CRÔNICA: TODOS OS CAMINHOS APONTAM PARA ”BELORIZONTE”

Alice Souza Jardim

Sou cidadã belo-horizontina desde que nasci e nunca me imaginei vivendo em outra cidade até 2024, quando vim para São João del-Rei fazer faculdade, aos 18 anos. Porém, desde que me lembro, eu dizia: “Eu odeio Belo Horizonte!!!”. Sim, com essa mesma quantidade de pontos de exclamação.

Acho que meu ódio por Belo Horizonte começou quando minha mãe me tirava do carrinho e me fazia caminhar pelas ruas da cidade. Aquela cidade tem muitos morros e eu, como uma criança birrenta que não gostava nem um pouco de andar, tomei ódio da cidade por causa disso.

Depois vieram muitos motivos: acordar à noite com helicópteros, a casa da minha avó ser muito longe da minha, minha escola ter mudado de local – duas vezes -, a única coisa para fazer aos sábados ser ir ao shopping… Só que todos esses motivos eram muito fúteis.

Então, com esta carta aberta, vim reiterar o meu ódio à cidade de Belo Horizonte – provavelmente com mais motivos fúteis do que bons.

Primeiramente, eu odeio essa cidade! Ela é tão degradada. Nada além de casas de festa pode funcionar depois da meia-noite, os ônibus param de passar da meia-noite às seis da manhã, todos os lugares legais para sair custam os olhos da cara e a segurança é horrível quando se está fora das áreas nobres, entre outras coisas.

Já ouvi algumas pessoas dizendo que o centro da cidade parece Gotham City durante a madrugada: não tem nenhuma alma viva na rua. E eu concordo. A vida noturna belo-horizontina está degradada, e isso está deixando a própria cidade cada vez mais degradada.

Durante anos, eu nunca tive certeza de que precisava ir embora. Afinal, eu odiava aquela cidade, mas era a única coisa que conhecia. Meus amigos estavam lá. Minha família estava lá.

Quando me mudei para São João del-Rei, parecia que finalmente estava seguindo o caminho que havia imaginado para mim e que novas portas, enfim, se abriam. Em BH, eu ficava me perguntando: “Quando vou encontrar o meu lugar no mundo?”. E parecia que eu finalmente o tinha encontrado. Todos os caminhos apontavam para longe de BH. Todos os sinais apontavam para São João del-Rei.

Só que não acreditem em nenhuma palavra que eu disse durante este texto: eu pretendo voltar a morar em Belo Horizonte. Por mais que eu odeie aquela cidade, ela faz parte de mim, e estou conectada a ela para sempre.

Hoje, continuo vendo os defeitos de Belo Horizonte. Eles não desapareceram. Mas também reconheço que a cidade faz parte da minha história. Talvez eu nunca deixe de reclamar dela. Talvez eu nunca deixe de amá-la completamente.

Eu odeio essa cidade. Ela é tão degradada. E os meus amigos não dão a mínima. Não me fale que é só má sorte… Eu já encontrei o lugar onde me encaixo.

Eu odeio “Belorizonte”.


Supervisão: Paulo Henrique Caetano

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Magnific

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