Lara Cristina Reis
Afinal, quais corpos a sociedade escolhe abraçar? Quantas pessoas sentem-se, realmente, aceitas em seus ambientes de trabalho e estudo? Quantos sentem-se, de fato, acolhidos nos momentos de lazer e em seus diversos círculos sociais?
Infelizmente, pessoas transexuais são constantemente excluídas do meio social e a identidade que possuem é vista como motivo plausível para episódios de agressão. Contudo, elas não deixam, por um segundo sequer, de erguer sua bandeira. Seguem na luta… por direitos básicos; direitos civis; pelo simples direito de ser e existir.
De acordo com o relatório de 2021 da Transgender Europe, entre janeiro de 2008 e setembro de 2021, cerca de 4.042 pessoas trans e de gêneros diversos foram assassinadas no mundo – isto sem considerar os casos não registrados. Como apontado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil é o país onde há mais mortes por motivações transfóbicas, visto que, em uma escala global, 40% dos casos de trans feminicídio ocorreram em território nacional.
É fato. A transfobia atravessa as mais diversas áreas e períodos da vida humana: desde a infância à vida adulta; do campo político ao cultural; do econômico ao esportivo. Em maio de 2019, o jogador e treinador de voleibol, Bernardinho, fez uma declaração transfóbica contra a jogadora Tifanny Abreu, primeira transgênero a disputar uma partida na Superliga. Durante a Superliga Feminina de Vôlei, Tifanny vestia a camisa do Sesi-Bauru e jogava contra o Sesc-Rj, elenco liderado pelo treinador em questão. Em certo momento, no qual a atleta se sobressaiu, Bernardinho disparou em revolta: “Um homem, é f…”. Infelizmente, esta não foi a primeira vez que a esportista teve seu gênero e merecimento invalidados, tão pouco a última…
Assim como Abreu e outras mulheres transgênero, a skatista Lu Neto enfrentou dificuldades no mundo dos esportes. Com a transição, a atleta perdeu todos os patrocinadores que possuía e muitas pessoas do skateboard deixaram de acompanhar seu trabalho. “Ninguém quis assumir um compromisso com a imagem de uma pessoa transgênero”, contou em entrevista à Marie Claire.
Avançando um pouco no tempo, chega-se a agosto de 2023, quando o presidente da Câmara Municipal de Boa Vista, Genilson Costa, publicou uma lei proibindo atletas trans de competirem em suas respectivas categorias. Segundo a legislação, o sexo biológico seria o único critério definidor das categorias “feminino” e “masculino” de Boa Vista.
As situações aqui citadas são apenas alguns pontos de um imenso bordado. Um argumento largamente utilizado para descredibilizar a participação de mulheres trans no meio esportivo é a “vantagem física”. Afinal, segundo o pensamento de muitos atletas, políticos, torcedores e cidadãos em geral: estabelecida uma comparação entre mulheres cis e trans, as últimas seriam portadoras de maior força e agilidade, por conta de sua estrutura física e conjunto hormonal.
Todavia, salientando que cada caso é um caso, os corpos entendidos como femininos e masculinos são plurais. À título de exemplo, há mulheres cis que possuem mais massa corporal do que homens cis; há indivíduos de alta estatura competindo com outros de menor altura em partidas de voleibol…
Em suma, de maneira geral, é preciso compreender a existência da pluralidade de corpos, independentemente do gênero. Tratando acerca dos níveis de testosterona, existem regras estabelecidas pelo Comitê Olímpico Internacional para que pessoas transexuais participem das competições. Mulheres trans devem obrigatoriamente apresentar baixos níveis de testosterona para integrar uma modalidade e todas as esportistas que trabalham na área, atualmente, se encontram dentro dos critérios exigidos. Logo, não há qualquer “privilégio hormonal”.
Conforme pesquisa do Centro Canadense de Ética no Esporte, divulgada em abril de 2023, não há evidências científicas que comprovem o mito da vantagem. A pesquisa informa que atletas trans que passaram por tratamento de supressão de testosterona através de hormonoterapia não possuem vantagens biológicas em relação às mulheres cisgênero. Adicionalmente, o estudo constatou que aspectos ligados à puberdade dita masculina, como tamanho pulmonar e densidade óssea, não conferem benefícios às atletas trans do gênero feminino.
Para além disso, contrariando o pensamento popular, a população transgênero enfrenta, na verdade, desvantagens no mundo esportivo.
Em entrevista à “Atletrans”, série desenvolvida pelos jornalistas Caê Vasconcelos e Ivana Negrão, a ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão pontuou: “Quando uma pessoa se declara trans, ela vira um alvo. E isso está muito distante de ser uma vantagem”.
Diariamente, pessoas trans precisam lidar com uma série de preconceitos e discriminações que as atingem por todos os lados. Esse ódio gratuito contribui para a precarização da saúde mental e, consequentemente, para a queda de rendimento.
Ao acessar as redes sociais de Lia Thomas, a primeira atleta abertamente transgênero a vencer um campeonato nacional da Divisão I da NCAA, diversos comentários transfóbicos podem ser encontrados, desde mensagens que invalidam seu gênero àquelas que defendem ideias segregacionistas, como a criação de uma categoria específica para pessoas transgênero (“Vá competir com outros homens, deixar o cabelo crescer não te torna uma mulher”; “Você deveria estar defendendo uma categoria trans (…), um verdadeiro atleta procuraria pessoas de seu tamanho”).
Em vista disso, constata-se que o meio esportivo rejeita atletas trans sem motivos plausíveis. Mulheres transexuais perdem oportunidades de ingressar em times e modalidades, enfrentam dificuldades para encontrar patrocinadores, sofrem com o ódio gratuito das redes sociais e dos arredores e veem seu espaço no esporte sendo, constantemente, ameaçado.
Felizmente, não se pode dizer que a vida esportiva tem colecionado apenas derrotas, afinal, tem havido um aumento na conscientização e aceitação das mulheres trans no esporte e muitas organizações esportivas estão revendo suas políticas e diretrizes para garantir a inclusão e igualdade de oportunidades.
Personalidades como Tifanny Abreu, Lia Thomas, Lu Neto, Sheilla Souza, primeira jogadora de futebol trans do Brasil, e Renée Richards, primeira atleta trans a disputar uma competição na liga profissional de tênis, construíram uma carreira e conquistaram espaço para a comunidade. Nesse sentido, em novembro de 2021, o Comitê Olímpico Internacional invalidou a antiga diretriz que valorizava o gênero de nascimento e o impunha como determinante.
Há muito chão pela frente, mas as “vozes trans” gritam para que a sociedade acorde e abrace suas causas.
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