CRÔNICA: DIA PRIMEIRO DE MAIO, SEM FOLGA MARCADA

Arthur Raposo Gomes

O primeiro de maio chegou no calendário. Mas, na prática, nem todo mundo parou.

No bairro, tinha loja abrindo meio desconfiada. Porta subindo devagar, como quem ainda decide se vale a pena. Do outro lado da rua, alguém já estava trabalhando desde cedo – não porque quis, mas porque é o dia que dá movimento. Tem isso.

Tem gente que folga no Dia do Trabalhador. E tem gente que trabalha mais.

No Brasil de agora, essa diferença tem nome, tem rotina e tem escala. A tal da 6×1, que virou assunto de debate, de rede social, de promessa, de projeto. Mas, fora da discussão, ela continua acontecendo.

Seis dias. Um de descanso. Quando dá.

Quem está nisso não costuma falar muito. Está mais preocupado em fechar o caixa, bater meta, cumprir horário, segurar o emprego. Não é falta de opinião. É falta de tempo mesmo. Porque o cansaço também ocupa espaço.

Passando pela cidade, dá pra perceber. O atendente que já está no automático. A funcionária que já decorou o fluxo da semana inteira. O motorista que não sabe mais se é terça ou sábado. Tudo funcionando – meio no limite, mas funcionando. E funcionando há muito tempo assim.

O primeiro de maio sempre vem com discurso. Direitos, história, luta. E isso tudo faz sentido. Mas, no meio da rotina, o trabalho aparece de outro jeito. Mais silencioso. Mais repetido. Mais cansado.

Menos símbolo. Mais prática.

A discussão sobre a escala existe. E precisa existir. Mas ela ainda não chegou da mesma forma pra quem está ali, no dia a dia, tentando equilibrar tempo, dinheiro e energia.

Porque, às vezes, o feriado – mesmo sendo o Dia do Trabalhador – é o único momento que aparece para terminar um relatório, organizar a casa, colocar os estudos em dia. É quando dá pra correr atrás do que ficou pendente na semana.

E, ainda assim, quando possível, é preciso parar um pouco.

Nem que seja no fim do dia. Um samba. Um almoço mais demorado. Um café da tarde sem pressa. Coisa simples.

Se a gente olha com atenção, a cidade também se parece um pouco com aquele quadro cheio de rostos, lado a lado, cada um com sua história – trabalhando, seguindo, tentando dar conta.

A cidade continua aberta. Mas, no meio dela, todo mundo também precisa, de vez em quando, de uma pausa.


Imagem de destaque: reprodução / Operários – Tarsila do Amaral

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