ARTIGO DE OPINIÃO: VOCÊ ESCOLHE O QUE VÊ DA ELEIÇÃO OU O ALGORITMO ESCOLHE POR VOCÊ?

Arthur Raposo Gomes *

Uma pessoa abre o Instagram para ver as fotos dos amigos. Outra entra no TikTok atrás de algum vídeo engraçado. Alguém acessa o YouTube para ouvir música. Poucos minutos depois, no meio de tantos conteúdos, aparece um candidato. Nem sempre porque alguém decidiu procurá-lo.

Essa é uma das particularidades de acompanhar uma eleição em 2026. Parte da campanha chega ao eleitor antes mesmo que ele decida prestar atenção nela.

As plataformas de redes sociais digitais fazem escolhas o tempo inteiro sobre aquilo que aparece para cada usuário. Uma curtida, um compartilhamento, os perfis acompanhados e até o tempo dedicado a um vídeo ajudam a indicar quais conteúdos podem interessar mais. Na prática, duas pessoas podem abrir a mesma plataforma e encontrar eleições bastante diferentes pela frente.

Durante a campanha, isso ganha outra dimensão. Os candidatos também disputam espaço nesses ambientes. Produzem conteúdos pensando nas características de cada plataforma, acompanham aquilo que tem maior alcance e investem em impulsionamento para fazer determinadas mensagens chegarem a mais pessoas. Não basta publicar. É preciso circular.

Essa lógica ajuda a entender por que alguém pode receber vários vídeos sobre um candidato que nunca seguiu. Ou passar alguns dias encontrando repetidamente determinado assunto, crítica ou proposta.

A repetição, aliás, importa. Quando um tema aparece várias vezes no feed, pode parecer que todo mundo está falando sobre aquilo. Quando um candidato aparece com frequência, a impressão pode ser de que ele está em todos os lugares. Só que a tela de um celular é um recorte. Aquilo que circula muito para uma pessoa não necessariamente circula da mesma maneira para outra.

É nesse ponto que entram as chamadas bolhas. O termo já se tornou comum, principalmente quando se tenta explicar por que grupos diferentes enxergam de maneiras tão distintas um mesmo acontecimento político. Mas nenhuma bolha é completamente fechada.

O vídeo visto no Instagram pode parar no grupo da família. O corte publicado no TikTok pode virar notícia. Uma entrevista exibida na televisão pode ganhar uma segunda vida nas redes. E uma publicação que começou em um perfil político pode chegar a alguém por meio de um amigo que resolveu compartilhá-la.

Nas eleições, portanto, a disputa não acontece apenas pela escolha do voto. Existe também uma disputa diária por atenção. E ela ocorre em um ambiente no qual o eleitor faz escolhas, mas não controla sozinho tudo aquilo que recebe.

Talvez por isso valha um exercício simples ao longo da campanha: quando determinado candidato, assunto ou discurso começar a aparecer muitas vezes, olhar um pouco além da publicação.

Não apenas para saber o que está sendo dito, mas também para perceber como aquilo chegou até ali.

* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.


Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT

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