Ana Beatriz Dalchow, Samanta Aquino,
Diego Galvond, João Victor Coimbra e Henrike Silva
Com apenas uma saída e um ar de mistério, mal dá para imaginar que ali dentro existe um verdadeiro tesouro. Nas estantes, livros catalogados abrem passagem para um mundo vasto, onde é possível encontrar grandes figuras do século 20, autores esquecidos, obras raras, títulos populares e histórias que parecem esperar por um novo leitor. Seria assim o início de um conto ficcional, caso estivéssemos narrando as aventuras proporcionadas pelos sebos de São João del-Rei. Mas a cena é real.

Os sebos são-joanenses provocam um sentimento difícil de explicar: são lugares em que o tempo parece funcionar de outro jeito. Entre prateleiras, pilhas de livros, discos, revistas e gibis, o visitante encontra não apenas objetos à venda, mas fragmentos de memória.
Em três oportunidades, foi possível conhecer espaços que revelam o quanto ainda se aprende na companhia de quem preserva esses ambientes ricos em cultura.
Um deles é conduzido por Gilberto Cardoso, mais conhecido como Gibi Moreira, dono do Sebo Isquisito. Simpático e bem-humorado, ele recebe a reportagem para uma conversa que inspira a narração acima.
Ao falar sobre o acervo, Gibi explica que recebe a visita de vendedores de livros, mas também demonstra cuidado na formação de suas estantes. Há, ali, algo além do simples acúmulo: existe uma espécie de arranjo, uma seleção silenciosa, construída por quem aprendeu a reconhecer valores onde muita gente vê apenas papel antigo.
Gibi não gosta de falar muito sobre si. Não se demora em sua própria história. Talvez porque, em um sebo, tudo possa ser reinventado, como acontece com os livros que mudam de dono, de casa e de destino. Uma coisa, porém, é certa: são cerca de quarenta anos dedicados aos livros.
A trajetória começou no bairro Serra, em Belo Horizonte. Foi ali que Gibi acompanhou, entre estantes e leitores, parte das transformações do país: o período pós-ditadura, a inflação, as mudanças econômicas, a modernização dos meios de comunicação e o surgimento de novas formas de consumo cultural.
Muita coisa ficou pelo caminho. Mas, em determinado momento, o coração pediu o sossego de São João del-Rei. O motivo? Simples, segundo ele: “porque quis”.
Rápido e sincero, Gibi conta que está na cidade há dez meses. Evita dizer exatamente o que gosta em São João del-Rei. Mas seus livros parecem saber. E talvez isso baste.
Quando perguntado sobre as mudanças nos hábitos de leitura diante da presença de tablets, Kindles, celulares e tantas outras tecnologias, o livreiro responde sem hesitar: “o que morre é a gente, os livros não”, aponta.
A frase resume mais do que uma opinião: ela revela uma visão de mundo. Para Gibi, os livros cumprem o que se propõem a cumprir. “Já disseram muito. Ainda têm muito a dizer. Cabe ao leitor sentir, pensar e refletir“, avalia.
Do outro lado da rua, outro sebo chama atenção: o Ponto Literário.
O espaço tem uma luz mais presente e divide as estantes de livros com uma área dedicada à música. Discos de vinil encontram ali um lugar íntimo, como se o tempo tivesse estacionado sem pedir licença. A cena parece comum, até perceber-se a forma como tudo é disposto e comercializado. Não se trata apenas de vender objetos antigos: trata-se de manter em circulação formas de escuta, leitura e memória.
No acervo, há livros de capa dura, exemplares antigos, obras empilhadas em cantos que roubam a cena, muita cor e muita história. Débora Veloso, dona do sebo, relata que trabalha com esse empreendimento há 26 anos.
Com meio século de idade, voz pacífica e olhar sério, Débora conta que está no sebo desde os anos 2000 e que de lá para cá, viu o interesse das pessoas sofrerem grandes alterações pelo tempo. Hoje em dia, ela acredita que ainda há uma curiosidade e um interesse relativamente grande por esse ambiente que conserva a cultura de mais de duas décadas de história plantada e cultivada no mesmo endereço, formato e emoções.

