Arthur Raposo Gomes *
O diploma de Jornalismo voltou ao debate. E, 17 anos depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que retirou sua obrigatoriedade para o exercício da profissão, talvez seja mesmo uma boa hora para discutir o assunto novamente.
Em 2009, por oito votos a um, o STF entendeu que a exigência era incompatível com as liberdades de expressão, informação e imprensa. Agora, em um ambiente comunicacional completamente diferente daquele, ministros da própria Corte voltaram a levantar a possibilidade de discutir o tema.
A defesa do diploma não significa acreditar que uma graduação seja capaz de produzir, automaticamente, bons jornalistas. Não produz.
Do mesmo modo que a aprovação na OAB não garante um bom advogado e uma graduação em Medicina, sozinha, não garante um médico excelente, ético ou humano. Formação profissional e competência não são sinônimos. Mas isso nunca significou que a formação deixou de ser importante.
No Jornalismo, ela passa por técnicas de apuração, redação, edição e entrevista, mas também por Ética, Legislação, teorias, história da profissão e discussões permanentes sobre interesse público e responsabilidade. E responsabilidade talvez seja uma das palavras mais importantes desse debate.
Qualquer pessoa pode produzir conteúdo, publicar informações, comentar os acontecimentos do dia ou construir uma audiência. E deve continuar podendo. Só que produzir conteúdo não é necessariamente fazer Jornalismo.
Uma reportagem pode atingir a reputação de alguém, revelar uma irregularidade, cobrar agentes públicos, interferir no debate político ou orientar milhares de pessoas diante de uma situação de interesse público. Há método, escolhas e responsabilidades envolvidas nisso. Saber o que publicar importa. Entender por que publicar também. E saber quando uma informação ainda não está suficientemente apurada para ser publicada faz parte da profissão.
A discussão se torna ainda mais necessária em 2026.
Quando o STF decidiu pelo fim da obrigatoriedade, lá em 2009, o ambiente informacional era outro. Hoje, o Jornalismo convive diariamente com plataformas digitais, inteligência artificial generativa, deepfakes e desinformação produzida em uma escala que seria difícil imaginar naquele momento. São justamente algumas das mudanças apontadas pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) ao defender que o tema seja novamente discutido.
Talvez a pergunta, portanto, não seja se o diploma garante um bom jornalista. Nenhum diploma garante um bom profissional.
A pergunta é se, diante da responsabilidade de produzir profissionalmente informação de interesse público, a sociedade deve considerar a formação específica algo dispensável.
Em 2026, há bons motivos para responder que não.
* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.
Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Magnific
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