Arthur Raposo Gomes *
“Eu surtei. Tô de saco cheio” – foi a mensagem recebida em plena madrugada. Certo dia. A cabeça do receptor da mensagem, profissional de comunicação, com atuação em contextos de crise, que estava em momento de descontração, vai a milhão. Minutos depois, vem a confirmação do motivo: reta final das eleições gerais de 2026.
Estamos na última semana do segundo turno. Mobilizações digitais ocorrem intensamente. Matérias jornalísticas sucessivas estimulam o sentimento de corrida de cavalos. Lideranças políticas, de todos os lados, puxam atos de rua e relembram que o voto é disputado nas redes e nas ruas.
Por mais que queiramos racionalizar escolhas políticas, comparando propostas e projetos, é fato: eleições também são disputas emocionais. O apoio a uma pauta e a rejeição a outro projeto político passam por sentimentos. O medo de que algo retroceda também. Assim como a esperança de mudança ou a vontade de preservar aquilo que se considera importante.
Na reta final, tudo isso ganha alguns decibéis. Uma pesquisa publicada pela manhã alimenta conversas até a noite. Uma declaração vira vídeo, meme, resposta e discussão.
Outra pergunta que tenho recebido bastante é: “O que você acha? Qual é a sua análise? Vai ficar do jeito que está ou tudo pode virar?”. A pergunta mistura a expectativa de quem pergunta com a tentativa de encontrar alguma resposta técnica capaz de antecipar o próximo domingo.
Só que eleição não oferece esse conforto.
Contextos eleitorais são instáveis, principalmente numa reta final. E pesquisa não é previsão do futuro. É uma fotografia da temperatura política no momento em que foi realizada: dá para observar tendências, comparar levantamentos, analisar rejeições e movimentações de campanha. Ainda assim, existe uma distância entre analisar um cenário e adivinhar o resultado.
Talvez o “surtei” daquela madrugada e o “vai ficar do jeito que está?” de outras conversas estejam menos distantes do que parecem. Ainda teremos uma semana de pesquisas, atos, vídeos, tentativas de convencimento e disputa pelos votos que podem se movimentar.
Pode virar? Pode ficar como está? Há análise para fazer. Certeza, não.
Essa parte da resposta continua guardada para a urna.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT
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