CRÔNICA: ANIVERSÁRIO DE SJDR – A CIDADE QUE MUDA SEM PERDER SEU JEITO

Arthur Raposo Gomes

Todo ano, no dia 8 de dezembro, São João del-Rei completa mais um aniversário. A cidade faz o que sempre fez: amanhece como se nada tivesse mudado, mas muda. Porque São João é assim: ao mesmo tempo que é silenciosa e movimentada, também é cheia de camadas que só quem vive aqui percebe.

Há quem diga que ela é feita de sinos. Talvez seja. Mas também é feita de gente que atravessa a ponte correndo para não perder o ônibus, de filas na Rua da Prata, de histórias que se repetem nas esquinas, de um tempo que não se entrega totalmente à pressa, mesmo quando a pressa tenta.

Cada aniversário de São João del-Rei traz uma sensação estranha de continuidade. A cidade cresce, mas ainda guarda um jeito de interior que não se explica em anúncio turístico. É um ritmo próprio: lento em algumas horas, acelerado em outras – sempre um pouco contraditório, como toda cidade viva deve ser.

Há quem a veja apenas pela tela do feed no Instagram, mas quem mora aqui sabe: a beleza dela está nos detalhes que não aparecem em foto. No cheiro de pão cedo das padarias, no barulho das motos que atravessam a ponte estreita, nas luzes da Avenida Leite de Castro no fim da tarde, no trem que apita tarde demais ou cedo demais. No som do skate ou na aula de dança na Praça da Biquinha. Nos fogos de artifício com barulho empregados em algumas datas, mesmo com todas as críticas. São marcas do cotidiano que não pedem licença, mas ficam.

E, de algum modo, a cidade educa. Ensina que pertencimento não é discurso, é convivência. Ensina a lidar com diferenças, com disputas, com improvisos, com a política que pulsa no centro e nas periferias. Ensina que tradição não precisa ser desculpa para imobilidade e que mudança não precisa vir rasgando tudo.

São João del-Rei guarda memórias, mas também empurra quem vive nela para o futuro. Forja gente que volta, gente que parte, gente que tenta partir e falha. E está tudo bem: cidade nenhuma existe apenas para ser amada. Algumas existem para ser enfrentadas, compreendidas, discutidas e transformadas. São João é uma delas.

No aniversário dela, talvez o gesto mais honesto seja reconhecer isso: a cidade não é perfeita, mas é viva. E cidade viva é aquela que se inquieta, que incomoda, que abre caminho e fecha outros, que exige trabalho e entrega em troca do simples direito de chamá-la de casa.

Parabéns, São João del-Rei. Mais um ano e você segue sendo múltipla, densa, cheia de becos, histórias e possibilidades.

Ao anoitecer, quando as luzes acendem e a cidade parece respirar diferente, fica ainda mais claro que viver aqui é sempre um exercício de aprendizado.

Resta a nós continuar entendendo teus ritmos, teus silêncios, tuas ruas. E aprender, todos os dias, a te habitar.


Imagem de destaque: Arthur Raposo Gomes

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