Lugar simbólico na cidade onde os sinos falam
A permanência de espaços como o Sebo Isquisito de Gibi e o Ponto Literário mostra que os sebos seguem relevantes em São João del-Rei. Em uma cidade marcada pela história, pelas igrejas, pelas ruas de pedra, pelos casarões e pela força da memória, eles ocupam também um lugar simbólico. Guardam livros, mas também guardam rastros de pessoas.
A bibliotecária Gisele Lima, de 30 anos, conta que atualmente não vai a sebos com tanta frequência, mas reconhece o valor desses espaços. O que sempre a atraiu foi o custo-benefício e a possibilidade de encontrar livros raros, edições diferentes e obras requisitadas por valores mais baixos.
Além do preço, Gisele destaca a variedade. “Em um sebo, nós leitores podemos encontrar gêneros literários menos óbvios, publicações antigas e materiais que dificilmente estariam nas vitrines de uma livraria tradicional”, frisa.
Para ela, os sebos não são apenas pontos comerciais: são parceiros na difusão da cultura, especialmente em bairros e regiões com pouco ou nenhum acesso a bibliotecas, livrarias e espaços literários.
“É uma forma do conhecimento resistir e continuar sendo difundido”, afirma.
Essa resistência ganha ainda mais importância diante do cenário nacional da leitura. Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2024“, realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada pela Fundação Itaú, 47% da população brasileira é considerada leitora. O levantamento define leitor como “quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores” à pesquisa. O mesmo estudo aponta que 53% da população não leu nenhum livro nesse mesmo período.
Os números ajudam a entender o tamanho do desafio: formar leitores no Brasil ainda depende de renda, acesso, incentivo, presença de bibliotecas, políticas públicas e espaços culturais. Nesse contexto, os sebos funcionam como uma ponte entre o desejo de ler e a possibilidade real de comprar um livro.
A estudante Letícia Campos, de 27 anos, diz que costuma procurar livros usados antes de comprar novos. O motivo é pagar menos por um produto que ainda está em bom estado. Foi assim que encontrou “Mulheres que Correm com os Lobos”, obra que queria ler havia algum tempo, mas que estava com preço alto.
Para a gerente de design e graduada em arquitetura, Letícia Renault, também de 27 anos, o preço é o principal atrativo, mas não o único. Ela gosta da sensação de garimpar entre os livros. Durante o ensino médio, frequentava sebos toda semana. Hoje, vai menos, mas ainda vê nesses espaços algo que ultrapassa a compra.
“Em uma cidade pequena, o sebo é mais do que uma loja de livros: é um espaço de encontro, memória e acesso à cultura. Ele mantém vivas histórias que conectam pessoas, gerações e a identidade da própria cidade”, argumenta.
A fala aponta para uma dimensão afetiva dos sebos. Quem entra nesses espaços raramente procura apenas um produto. Procura uma descoberta. Um título fora de catálogo. Um clássico esquecido. Um livro com marcas de outro leitor. Uma edição antiga. Um achado inesperado.
Reflexões e ponderações no cotidiano
É essa experiência que diferencia o sebo das grandes plataformas de venda. No ambiente digital, o livro aparece como item pesquisado, filtrado e entregue. No sebo, muitas vezes, ele aparece por acaso.
O envolvimento do leitor com os livros também é um ponto importante para quem vai visitar os sebos. É inevitável a marca do tempo nos exemplares e isso deixa o momento de encontro com aquela obra ainda mais especial.
Pensando nas histórias e nas lembranças resgatadas pelos sebos, o Jornal da Gazeta de São Paulo/SP, exibiu uma matéria impactante em seus veículos, sobre os elos criados pelos sebos.
Conforme o Jornal Cultural, edição nº 69, de fevereiro de 2025, São João del-Rei conta na data, com a Livraria Resistência Literária, dedicada a livros raros e usados, revistas, gibis, CDs e DVDs, com compra e venda. A mesma edição também registra a Livraria Ponto Literário, no Centro, voltada a livros usados, revistas e discos.
