CRÔNICA: REFLEXÕES SOB O CÉU CINZA

Foto: reprodução / Freepik

Ana Beatriz Dalchow

Hoje eu acordei e o dia estava nublado. Dias cinzentos sempre me remetem àqueles momentos da minha infância em que eu era despertada com um café na cama e passava o dia assistindo filmes. Mas o ponto alto era quando o relógio batia 18h e minha família se reunia para ver mais um clássico do futebol. Essas lembranças são como os dias chuvosos que me livravam das aulas, como os domingos passados em família, cheios de riso e conversas.

Ao olhar pela janela e ver as nuvens cinzentas, um desânimo me invadiu. Percebi que agora tenho toda a liberdade que meu peito ansiava quando eu era criança, aquela liberdade pela qual roguei durante toda a minha adolescência. Contudo, quando o relógio bateu 18h naquele domingo, tive que assistir ao clássico do futebol sozinha. Aquele momento tão cheio de vida e vozes discutindo Flamengo e Fluminense já não fazia mais parte da minha rotina.

Pensei em correr de volta e pedir um abraço de bom dia para minha mãe. Pensei em ligar para minha avó e pedir para ela vir me buscar, para que pudéssemos almoçar juntas. Pensei em pedir ao meu pai para me levar ao Maracanã para assistir a um jogo. Pensei em chamar minha prima para uma festa do pijama. Mas, ao olhar para o horizonte cinzento, lembrei que pedi tanto por liberdade que hoje não posso ter nenhuma dessas coisas. Minha família está a 355 quilômetros de distância, desde que gritei por independência e eles, respeitosamente, me deram o espaço que tanto insisti em ter.

Por que, quando somos jovens, queremos tanto nos afastar de quem sempre nos amou e protegeu? Por que, ao crescermos, esse grito por liberdade se transforma em um clamor desesperado pela infância que tanto quisemos abandonar?

Acho que, no fim das contas, nunca estamos satisfeitos.

Sempre pedimos por liberdade, mas, no fundo, desejamos alguém que nos proteja. E, talvez, por ter me afastado tanto em busca de independência, tenha perdido até mesmo esses protetores.


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