ARTIGO DE OPINIÃO: POR QUE CANDIDATOS ESTÃO FALANDO CADA VEZ MAIS COMO INFLUENCIADORES DIGITAIS?

Arthur Raposo Gomes *

Basta acompanhar alguns candidatos nas mídias sociais durante uma campanha para perceber que a política ganhou novos cenários: tem vídeo gravado dentro do carro, conversa durante uma caminhada, bastidor de reunião, discurso feito enquanto toma café ou come pão de queijo, brincadeira com alguma situação do dia e até conteúdo seguindo tendências que, pouco tempo antes, não teriam qualquer relação com uma eleição.

Não é exatamente uma novidade que a política adapte sua linguagem aos meios de comunicação midiática: foi assim com o rádio e com a televisão, mas também acontece nas redes sociais digitais. A diferença é que, nesse ambiente, um candidato não disputa atenção apenas com seus adversários. Disputa com todo mundo.

O vídeo sobre uma proposta para a saúde pode aparecer entre um lance de futebol e uma receita. A fala sobre economia vem depois de um meme. E o candidato tem poucos segundos para convencer alguém a continuar naquela publicação em vez de simplesmente passar para a próxima.

Não por acaso, alguns recursos usados por influenciadores digitais (aqui também chamados de criadores de conteúdo) também passaram a fazer parte das campanhas: vídeos verticais, falas mais diretas, humor, legendas dinâmicas, cenas do cotidiano e uma exposição maior dos bastidores são cada vez mais comuns nas estratégias de Comunicação Política-Eleitoral.

A própria distância em relação ao eleitor parece menor: em vez de aparecer somente em peças mais produzidas, o candidato fala diretamente para a câmera do celular, mostra onde está e tenta estabelecer uma conversa mais próxima com quem acompanha aquele perfil. Os “vídeos-selfies”, quando os próprios candidatos se gravam, também são comuns.

A grande questão é que espontaneidade e estratégia não são, necessariamente, coisas opostas. O vídeo gravado no carro pode parecer improvisado e ainda assim ter um objetivo bem definido. Mostrar uma conversa antes de uma reunião também significa escolher qual parte daquele bastidor será pública. Até uma brincadeira ajuda a apresentar determinadas características de quem está disputando a eleição.

Campanhas sempre fizeram isso: construir e projetar uma imagem de uma liderança política faz parte da Comunicação Eleitoral há muito mais tempo do que as mídias sociais. Atributos pessoais, profissionais e administrativos ligados, por exemplo, à família, trabalho, hábitos e características pessoais já ocupavam espaço nos programas eleitorais tradicionais e em outros materiais de campanha há décadas. O que mudou foi a quantidade de oportunidades para colocar essa imagem em circulação.

E também mudou o ritmo! Uma agenda de rua não termina quando o candidato vai embora: esse ato pode render fotos, stories, vídeos e diferentes cortes ao longo do dia. Uma entrevista deixa de ser apenas uma entrevista quando trechos dela continuam circulando separadamente. E um assunto que ganha repercussão pela manhã talvez já peça algum tipo de posicionamento antes do fim da tarde. A campanha passa a produzir conteúdo praticamente o tempo inteiro.

Esse movimento ajuda a aproximar a política das linguagens que já fazem parte da rotina dos eleitores, mas acaba, também colocando uma questão para ser observada ao longo das próximas semanas. Nem todo assunto público é simples! Orçamento, saúde, educação, segurança e tantas outras discussões exigem explicações que nem sempre combinam com a pressa das plataformas.

O desafio de uma campanha, então, não é apenas fazer o candidato aparecer, mas sim conseguir disputar atenção sem transformar toda discussão política em mais um conteúdo para passar pelo feed.

Aguardemos o passar dos dias.

* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.


Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT

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