Gabriel Santos, Gabrielle Rios e Lívia Godoi
Em tempos de campanhas políticas sofisticadas, os candidatos se assemelham cada vez mais a um “produto” que precisa ser vendido ao eleitor. Entre slogans, identidade visual e estratégias de comunicação nas redes sociais, a publicidade tornou-se um pilar central para que candidatos alcancem, atraiam e convençam o eleitorado. Mas como essa engrenagem publicitária molda a imagem pública dos políticos? Em uma era onde o público busca autenticidade, como os candidatos equilibram a necessidade de atrair diferentes segmentos com o risco de perder sua origem nas bases? E até que ponto essas “máscaras sociais” construídas para as redes e os materiais de campanha refletem de verdade quem eles são?
Para entender melhor esse cenário, a reportagem esteve na oficina ‘’Assessoria de Comunicação: estratégias para ter espaço e visibilidade nas mídias digitais e na imprensa’’, ministrada pelo professor e consultor em comunicação política, Arthur Raposo Gomes, durante a XI Semana Acadêmica do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei (Sajor UFSJ). A oficina abordou, por exemplo, como os elementos publicitários — desde slogans e cores até a apresentação visual do candidato — influenciam o emocional do eleitor.
Construção estratégica
“Nesse trabalho de ênfase do nome, das qualidades e do próprio discurso do candidato, em busca da visibilidade positiva, são vários os recursos e elementos de influência. As cores das roupas, os gestos, a trilha sonora de um vídeo… tudo isso contribui com a formação de uma imagem no consciente da população”, pontua Arthur à reportagem.
O palestrante relata que essa construção estratégica vai muito além da palavra e do discurso direto: ela se estende a cada detalhe visual, cada imagem nas redes sociais, criando uma versão pública do candidato que pode ser tão bem acabada quanto um anúncio publicitário. Em meio ao avanço da inteligência artificial e ao crescimento das fake news, que segundo o jornalista e publicitário, sempre esteve presente, o desafio é manter a credibilidade e a autenticidade do candidato, enquanto combate a desinformação e usa a tecnologia de maneira responsável.
“O que a gente chama hoje de ‘fake news‘ sempre existiu, mas com outro nome. Na história da sociedade, os ‘boatos’ ou, para falar português claro, as mentiras, sempre foram artifícios usados no contexto eleitoral para desgastar a imagem do concorrente. Os recursos vinculados à inteligência artificial estão presentes nos dias atuais e não podemos negá-las. No trabalho em campanhas eleitorais, assim como no cotidiano comum, acredito que não podemos ‘demonizar a IA’, mas também não devemos ‘endeusá-la’. Ela precisa ser utilizada de maneira estratégica”, afirma o professor.
Ele salienta que “apesar do temor comum dessa união entre a desinformação e a inteligência artificial, nessa eleição municipal, não houve um impacto negativo muito grande. A luta contra as mentiras é uma constante ação social”.
As máscaras sociais
A publicidade na assessoria política se tornou uma situação delicada. Ao transformar o candidato em um produto de marketing, é possível que sua verdadeira essência se perca? Para Arthur, a comunicação política faz parte da democracia e o uso de “máscaras sociais” não é exclusivo dos políticos. Assim como qualquer pessoa ajusta seu discurso e comportamento de acordo com o contexto, os candidatos buscam adequar-se às expectativas de seu eleitorado. Contudo, ele aponta que, se a imagem construída for distante demais da realidade do político, a verdade tende a se revelar.
“É importante pontuar que uma campanha eleitoral pode ser realizada com diferentes objetivos. O primeiro deles é disseminar uma ideia ou mesmo “demarcar um território ou ponto de vista” de um candidato ou partido. O segundo busca conquistar um resultado que aumente a influência social do partido, independente da vitória. E por último, até a efetiva vitória no pleito, que garante a posse e o início do mandato do candidato”, elenca o professor, frisando ainda que “seja no viés do discurso, da estratégia, do momento ou dos recursos utilizados na campanha, não entendo a Comunicação Eleitoral de maneira pejorativa”.
Dessa forma, a publicidade política emerge como uma ferramenta essencial, mas complexa, exigindo que o eleitor esteja atento ao que vê e interpreta, enquanto se questiona: será que estou vendo o político real ou apenas a melhor versão de um “produto”?
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: Mosaico Comunicação Júnior / divulgação
