IDIOMA, SAUDADE E ADAPTAÇÃO: COMO ESTUDANTES ESTRANGEIROS CONSTROEM UMA NOVA VIDA NA UFSJ

Pedro Sacco, Geraldo Albertacci, Letícia Campos,
Deogracia Goleng, Judit Amaral e Maria Eduarda Rodrigues

Não saber falar a língua, o choque cultural e a dificuldade inerente de concluir um curso longo: atualmente, mais de 100 estudantes estrangeiros têm vínculo ativo com a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), estudando em cursos de línguas (preparatório para ingressar na instituição), de graduação e de pós-graduação. Todos eles fazem parte de programas específicos do governo federal e de instituições de ensino superior que têm como objetivo estabelecer cooperação internacional com demais países e estimular a troca de saberes.

Intercambista Abubakar Hamid, do Quênia, que cursa o bacharelado em Arquitetura na UFSJ
(Foto: Geraldo Junior, 2026)

São dois os principais programas ativos que registram os vínculos de estudantes estrangeiros no país: PEC-PLE e PEC-PG (Programa de Estudante-Convênio – Português como Língua Estrangeira, Graduação e Pós-Graduação). Atualmente, os países que mais contam com estudantes participantes do programa são da República do Congo, Nigéria, Moçambique (os três na África) e Timor Leste (no sudeste asiático).

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), o Programa Estudante-Convênio (PEC) visa internacionalizar a educação superior brasileira e facilitar o acesso de alunos estrangeiros à rede de ensino superior do país. O PEC para a graduação, ainda segundo o MEC, foi criado em 1965 e oferece bolsas de estudo para cidadãos de países que possuam acordo de cooperação cultural ou educacional com o Brasil. Já o programa voltado para a pós-graduação teve início em 1981. De acordo com dados do Ministério, mais de dez mil estudantes estrangeiros haviam participado de ao menos uma das modalidades do PEC até 2024, sendo três mil só de pós-graduação.

A UFSJ também conta ainda com alunos estrangeiros que chegaram à instituição por meio de outros programas, principalmente na pós, como o Programa de Alianças para a Educação e a Capacitação (PAEC), que oferece bolsas a estudantes estrangeiros, GCUB-MOB – Programa GCUB de Mobilidade Internacional, que financia estudantes de mestrado e doutorado, a Cooperação Timor Leste, exclusiva com o país lusófono, além de editais de seleção própria e da Fapemig.

A reportagem do Notícias del-Rei alguns desses alunos e ouviu um pouco das histórias de cada um, das dificuldades encontradas, das surpresas, do choque cultural com a mudança para um país em outro continente, na maioria dos casos.

António Moniz, do Timor-Leste, mestre em Engenharia Elétrica pela UFSJ (Foto: Geraldo Junior, 2026)

Para António Moniz, de 36 anos, que acabou de defender sua dissertação no Programa de Pós-Graduação Em Engenharia Elétrica (PPGEL) sobre a viabilidade de instalação de sistemas fotovoltaicos no Timor Leste, um dos motivos de ter vindo para o Brasil é que o país faz parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mas, ainda que o Timor Leste tenha o português como uma língua oficial, António teve dificuldades na adaptação.

“Quando comecei o estudo na faculdade, achei muito difícil me comunicar com os colegas e os professores. Esse foi o principal desafio. O português tem uma gramática muito complicada de se aplicar durante um diálogo. Para superar isso, aprofundei a convivência com os colegas da faculdade, o que ajudou bastante a melhorar a minha fala”, afirma.

Também do Timor Leste, Cesário Monteiro, de 34 anos, que acabou de concluir o Mestrado em Enfermagem no Campus da UFSJ em Divinópolis (PGENF), cita a distância geográfica e cultural como principal dificuldade para estudar no Brasil. Ele aponta que são cerca de 25 horas de viagem de avião, o que acaba inviabilizando o retorno ao país com mais frequência. Ressalta, no entanto, a qualidade do programa oferecido aqui.

Cesário Monteiro, mestre em Enfermagem pela UFSJ, ao lado do cão Ronaldinho, mascote da residência compartilhada em que vive em São João del-Rei
(Foto: Geraldo Junior, 2026)

“O curso superou as expectativas. Como o Timor é um país novo, os programas de graduação não usam muita tecnologia, diferentemente do Brasil. Um diferencial foi que, mesmo sendo estudante de pós, pude acompanhar atividades práticas em hospitais. O programa também ajudou muito para que eu pudesse aprender mais sobre minha área de estudo, para quando voltar ao Timor poder contribuir para o desenvolvimento na área de enfermagem”, frisa.

Para Abubakar Hamid, do Quênia, a língua é a principal barreira – ele relata que já perdeu três aviões por conta da dificuldade em compreender o português. Professor de desenhos e pintura no seu país de origem, ele conta que um de seus alunos já havia ganhado bolsa para vir para o Brasil, e que comentou com ele sobre o programa.

