Lídia Oliveira, Livia Godoi e Samanta Aquino
Equipe – Observatório
Quem define o que uma sociedade reconhece como verdadeiro, legítimo ou relevante? E o que acontece com as vozes que não encontram espaço para serem ouvidas? Para Macaé Evaristo, compreender os discursos que circulam na sociedade passa também por olhar para os silêncios e para as relações de poder que determinam quem pode falar, produzir conhecimento e participar da construção da democracia.
Essas questões estiveram no centro da passagem de Macaé pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em junho deste ano. Com o tema “Discurso e Direitos Humanos”, a educadora, deputada estadual e ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania participou do encerramento da VII Jornada de Estudos do Discurso Horizontes Toninianos, promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (Promel) da instituição.

Ao lado do professor Cláudio Márcio do Carmo, docente do curso de Letras e integrante do Promel, Macaé percorreu temas como educação, democracia, dignidade humana e pluralidade de ideias. Também abordou a importância de políticas públicas voltadas a grupos historicamente minorizados, como populações indígenas, faveladas e periféricas e pessoas do campo.
A partir da pergunta “Quem produz sentidos pelos quais uma sociedade interpreta a si mesma?”, Macaé chamou a atenção para a necessidade de questionar quem define aquilo que é reconhecido como verdadeiro, legítimo e relevante.
“A gente também precisa ler criticamente o mundo e compreender como os discursos organizam a realidade, distribuem legitimidade e produzem exclusões”, comentou.
Quando o silêncio também produz sentido
Ao discutir os desafios enfrentados pelos direitos humanos no Brasil, Macaé retomou a expressão “direitos humanos para humanos direitos”. Para ela, a repetição desse tipo de discurso contribui para transformar determinadas ideias em verdades aparentemente universais, mesmo quando estão atravessadas por relações de poder.
A deputada relacionou essas disputas às desigualdades de raça, gênero, classe, território e geração. Nesse processo, chamou a atenção também para aquilo que não é dito.
“É preciso a gente também compreender que o silêncio também produz sentido, porque o que não pode ser dito, aquilo que não encontra reconhecimento institucional, também revela relações de poder“, reforçou.
Macaé também abordou as dificuldades para a implementação plena do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas, previsto pela Lei nº 10.639/2003. Para ela, as instituições não podem se calar diante de opressões ou do descumprimento da legislação.
Outro ponto abordado foi o ambiente digital. Ao recordar sua passagem pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé falou sobre políticas de proteção de crianças e adolescentes e sobre o enfrentamento à violência nas plataformas.
“Esse é um debate importante, porque a gente não está falando de censura, nós estamos falando de garantir que a liberdade de expressão não seja capturada por modelos econômicos que lucram com o ódio, com a desinformação e com a desumanização”, avaliou.
A educadora também criticou a concentração da produção de discursos nos grandes canais de mídia e a forma como determinados territórios foram historicamente representados.
“Nas periferias urbanas, durante décadas, predominou um enquadramento baseado na ausência, a ausência do Estado. A periferia era vista como ausência, a periferia é vista como falta”, relembrou.
Para Macaé, ampliar a democracia passa não apenas pela presença de diferentes vozes no debate público, mas pela possibilidade de que esses grupos também produzam conhecimento sobre as próprias experiências. Ela lembrou que povos indígenas, quilombolas e mulheres negras foram, durante muito tempo, tratados como objetos de estudo, e não como produtores de conhecimento.
“Democracia não é apenas a pluralidade de vozes, é a pluralidade de sujeitos capazes de produzir conhecimento sobre sua própria experiência“, argumentou.
Tecnologia, violência e representatividade
Ao tratar do ambiente digital, Macaé relacionou avanços tecnológicos, regulamentação das plataformas e representatividade. Para ela, esse espaço também se tornou um campo de disputa sobre quais vozes encontram reconhecimento.
A deputada abordou ainda as violências contra mulheres e o papel das tecnologias na disseminação de discursos de ódio. Citou o crescimento de movimentos como o Redpill e seus impactos sobre crianças e adolescentes, além da necessidade de responsabilização das plataformas pela circulação de conteúdos violentos.
Segundo Macaé, a discussão atinge especialmente mulheres, pessoas negras e a população LGBTQIAPN+ e exige que as plataformas utilizem os mecanismos tecnológicos disponíveis para enfrentar essas formas de violência.
