ARTIGO DE OPINIÃO: A CRIANÇA QUE NÃO DÁ TRABALHO TAMBÉM PRECISA SER VISTA

Andrea Fernandes da Rocha *

Existe uma criança que quase nunca interrompe. Não questiona, não se opõe, não reclama. Aceita a roupa, o prato, o passeio, a regra.

Na escola, costuma ser chamada de “tranquila”. Em casa, muitas vezes é vista como “madura”. É a criança que entende tudo, se adapta rápido e quase nunca exige demais dos adultos.

À primeira vista, parece uma criança fácil. Mas nem sempre uma criança que não dá trabalho está bem. Isso não significa transformar toda criança calma em motivo de preocupação. Existem crianças naturalmente mais observadoras, reservadas e silenciosas. O problema não é a calma.

O problema é quando o silêncio começa a virar apagamento.

Algumas crianças aprendem cedo que discordar custa caro. Crescem em ambientes onde toda reação vira correção, toda emoção é exagerada pelos adultos e toda tentativa de se posicionar é recebida como desafio ou desobediência. Com o tempo, diminuem.

Não porque amadureceram emocionalmente, mas porque entenderam que ocupar espaço pode gerar tensão, conflito ou rejeição.

Outras crianças não se apagam pelo medo, mas pelo excesso de adaptação ao ambiente. Percebem rapidamente o humor dos adultos, tentam não incomodar, engolem frustrações, param de pedir ajuda e aprendem a funcionar sem dar trabalho.

Por fora, parecem organizadas. Por dentro, muitas vezes estão apenas tentando não pesar para ninguém. E existe algo delicado nisso: crianças muito adaptadas costumam receber menos atenção emocional.

Os adultos naturalmente olham primeiro para quem grita, enfrenta, explode ou exige mais cuidado. Enquanto isso, a criança silenciosa vai sendo confundida com uma criança “resolvida”. Mas comportamento fácil não significa ausência de sofrimento. Às vezes, significa excesso de contenção emocional.

Também existem crianças que silenciam por insegurança, ansiedade, dificuldade de comunicação, medo de errar ou até por já terem se acostumado a acreditar que suas vontades importam menos do que as dos outros.

Por isso, olhar para uma criança exige mais do que observar se ela obedece. Exige perceber se ela consegue existir emocionalmente dentro das relações.

Se consegue pedir ajuda, se cobsegue discordar, demonstrar preferências, expressar frustração, fazer perguntas e se sentir-se segura para aparecer. Porque desenvolvimento saudável não significa apenas aprender a se comportar.

É também desenvolver presença, identidade e segurança emocional para ocupar espaço no mundo sem precisar desaparecer de si para ser aceito.

Talvez por isso algumas crianças “perfeitas demais” crescem se tornando adultos que tem dificuldade de dizer não, de pedir ajuda, de reconheceras próprias necessidades ou de sustentar a própria voz nas relações.

Nem toda criança que não dá trabalho está bem. Algumas apenas aprenderam cedo demais que sentir, precisar ou ocupar espaço podia incomodar alguém.

E talvez uma das tarefas mais delicadas dos adultos seja justamente perceber quando uma criança foi ficando silenciosa demais.


* Andrea Fernandes da Rocha é terapeuta ocupacional, atua com desenvolvimento infantil e parentalidade e é autora do livro “Pequenos e Decisivos Passos na Infância”.

Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT pelo Notícias del-Rei.

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