Jak Azevedo, Ana Clara Messias e Livia Godoi
Há três décadas, a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) mantém um programa de extensão voltado à população idosa que busca aproximar a universidade da comunidade por meio da educação permanente e de atividades de convivência. Implantado em setembro de 1995, o Programa Universidade para a Terceira Idade nasceu para oferecer um espaço de aprendizagem e participação social às pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, cerca de 200 idosos estão cadastrados na iniciativa, que realiza encontros semanais, oficinas e atividades ao longo de todo o ano.
O programa foi idealizado pela professora aposentada da UFSJ e gerontóloga Maria José Cassiano de Oliveira, que coordenou o programa durante parte de sua trajetória. Atualmente, a coordenação está sob responsabilidade do professor Marcelo Soares Cotta. Mesmo fora da gestão, Maria José acompanha o desenvolvimento da iniciativa e destaca a importância de preservar a história do projeto.
“É um prazer falar sobre o programa, porque a história realmente tem que ficar gravada, pelo que o programa representa hoje”, afirma.
A origem do programa está ligada aos estudos desenvolvidos por Maria José durante o mestrado em Educação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na época, ela teve contato com experiências de universidades europeias voltadas à educação de adultos e de pessoas idosas. Ao mesmo tempo, observava a realidade vivida pelo próprio pai, que havia se aposentado e buscava novas formas de manter uma rotina ativa.
Segundo ela, a proposta surgiu da aproximação entre o conhecimento acadêmico e essa experiência pessoal.
“Eu resolvi aliar essa ideia do professor, essa prática que existia na Europa, com algumas leituras que foram feitas e essa prática necessária que era ver o que as pessoas idosas que estão envelhecendo podiam fazer ou como elas poderiam se sentir mais plenas”, explica.
Antes da implantação oficial, um grupo formado por professores, técnicos-administrativos e representantes da comunidade passou aproximadamente um ano estudando o processo de envelhecimento e discutindo formas de estruturar o projeto. O grupo também visitou programas semelhantes, como o desenvolvido pela Universidade Federal de Juiz de Fora, para conhecer experiências já consolidadas.
O projeto foi apresentado ao Departamento de Ciências da Educação da UFSJ e, segundo Maria José, enfrentou resistência durante sua tramitação.
“Naquele período nós enfrentamos muita resistência dentro da própria universidade. Alguns colegas entendiam que o foco da educação era criança, jovem e adulto, mas não pessoas idosas”, argumenta.
Apesar das dificuldades, a proposta recebeu apoio de professores de outros departamentos e foi aprovada pelos órgãos colegiados da universidade em setembro de 1995. A aula inaugural contou com a participação da então pró-reitora de Extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora.
A procura pelo programa surpreendeu a universidade logo na primeira turma. Maria José lembra que houve necessidade de realizar uma triagem devido ao número de interessados.
“Eu me lembro que o reitor perguntava: ‘Será que vocês vão encontrar alunos para esse programa?’. Mas foi muita procura. Tivemos que fazer uma triagem porque havia um limite de idade e o número de interessados era muito grande”, aponta.
Ao longo dos 30 anos de funcionamento, o Programa Universidade para a Terceira Idade formou dez turmas e já atendeu mais de 580 participantes. Hoje, mantém cerca de 200 idosos cadastrados, vindos de São João del-Rei e municípios vizinhos.
Desde 2020, a coordenação está sob responsabilidade do professor Marcelo Soares Cotta. Segundo ele, a principal atividade ocorre nas plenárias realizadas às terças-feiras, no Campus Dom Bosco.
Os encontros são divididos em dois momentos. O primeiro é dedicado a palestras sobre diferentes áreas do conhecimento, sempre relacionadas ao envelhecimento. Entre os temas estão Psicologia, Filosofia, Sociologia, Direito, Geografia, Informática e questões de saúde. Na segunda parte, os participantes discutem o conteúdo apresentado e ajudam a definir as atividades futuras do programa.
“Atualmente, a gente tem sempre um encontro formal, que a gente chama de plenária. Sempre tem uma palestra sobre temas variados atravessados pela terceira idade e, depois, fazemos um debate sobre a palestra e também planejamos as próximas atividades do programa”, explica Marcelo.

Além das plenárias, o programa oferece oficinas realizadas nos campi Dom Bosco e Santo Antônio. As atividades incluem ginástica, informática, artesanato, teatro, coral, dança de salão, fotografia, pintura, bioexpressão, xadrez, música, língua estrangeira, espiritualidade e orientação alimentar, entre outras.
