ARTIGO: “SOFT AND QUIET”: O HORROR NA REALIDADE QUE MORA AO LADO

Foto: Reprodução

Ana Isa Moura

Suave e silenciosa é a forma como a obra da diretora Beth de Araújo constrói a violência – até que não seja mais. A premissa do longa de 91 minutos é acompanhar um grupo de mulheres, presidido por uma professora, promovendo um encontro para debaterem suas crenças em comum; crenças estas que a cada minuto se mostram mais perturbadoras. 

De forma gradual, essa violência que se constrói por comentários racistas, xenofóbicos e misóginos, aparece nos diálogos dessas mulheres que proferem absurdos como se fossem apenas desabafos, e agressões passíveis de uma justificativa pessoal, sem reconhecer qualquer aspecto estrutural e até mesmo criminoso. 

Fato é que estamos habituados a presenciar essa violência e muitas das vezes permanecer calados diante dela. É assim que tais preconceitos continuam sendo perpetuados na sociedade. Enquanto a obra segue, percebemos que o caminho entre a disseminação de um discurso violento e os atos criminosos e agressivos de forma mais literal, é muito curto. E, assim, Soft & Quiet nos choca e deixa cada vez mais mudos. 

Em uma análise do roteiro, cabe considerar certa rapidez no desenvolvimento do segundo ato que caminha para um encerramento brutal devido ao tempo de tela reduzido.

No entanto, para uma obra de estreia, é impossível não considerar a habilidade da diretora em construir aflição com sutileza, de forma que possamos relacionar os absurdos proferidos desde o começo com qualquer pessoa conservadora e preconceituosa que já cruzou o nosso caminho – e é este o verdadeiro horror. 

Com influências claras de diretores como Aronofsky e Peele, Beth de Araújo – filha de brasileiro – traz ao seu primeiro longa elementos fortes na criação de uma atmosfera tensa e hostil de diversas maneiras.

A câmera na mão e os enquadramentos fechados nos deixam constantemente em posição de instabilidade e sufoco, assim como as vítimas e como as próprias agressoras, que se vêem encurraladas na inconsequência das próprias ações.

O filme de baixo orçamento foi indicado ao prêmio Gotham Awards, conhecido como o “Oscar dos filmes independentes” e já deixa claro o potencial da diretora e roteirista, bem como o tamanho da sua contribuição para o cinema brasileiro, mundial e as obras de horror. Além disso, evidencia o potencial feminino na direção de obras subversivas e perturbadoras, predominantemente comandadas por homens.

Soft & Quiet é incômodo, forte, intrigante e extremamente pertinente – seja pelas reflexões provocadas, seja pelo embrulho no estômago perante as violências testemunhadas do lado de cá da tela.

Diante de quais violências você tem se calado? 


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