A discussão também apareceu em sua pesquisa de doutorado sobre a participação feminina nos espaços institucionais. O trabalho resultou no conceito de “Escrevivência Política”, inspirado na escrevivência de Conceição Evaristo.
Para Macaé, experiências historicamente silenciadas podem servir de base para novas formas de atuação institucional.
“Transformar dor em política pública. Memória em normativas. E experiência em conhecimento“, complementou.
A partir da própria pesquisa, ela também defendeu políticas afirmativas nas universidades como caminho para ampliar a presença de pessoas negras e transexuais nesses espaços e, principalmente, garantir que possam produzir conhecimento.
“Todo mundo faz política”
Em entrevista ao Observatório de Comunicação Política do Campo das Vertentes, Macaé aprofundou algumas das questões apresentadas durante a palestra. Falou sobre os caminhos para romper silenciamentos, aproximar a juventude da política e sobre o legado que pretende deixar para as próximas gerações.
Ao tratar da relação entre palavra e silêncio, a deputada lembrou que diferentes tradições atribuem sentidos distintos aos dois elementos. Enquanto a tradição cristã compreende a palavra como princípio da existência, segundo ela, filosofias africanas também reconhecem no silêncio um espaço de força e significado.
“O silenciar muitas vezes, pra nós, pode ser um lugar de produzir força e significado pra que a gente possa erguer a voz e saber de que lugar que a gente tá falando.”
Macaé relacionou essa reflexão à colonialidade e às disputas de poder em torno da linguagem. Ao lembrar o silenciamento histórico das mulheres negras, voltou ao conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo, e destacou a ocupação dos espaços públicos, a escrita e o uso das tecnologias como formas de enfrentar estruturas de exclusão.
Ao ser questionada sobre o que a fortalece nesse processo, ressaltou a dimensão coletiva da atuação política.
“O que sempre me deu força pra erguer a voz é uma perspectiva coletiva, é não estar sozinha“, garantiu.
Para Macaé, essa dimensão coletiva também ajuda a compreender a relação dos jovens com a política. Ao falar sobre o tema, defendeu que a participação política não se limita aos partidos ou às instituições.
“Primeiro que eu acho que todo mundo faz política”, cravou.
Como exemplos, citou reivindicações por melhorias nos bairros, debates sobre assistência estudantil, ações de solidariedade e manifestações nas redes sociais. Para ela, até mesmo a forma como cada pessoa utiliza suas redes representa uma atuação no espaço público e produz sentidos.
Macaé também diferenciou essa participação cotidiana da atuação político-partidária. Embora considere a entrada na política institucional uma escolha individual, argumentou que a ausência de participação também tem consequências, já que as decisões continuam sendo tomadas.
“A gente chega de bonde”
Ao falar sobre o legado que pretende deixar, Macaé voltou à ideia que atravessou diferentes momentos de sua fala: a transformação como resultado de uma construção coletiva.
“Em todas as minhas produções, eu sempre falo muito isso, da importância do coletivo, que a gente não anda só. Que a gente anda junto com muita gente, a gente chega de bonde“, disse.
A ex-ministra afirmou que procura, em cada espaço que ocupa, identificar possibilidades concretas de transformação, mesmo quando elas parecem pequenas.
“Todo lugar que eu ocupo e todo lugar que eu tô, eu penso assim: o que que eu posso transformar?”, refletiu.
Para Macaé, mudanças maiores também são construídas pela soma dessas ações cotidianas. Iniciativas desenvolvidas em grêmios estudantis, movimentos sociais ou universidades, por exemplo, podem transformar a realidade de uma geração e deixar impactos para as seguintes.
“A gente não faz uma grande revolução, mas a gente vai fazendo muitas pequenas coisas e essas muitas pequenas coisas vão fazendo uma revolução”, finalizou.
Proposta do Observatório
O Observatório de Comunicação Política do Campo das Vertentes desenvolve atividades como debates, produção de conteúdo e ações junto à comunidade. A proposta é fortalecer o diálogo entre universidade e sociedade, contribuindo para um debate público mais crítico, plural e democrático na região.
Na prática, o projeto tem como próximos passos oferecer minicursos e oficinas abertas para estudantes, profissionais que atuem na área da Comunicação Política e demais interessados.
Em outro eixo de atuação, o Observatório tem como objetivo produzir conteúdos instrucionais e jornalísticos que ajudem a aproximar a UFSJ da população e política da região, bem como a realização de encontros temáticos.
Imagem de destaque: Samanta Aquino
Edição: Arthur Raposo Gomes
Supervisão: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes



