Eduarda Costa
Pela segunda edição seguida dos tradicionais Jogos Olímpicos voltei a ouvir falar delas: as “camas anti-sexo”. Estrelas em ambas as Olimpíadas, de Tóquio e Paris, as “camas anti-sexo” na verdade não foram projetadas com tal função em mente.
Como o Comitê Olímpico já bem cansou de explicar aos telespectadores deste grande show de habilidades atléticas, as camas apenas são feitas com material reciclável. Posso até estar enganada mas, me parece um pouco óbvio que em uma competição esportiva com atletas de todos os tamanhos as camas, mesmo que fossem construídas de papel machê, haviam de ser resistentes.
A verdade é que, também pela segunda edição seguida, vimos o público dos Jogos Olímpicos se mostrar mais à vontade com a ideia da transa esportiva. Entre adolescentes no X declarando seu despertar sexual pelo surfista Gabriel Medina, e senhorinhas que assistem novelas coreanas “shippando” as atletas femininas do vôlei, parece que todos querem mais é que os atletas olímpicos façam jus às origens da competição e façam sexo entre si.
E em meio a este todo bacanal olímpico, a minha mente só consegue pensar em Ingrid Oliveira. Caso você não reconheça esse nome, admito vergonhosamente que nos encontramos no mesmo barco.
Sendo assim, vamos a uma breve viagem no tempo. O ano era 2016, o Rio de Janeiro vibrava até mesmo pelas modalidades mais obscuras, o mascote Tom animava a torcida com suas adoráveis dancinhas, o nadador Ryan Lochte encenava um assalto e a atleta de saltos ornamentais Ingrid Oliveira cometia o terrível crime de – pasmem – transar na Vila Olímpica.
Foi com o atleta Pedro Henrique Gonçalves, da canoagem, que Ingrid teve um brevíssimo affair. Apenas isso. Os dois não passaram a noite juntos e muito menos se relacionaram antes de suas determinadas competições. E embora ambos tenham recebido advertências do COB e sem expulsões, acredito que conseguimos lembrar o que se sucedeu. Enquanto Pedro saiu “ileso”, Ingrid carregou consigo a fama de piriguete das Olimpíadas.
Isolada, rechaçada e sem patrocinadores. Foi assim que Ingrid foi punida. E hoje, enquanto eu assistia incontáveis atletas olímpicos fazerem “testes” nas “camas anti-sexo”, eu só pensava em Ingrid. Me senti mal ao relembrar sua história, pior ainda por sequer conseguir lembrar seu nome de primeira.
Não quero lembrá-la por algo tão estúpido e que, julgaríamos irrelevante caso acontecesse agora, como sexo. Não existem desculpas o suficiente que nós, como fãs de esporte, podemos oferecer à Oliveira. No entanto, fica aqui o meu pedido de desculpas tardio a uma exemplar atleta.
Desculpa, Ingrid.
Em todas as próximas edições me lembrarei de você, somente.
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