“Eu fiquei interessado por causa da arte. É importante estar numa cidade antiga para acompanhar a evolução histórica da arquitetura, desde seu início até os prédios mais modernos. O curso de arquitetura da UFSJ é muito bom e eu penso que está me preparando bem para o futuro”, comenta o estudante de 27 anos.

Abu, como ficou conhecido na cidade, relatou dificuldades para a manutenção da rotina com a bolsa para alunos de graduação. De acordo com o estudante, o valor oferecido não comporta o nível dos gastos para sobreviver aqui. Essa condição fez o estudante buscar oportunidades freelancer para complementar a renda no Brasil.

Já a estudante de Medicina Eveline Celeste, de 21 anos e também do Timor Leste, está há dois anos e meio no país, mas, originalmente, não havia escolhido o Brasil. Ela conta que tinha ganhado uma bolsa para estudar em Portugal, mas que, por conta de alguns impedimentos, acabou vindo para a América do Sul.

“Eu conhecia sobre o Brasil por meio das músicas como sertanejo e funk, os cantores Leonardo e Zezé di Camargo. A maior dificuldade que tive aqui foi a língua e os sotaques, que são muitos e diferentes. Além disso, eu me considero introvertida, o que torna difícil me aproximar das pessoas e fazer amizades, e a cultura, o ambiente, é tudo muito diferente”, elenca Eveline.

Eveline Celeste, graduanda em Medicina na UFSJ
(Foto: Judith Amaral)

Para Dessy Brisnel, de 24 anos, e oriundo da República Democrática do Congo, a recepção dos colegas e dos brasileiros foi o principal ponto positivo na chegada ao país. Ele aponta que, mesmo quando não conseguia falar a língua, contava com a ajuda dos amigos, além de ter feito amizade a partir da prática esportiva.

Dessy Brisnel, da República do Congo, superando a barreira do idioma para estudar na UFU
(Foto: Deogracia Goleng)

Eu falo francês em meu país, então, a principal barreira é a língua. Eu estou estudando o curso de língua portuguesa, e, assim que concluir, pretendo ingressar na Universidade Federal de Uberlândia para estudar Engenharia de Telecomunicações e Eletrônica”, diz.

Katetlyn Karique, 18 anos, do Panamá, também está cursando português como língua estrangeira há cinco meses na UFSJ. Para ela, a principal dificuldade que teve ao chegar ao Brasil foi que seu CPF não foi validado e, então, ficou incomunicável nas primeiras semanas. No entanto, não reclama de estar aqui.

“Eu me senti muito bem recebida, e as pessoas eram muito acolhedoras, ajudaram com português desde o primeiro dia, e os professores fizeram questão de cuidar de cada um. Eu escolhi o Brasil pela riqueza cultural e pelo idioma. E preferi a UFSJ porque queria uma cidade mais tranquila e acessível”, explica.

Katetlyn Karique, do Panamá, matriculada no curso preparatório de língua portuguesa
(Foto: Deogracia Goleng)

Irène Marcelle, do Gabão, de 18 anos, tem uma história curiosa: sua relação com o Brasil passa pelo fato de ser fã do cantor Seu Jorge, e que esse foi um dos motivos de procurar saber mais sobre a cultura brasileira.

“Pretendo estudar agronomia, mas ainda estou aprendendo o português, e é muito importante aprender a língua para poder me comunicar com minhas amigas com quem eu jogo basquete. Me senti muito bem recebida aqui, especialmente em São João del-Rei, onde senti muito calor e muito amor das pessoas”, diz.

Irène Marcelle, do Gabão, já gostava de Seu Jorge antes de vir para o Brasil estudar
(Foto: Deogracia Goleng)

Os números dos programas

De acordo com a Assessoria para Assuntos Internacionais da UFSJ (Assin), os números de estudantes estrangeiros com ligados à universidade chama a atenção: em 2026, nas três modalidades, são mais 100 alunos com vínculo ativo, de mais de 20 países – em sua maioria africanos, centro-americanos e asiáticos.

Confira os números abaixo:

  • Programa de Língua Estrangeira

Países de origem dos 58 alunos ativos:

Fonte: quadro produzido pela reportagem com dados da Assin.

  • Programas para a Graduação

Cursos de Graduação com estudantes dos programas:

Fonte: quadro produzido pela reportagem com dados da Assin.

Países de origem dos estudantes:

Fonte: quadro produzido pela reportagem com dados da Assin.

  • Programas para a Pós-Graduação

Programas de pós com estudantes estrangeiros:

Fonte: quadro produzido pela reportagem com dados da Assin.

País de origem dos estudantes da pós:

Fonte: quadro produzido pela reportagem com dados da Assin.


Edição: João Barreto da Fonseca e Najla Passos

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

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