ENTRE SILÊNCIOS E SABERES: QUEM TEM VOZ NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO?

Danielly Faustino, Érika Franco e Thomás Guedes
Equipe – Observatório

Quem produz o conhecimento reconhecido pela universidade e quais experiências ficam de fora desse processo? A discussão atravessa raça, gênero e classe e coloca em xeque até mesmo a ideia de neutralidade científica. Para a pesquisadora Fernanda Zanola, olhar para essas relações a partir da interseccionalidade ajuda a compreender as desigualdades presentes na academia e a forma como determinados saberes são legitimados enquanto outros permanecem à margem.

É a partir dessas questões que Zanola discute interseccionalidade, discurso, poder e epistemologias feministas negras. Formada em Administração, com mestrado e doutorado na área, a pesquisadora conta ter se aproximado do feminismo interseccional ao perceber lacunas nas teorias com as quais trabalhava durante sua formação acadêmica.

Em entrevista concedida, ela relata como essa trajetória moldou seu interesse pelo tema.

“Na graduação de administração científica, depois do mestrado, eu percebi uma lacuna de teorias. Eu gostava de pesquisar sobre gênero e essas relações dessas opressões, porém não tinha abertura dentro das teorias mesmo que me explicassem sobre”, narra.

A busca por esse aporte teórico levou Zanola às teorias feministas, onde encontrou fundamentos para aprofundar as pesquisas que viriam a se consolidar no doutorado. Para analisar opressões que se manifestam de forma simultânea, ela recorre aos estudos de Lélia Gonzalez, que mostram como gênero se cruza com outros marcadores sociais, como raça e classe, produzindo desigualdades que não podem ser compreendidas apenas a partir de um desses aspectos.

“Entender a interseccionalidade favorece a gente entender o mundo, as relações contemporâneas, como que elas funcionam e principalmente entender meios para a gente lidar com esses entraves que muitas vezes existem“, argumenta a pesquisadora.

As epistemologias feministas negras, segundo Zanola, reúnem saberes historicamente deixados de fora da academia, construídos também a partir do corpo, da memória e das experiências cotidianas de pessoas que nem sempre tiveram acesso aos espaços tradicionais de produção do conhecimento.

Um dos pontos centrais da palestra ministrada por Zanola durante a VII Jornada de Estudos do Discurso da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), realizada em junho deste ano, foi justamente a crítica à ideia de neutralidade científica.

“A neutralidade já é um ponto, já é uma posicionalidade. Então, ter esse caráter de neutralidade, de generalizar, ele coloca o saber na mão de alguns e ignora outros pontos”, afirma.

Para ilustrar esse argumento fora do ambiente acadêmico, Zanola cita o caso de um policial à paisana que atirou em um motorista de aplicativo, assunto que, segundo ela, perdeu espaço na cobertura diária diante de outros temas. Para a pesquisadora, decidir não publicar sobre determinado assunto também representa uma escolha editorial, mesmo quando essa decisão é apresentada como neutra.

O público acompanhou a palestra durante a VII Jornada de Estudos do Discurso (Foto: arquivo pessoal)

Ao falar sobre o cenário atual, Zanola reconhece avanços trazidos pelas políticas de cotas e por outras medidas de acesso, mas destaca que o meio acadêmico permanece majoritariamente branco e de elite, atravessado por relações de poder que dificultam a permanência de pesquisadoras negras.

“Nós vivemos a solidão de ser, às vezes, a única ou o único presente naquele ambiente, de ter que construir o caminho ali de uma forma solitária”, reflete.

Para discutir os efeitos dessa ausência, a pesquisadora recorre ao conceito de epistemicídio, de Sueli Carneiro, relacionado à exclusão e à deslegitimação de determinados saberes e das vozes que os produzem.

Entre as leituras recomendadas por Zanola está a obra de Lélia Gonzalez sobre o feminismo afro-latino-americano, além dos escritos de Sueli Carneiro sobre epistemicídio e resistência negra. Conceição Evaristo também aparece como referência, especialmente pelo conceito de escrevivência e pela relação entre corpo, memória e escrita.

“A Conceição Evaristo fala do eu-corpo negro, do movimento, da reflexão, da memória. Eu acho que é isso, é o saber que vem da vivência, da experiência”, destaca.

“Quarto de Despejo”, diário de Carolina Maria de Jesus sobre sua experiência na favela, completa a lista de indicações.

Ao final da palestra, Zanola convidou o público, formado majoritariamente por pesquisadores de pós-graduação, a olhar também para as próprias práticas de pesquisa e refletir sobre quais vozes e experiências encontram espaço nos trabalhos produzidos dentro da universidade.

Proposta do Observatório

O Observatório de Comunicação Política do Campo das Vertentes desenvolve atividades como debates, produção de conteúdo e ações junto à comunidade. A proposta é fortalecer o diálogo entre universidade e sociedade, contribuindo para um debate público mais crítico, plural e democrático na região.

Na prática, o projeto tem como próximos passos oferecer minicursos e oficinas abertas para estudantes, profissionais que atuem na área da Comunicação Política e demais interessados.

Em outro eixo de atuação, o Observatório tem como objetivo produzir conteúdos instrucionais e jornalísticos que ajudem a aproximar a UFSJ da população e política da região, bem como a realização de encontros temáticos.


Imagem de destaque: arquivo pessoal

Edição: Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes

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