convidados por eles. Meu amigo estava relutante por não ter o dinheiro necessário para os ingressos, mas eu decidi ajudá-lo e paguei nossos dois ingressos de última hora.
A noite chegara, e os moradores mais antigos o chamavam, como era tradição. Ele deveria ir fantasiado, pois era um dos calouros. Deveria ir pintado de amarelo, porém não queria, pois achava aquilo uma forma de humilhação. Eu quase me voluntariei para ser pintado junto com ele, mas a noite estava fria, e nós deveríamos ir sem camisa por causa da tinta.
Após algum tempo pensando, ele concordou. Com certa indignação, porém concordou. Foi pintado da cabeça à cintura de amarelo, um amarelo que transmitia a loucura do rei. Dito e feito.
Ao chegarmos à festa, começamos a beber e a transitar pelo local. Ele falava coisas absurdas, ria, dançava, bebia e fumava, e eu tentava acompanhá-lo, de forma acanhada por não conhecer ninguém, porém, ao mesmo tempo, livre – liberdade garantida pelo mesmo motivo de minha vergonha.
Horas se passaram e, após meu amigo se cansar, decidimos ir embora. Saímos sem aviso. Era uma longa caminhada pela madrugada.
Nesse caminho, percebi os efeitos do álcool subindo à sua cabeça. Falava besteiras, ríamos, cambaleava, enquanto eu o esperava calmamente, ouvindo tudo o que tinha a dizer. Era como um louco que estendia os braços, tentando passar sua loucura para mim. Conseguiu.
Nessa caminhada, falávamos coisas absurdas, parávamos, tirávamos fotos, aproveitávamos a noite. Falávamos de nossas vidas. Ele me dizia tudo de bom que a cidade e a universidade haviam trazido para ele e que poderiam trazer para mim, visto que eu ainda tinha o ano inteiro antes de começar meus estudos. Sua luz parecia brilhar ainda mais forte, sua tinta desbotada como as vestimentas do rei, me infectando com sua loucura.
Chegamos à sua casa e dormimos. O domingo não trouxe nada demais e, na segunda-feira de manhã, não o encontrei, visto que ele havia ido trabalhar. Despedi-me dos outros moradores, agradeci a hospitalidade e fui embora.
No ônibus, percebi que, pela primeira vez na vida, havia encontrado meu lar, mesmo estando tão longe de casa. Percebi que talvez não fosse pela cidade, pelo local em si, mas por aquele que agora eu chamava de irmão.
Chegando em casa, aprendi, por Maria Valéria Rezende, que “qualquer lugar desse mundo me servia, porque aquilo que eu buscava não tinha endereço certo, só dependia da sorte que ainda não tinha achado”.
E eu achei minha sorte. Ela esteve comigo por seis longos anos, porém sempre fora de meu alcance. Agora que a havia encontrado, não a deixaria ir tão facilmente.
Supervisão: Paulo Henrique Caetano
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: (*)
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