Enquanto os encontros gerais costumam reunir entre 60 e 80 participantes, as oficinas acontecem em grupos menores. Já nas comemorações e eventos promovidos pela universidade, a participação costuma ultrapassar 100 pessoas.
Segundo Marcelo, o planejamento anual é construído com a participação dos próprios idosos.
“No início do semestre, a gente faz uma reunião com os discentes que têm interesse em participar. Tudo que a gente traz aqui foi, de certa forma, discutido com eles. O planejamento do ano começa nessa reunião”, narra.
A coordenação também procura envolver os participantes nas decisões do programa e nas atividades desenvolvidas fora da universidade.
“Nossa meta é que os protagonistas sejam eles. O nosso programa é feito por eles conosco. A gente dá algumas diretrizes, mas tudo é conversado e trabalhado junto”, reflete.
Essa participação também ocorre em reuniões com órgãos públicos e em campanhas realizadas na cidade, além de ações voltadas à promoção da saúde e ao envelhecimento.
Segundo Marcelo, o reconhecimento conquistado ao longo dos anos fortaleceu a presença do programa tanto dentro da universidade quanto na comunidade.
“A gente vê em vários lugares que o nosso programa já é conhecido. Na universidade, nossas demandas são acolhidas com muito cuidado pela seriedade do trabalho e pela necessidade de dar voz às pessoas idosas“, garante.
A relação entre a universidade e a comunidade também produziu resultados em outras áreas. Maria José destaca que um professor integrante do programa elaborou um projeto apresentado ao poder público municipal que contribuiu para a criação da Lei Municipal do Idoso e do Conselho Municipal do Idoso de São João del-Rei.
“Foi uma interação importante com a comunidade externa. Conseguimos elaborar um projeto apresentado à Prefeitura para criação da Lei Municipal do Idoso e do Conselho Municipal do Idoso”, exemplifica.
Durante a visita da reportagem às atividades do programa, participantes relataram os motivos que as mantêm vinculadas à iniciativa. A aposentada Geralda Ferreira Bispo frequenta a iniciativa desde 2014 e afirma que a convivência e o aprendizado fazem parte da rotina construída ao longo dos últimos anos.
“Estou no projeto desde 2014 e gosto muito do programa, porque venho encontrar as amigas e conhecimento também”, defende.
O relato reforça um aspecto destacado tanto pela idealizadora quanto pela atual coordenação: o programa busca reunir formação, convivência e participação social em um mesmo espaço.
Maria José afirma que, ao longo da trajetória da iniciativa, observou mudanças na rotina de muitos participantes.
“No programa, nós notamos que as pessoas recobram a alegria de viver. Tem pessoas que chegam com quadro de tristeza, de luto, e, a partir do momento que convivem, melhoram consideravelmente”, frisa.
O coordenador Marcelo Soares Cotta também recorda situações que marcaram sua experiência à frente do programa. Uma delas envolveu um participante diagnosticado com Alzheimer.
Durante uma entrevista realizada pela equipe do programa, um idoso respondeu por que gostava de frequentar as atividades.
“Perguntamos por que ele gostava de vir aqui e ele respondeu: ‘Porque as pessoas aqui abraçam a gente’“, resumiu.
Outra lembrança citada pelo coordenador envolve uma participante que, após ingressar no programa, decidiu assumir um papel diferente dentro da própria família.
“Ela contava que, todos os anos, nunca falava na reunião de Natal da família. Depois de participar do programa, avisou que naquele ano seria ela quem faria a fala da celebração”, conta.
Ao completar 30 anos, o Programa Universidade para a Terceira Idade mantém a proposta que motivou sua criação em 1995: oferecer oportunidades de educação permanente, fortalecer os vínculos entre universidade e comunidade e criar espaços de participação para a população idosa.
Para Maria José, a experiência construída ao longo dessas três décadas continua aberta a novos participantes.
“Quem se interessar em participar desse programa, eu acredito que vai gostar muito. Vale a pena convidar os amigos e os vizinhos. Pelo depoimento de todos e pelo que nós observamos, a convivência, as amizades e as atividades desenvolvidas fazem muito bem às pessoas”, finaliza.
Imagem de destaque: Jak Azevedo, Ana Clara Messias e Livia Godoi
Edição: João Barreto, Najla Passos e Arthur Raposo Gomes
Supervisão: Arthur Raposo Gomes
