LUNNA BEAUMONTT: MULHER TRANS E MÃE DE SANTO QUE TRANSFORMA FÉ EM RESISTÊNCIA POLÍTICA EM SJDR

Vitor Ramiro, Sarah Rezende, Dezuite Alaniz,
Pedro Oliveira, Rodrigo Almeida e Gabriella Canuto

O riso descontraído, o olhar forte e a firmeza na fala de quem discute aquilo que vive e acredita, Lunna Beaumontt carrega consigo as marcas de uma vida em movimento. Natural de São João del-Rei, a mãe de santo e cartomante foi um dos nomes requisitados durante a disputa eleitoral para o cargo de vereadora em 2024. 

Trajetória

Aos 16 anos, migrou para a Ipatinga, onde se formou em Mecânica de Manutenção Industrial pelo Senai. A cidade do Vale do Aço, conhecida por seu perfil industrial, foi palco de suas primeiras descobertas profissionais, mas também de sua politização como jovem LGBTQIAPN+ em busca de espaço e direitos. 

Aos 20 anos, retornou a São João del-Rei com o objetivo de cursar Ciências Econômicas na UFSJ, universidade onde mergulhou no ativismo estudantil no Centro Acadêmico. Apesar de não ter concluído a graduação, sua passagem pela instituição reforçou o engajamento político e a conexão com as lutas coletivas.

E foi durante o período de graduação que Lunna se entende em outro lugar da comunidade LGBTQIAPN+. Seu processo de transição foi marcado não apenas pela descoberta de si mesma, mas pela também pressão de se encaixar em certos padrões dentro da própria comunidade trans.

“Demorei a me entender como mulher porque não me via naquele estereótipo de sempre estar ‘toda montada’, com maquiagem impecável e roupas de grife”, revela. 

Para ela, a feminilidade não deveria ser medida pela vaidade excessiva, mas pela liberdade de ser quem se é, seja de salto alto ou de chinelo, com glitter ou sem.

Erika Hilton, primeira deputada estadual trans de São Paulo, foi uma de suas grandes inspirações para entrar na política. “Ver uma mulher preta, trans e periférica ocupando a Assembleia Legislativa me mostrou que era possível”, diz Lunna.

Para a entrevistada, Erika representa possibilidades para a comunidade trans fora da marginalidade que lhes é empurrada em diversos momentos. “Intelectual mostrando que mulheres trans e travestis têm capacidade cognitiva o suficiente para te colocar no lugar sem descer do salto”, pontua.

Apesar de ver na deputada uma referência nítida no campo da intelectualidade, Lunna se sentia muito isolada no performar da feminilidade.

“A Erika tem uma personalidade diva pop e eu não sabia e nem desejava sustentar aquilo. Uma produção que vai ficar horas escovando meu cabelo, bota lace, tira lace. É demais pra mim. Eu preciso de algo que se adeque a minha rotina, afinal, eu não preciso me ajustar à moda, ela precisa se adequar a mim”, explica.

E é neste momento que Lunna conhece Duda Salabert, professora e primeira candidata trans ao Senado por Minas Gerais.

“A Duda é feminina do jeito dela. Imponente e politizada à sua própria maneira. E é nesse caminho que me formo, como um entre termo entre as duas. Um pouco daqui, um pouco dali e eu formo Lunna Beaumontt, como um ser social”, frisa. Essas referências a ajudaram a entender que sua trajetória, mesmo fora dos moldes tradicionais, era válida e poderosa. Hoje, Lunna carrega essa bandeira: ser mulher trans é, antes de tudo, sobre autenticidade.

A política como forma de resistência

No campo profissional, Lunna divide seu tempo entre as consultas como cartomante e o terreiro Caboclo Sete Flechas, onde é sacerdotisa há dois anos da religião, que faz parte há oito. Sua rotina reflete uma biografia incomum no cenário político tradicional: mulher trans, periférica e de axé, Lunna constrói sua trajetória entre o sagrado e o cotidiano de quem precisa trabalhar para sobreviver.

Com um currículo extenso e múltiplo, ganhou notoriedade em São João del-Rei durante os debates sobre a regulamentação dos aplicativos de transporte em 2024. Como gerente do Moto SJ, ajudou a impulsionar o serviço de 50 mil corridas mensais e se tornou voz ativa na defesa dos trabalhadores do setor. 

“O engajamento em torno dos aplicativos me trouxe visibilidade. As pessoas começaram a me ver como uma representação possível na Câmara, especialmente da juventude que quer uma política diferente”, relembra.

Mas sua militância começou antes, ainda em Ipatinga, no Levante Popular da Juventude, onde se aproximou das pautas progressistas. De volta a cidade dos sinos, manteve-se na linha de frente de discussões sobre mobilidade urbana, direitos LGBTQIAPN+ e inclusão social. Seu projeto político, mesmo após não se eleger, segue pautado pela busca de uma governança que escute grupos historicamente marginalizados.

No terreiro Caboclo Sete Flechas, Lunna não só exerce seu sacerdócio, mas também oferece abrigo simbólico a outras pessoas que, como ela, muitas vezes encontram na religião de matriz africana um refúgio contra a exclusão. Enxerga sua fé, longe de ser apenas uma prática individual, como um ato político: em uma cidade onde políticas públicas para a população trans são escassas, o terreiro funciona como rede de apoio informal.

Essa entrevista, foi feita antes da publicação, feita recentemente por Lunna, onde anuncia a suspensão “por tempo indeterminado os atendimentos abertos ao público” no terreiro.

Enquanto São João del-Rei debate a falta de acolhimento a pessoas trans, Lunna segue fazendo da própria vida um manifesto – seja no guidão da moto, nas cartas do tarô ou nos passos de caboclo. Sua história é a de quem insiste em ocupar espaços mesmo quando as portas ainda se fecham.


Supervisão: Márcia Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Igor Chaves

* Nota da edição – 29/10 – 02h05: na versão inicial da matéria, podia ser lido que Lunna é mãe de santo há sete anos. Mas essa informação não procede. Ela é sacerdotisa da religião há dois anos. Assim que o erro foi percebido, a informação foi corrigida. Pedimos desculpas por quaisquer transtornos.

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