SÃO JOÃO DEL-REI PODE RECEBER TÍTULO DE CAPITAL DA ARTE SACRA

Ana Liz Taschetto, Guilherme Mendes,
Manuella Oliveira e Letícia Rabelo

São João del-Rei renova mais uma vez o seu destaque como cidade histórica e centro cultural. A partir de projeto de lei (PL 1769/2026) apresentado ao Congresso Nacional pelo deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), no mês de abril, a cidade poderá se tornar a Capital Nacional da Arte Sacra. 

Vista da Capela de São Francisco de Assis, no Campus Santo Antônio da UFSJ. O espaço histórico une a tradição da arquitetura religiosa mineira ao cotidiano acadêmico da instituição. (Foto: Manuella Oliveira)

Determinada por todo tipo de produção artística que venera ou serve ao culto religioso e à liturgia, a arte sagrada pode ser manifestada por meio da arquitetura (templos e igrejas), artes visuais (pinturas, esculturas e vitrais), ou até mesmo dos próprios objetos litúrgicos utilizados em ritos religiosos. Festas religiosas, como de Corpus Christi e Semana Santa, igrejas históricas, pinturas, esculturas e boa parte de toda a riqueza patrimonial da cidade são manifestações da Arte Sacra, reunindo milhares de turistas e fiéis todos os anos e renovando o valor cultural da cidade de São João del-Rei, antro da arte Sacra brasileira.

A justificativa do deputado para a aprovação do projeto, segundo apuração da reportagem, é de que a cidade “conta com uma indústria ampla e diversificada, onde a tradição dos artífices, aliada a processos tecnológicos de larga escala, cria um dos mais fortes redutos de arte sacra do Brasil e até mesmo da América Latina”, sendo promotora da arte sacra para o Brasil e diversos outros lugares do mundo.

Arte sacra é manifestada de diferentes formas

Marcy de Oliveira, profissional de marketing e coordenadora da produção de tapetes desde 2024, narra sua relação com a arte e defende sua importância como patrimônio imaterial: assim como toda arte sacra tem um propósito, o do tapete de rua é preparar as vias para as procissões religiosas.

O processo de criação passa por uma elaboração iconográfica e um projeto completo. Segundo Marcy, o tapete começa muito antes de ir para as ruas: depois da medição do trajeto, os artistas revisam receitas antigas de quantidade de matérias-primas e planejam cores para tingimento de serragem, quantidades de materiais e desenhos.

“Às vezes a gente trabalha com escassez de material, então é difícil pegar serragem, é difícil fazer o tingimento, é muita quantidade”, afirma.

“Não existe tapete sem comunidade. Da mesma forma que também não existe comunidade sem tapete”, reflete Marcy (Foto: Manuella Oliveira)

Para ela, é essencial fazer as pessoas entenderem que aquilo é patrimônio e que tem tanto valor quanto a arte sacra que está dentro da igreja e dos museus.  Muitos dos artistas que fazem tapete também são escultores e trabalham diretamente com a arte sacra, como Carlos Magno e Fernando Pedersini, que são escultores e restauradores.

Marcy comenta também que é preciso uma comunidade inteira, sendo uma dificuldade grande para manter a tradição, pois a sociedade vive um cenário de trabalho cada vez mais precarizado, sem tempo para lazer, vivência comunitária, e transformação dos espaços urbanos, que são cada vez mais comerciais do que residenciais.

“Elas não tem tempo de viver a cultura, viver a cidadania, não tem tempo de se desenvolver culturalmente e isso afeta também a religião”, avalia.

Carlos Calsavara, artista e especialista em arte sacra, destaca a importância da preservação desse patrimônio cultural e religioso. (Foto: Ana Liz Taschetto)

Carlos Calsavara, artista no meio sacro há 30 anos, produz arte sacra em madeira, com foco no uso de cedro e na produção com resgate de técnicas do período barroco colonial, como douramento, policromia e encarnação. Esse trabalho, que começou de forma individual, hoje se expandiu e conta com uma pequena equipe de colaboradores. Ele aponta a dificuldade em encontrar jovens interessados em aprender mais sobre esse trabalho manual e imersivo.

Na construção da arte, Carlos relata um processo técnico complexo e meticuloso. A arte sacra  é uma prática artística muito antiga e muitos materiais tradicionalmente utilizados não são mais comumente encontrados no mercado. Outros grandes obstáculos enfrentados pelo ateliê do artista são a burocracia e os impostos aplicados nos produtos, que muitas vezes lidam com barreiras na alfândega e os altos custos de importação de matéria-prima para o Brasil.

Outro PL valoriza saber tradicional e artesãos locais

Apesar de todos esses problemas, Carlos vê esperança na aprovação do PL 3586/2025, de autoria do deputado estadual Professor Cleiton (PV-MG), que objetiva reconhecer o modo de fazer arte sacra de São João del-Rei como expressivo na cultura do estado de Minas Gerais. O projeto visa valorizar o saber tradicional e os artesãos locais.

Em conjunto com o PL formulado pelo deputado Aécio Neves, para Carlos, o projeto do Professor Cleiton tem grande potencial para valorizar o patrimônio histórico e dar mais visibilidade global a São João del-Rei.

Segundo o artista,esse trabalho de arte sacra é um trabalho de ponte entre o campo físico e o campo espiritual”. O maior sentimento de gratidão, ainda de acordo com ele, é ver o devoto se emocionar diante da obra concluída.

Registro detalhado de escultura sacra de Nossa Senhora das Dores, evidenciando os elementos clássicos de sua iconografia, como o coração transpassado por espadas e a expressividade do pranto. (Foto: Ana Liz Taschetto)


Edição: Najla Passos e Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

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