No livro “Histórias Bizarras de um Livreiro”, Júlio Cesar Cabral, criador da Livraria Resistência Literária, afirma que o objetivo da obra é retratar, com humor, seus 32 anos como livreiro. No prefácio, ele defende que vender livros usados e baratos contribui para aumentar o número de leitores e melhorar o nível cultural da comunidade.
Em outro trecho da obra, Júlio contesta a ideia de que o brasileiro não gosta de ler. Para ele, “o problema não está na falta de interesse, mas na falta de dinheiro para comprar livros novos”. A afirmação dialoga com a realidade de muitos leitores que recorrem aos sebos justamente por encontrarem preços mais acessíveis.
De acordo com a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro 2024“, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, realizada por Nielsen BookData, as editoras registraram crescimento nominal de 3,7% nas vendas ao mercado em 2024, com faturamento de R$ 4,2 bilhões. Apesar do movimento econômico do setor, o preço do livro novo ainda pesa para parte da população.
Para ilustrar o impacto dos sebos nos tempos contemporâneos brasileiros, o Notícias del-Rei resgata, abaixo, uma matéria exibida na TV Brasil, que demonstra como os livros são capazes de resgatar a identidade e a história de uma população invisibilizada e que com o tempo, poderia ter a sua cultura, os seus costumes e lutas apagados.
Segundo o “Panorama do Consumo de Livros 2025“, realizado pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou ao menos um livro nos últimos 12 meses. O índice representa crescimento em relação ao ano anterior, mas também mostra que a compra de livros ainda não faz parte da rotina da maior parte da população adulta.
Nesse intervalo entre interesse, preço e acesso, os sebos cumprem uma função importante: eles oferecem livros mais baratos, permitem a circulação de obras paradas em casas e bibliotecas particulares, recebem acervos, compram exemplares usados e, em alguns casos, também doam livros.
No próprio “Histórias Bizarras de um Livreiro”, Júlio Cesar Cabral afirma que, desde 2019, vive em um casarão em São João del-Rei rodeado por cerca de 20 mil livros, além de revistas, discos, CDs e DVDs. No relato, ele diz que vende e doa livros usados, contribuindo para aumentar o número de leitores e o nível cultural da cidade.
Circulação de livros possui uma função ambiental
Essa circulação também tem uma função ambiental também: quando um livro usado volta às mãos de outro leitor, ele deixa de ser descartado. Não vira lixo, não fica esquecido em caixas, não se perde com a mudança de uma casa ou com a morte de um antigo dono. Ele ganha outro destino.
A bibliotecária Gisele Lima aponta a necessidade de maior cuidado com obras antigas, principalmente aquelas com páginas e capas em processo de deterioração. A conservação do acervo, a organização dos espaços e a valorização da experiência do leitor podem fortalecer ainda mais esses estabelecimentos.
Mesmo com o crescimento dos livros digitais, as entrevistadas acreditam que os sebos continuarão relevantes. A gerente de design Letícia Renault aponta um apossível justificativa para o fato de que muitas pessoas ainda não se adaptaram à leitura digital e preferem o livro físico. Gisele também lembra que o livro digital não é acessível para todos. Mesmo quando um e-book é gratuito, ele exige celular, tablet, computador ou leitor eletrônico.
Segundo o IBGE, por meio da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), a internet está presente em 93,6% dos domicílios particulares permanentes do Brasil em 2024. Ainda assim, o acesso digital não elimina desigualdades. A leitura em telas depende de aparelho, conexão, familiaridade com tecnologia e condições adequadas de uso. Por isso, o livro físico usado continua sendo uma alternativa concreta de democratização da leitura.
A permanência dos sebos, portanto, não depende apenas de nostalgia: depende de necessidade, de hábito e de vínculo cultural. Enquanto o livro novo for caro para parte da população, enquanto o acesso a bibliotecas for limitado e enquanto houver leitores interessados em descobrir obras fora do circuito tradicional, os sebos continuarão tendo função social.
Edição: João Barreto, Najla Passos e Arthur Raposo Gomes
Supervisão: Arthur Raposo Gomes
