Daniela Mendes e Arthur Raposo Gomes
No último dia 17, o presidente Lula (PT) criticou em Montes Claros (MG) a combinação de votos entre Marília Campos (PT) e Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo Senado (foto de destaque). Ele reafirmou a dobradinha de Marília com Áurea Carolina (Psol) e deixou claro que não endossa o chamado “Marécio”. Chegou ao conhecimento dele que eleitores e apoiadores da ex-prefeita de Contagem vinham estimulando o segundo voto no tucano.
O incômodo tem histórico, a disputa presidencial de 2014 em que o tucano concorreu contra a petista e pela articulação do golpe de estado contra Dilma Roussef que foi encabeçada por Aécio Neves em 2016. No palanque, Lula resgatou justamente esse episódio e rejeitou a possibilidade de combinar o voto de Marília com outros nomes de centro-direita, como Marcelo Aro (PP).
A preocupação do presidente alcança o chamado “voto útil”, que é a razão de muitas reviravoltas na política. E é dele que vamos falar na coluna Além da Campanha essa semana.
- O chamado voto útil, ocorre quando o eleitor escolhe um candidato que não necessariamente é sua primeira opção. A decisão leva em conta as chances de cada candidatura: o eleitor abre mão da primeira preferência levando em consideração o resultado provável da eleição.
Aécio Neves confunde a escolha ideológica
Na Quaest de 22 a 26 de abril, em cenário com os dois nomes, Aécio aparecia com 11% e Áurea com 6%. A margem de erro era de três pontos percentuais. Na rodada de 22 a 26 de julho, Aécio passou para 16%, enquanto Áurea apareceu entre 2% e 3%, dependendo do cenário. No cenário 1, que incluía os dois, eram 16% para Aécio e 3% para Áurea.
A trajetória ficou interrompida em agosto porque Aécio anunciou que não disputaria a eleição em 4 de agosto e deixou de ser testado em algumas pesquisas. Depois, ele voltou atrás e confirmou a candidatura ao Senado em 28 de agosto.
Na Quaest realizada entre 4 e 7 de setembro, já novamente com Aécio na disputa, o levantamento que combina os dois votos para senador registrou 10% para Aécio e 2% para Áurea. Foram entrevistados 1.506 eleitores, com margem de erro de três pontos.
Isso permite descrever os números, mas não atribuir causalidade: na série da Quaest, Áurea passa de 6% em abril para 3% em julho e 2% em setembro; Aécio passa de 11% para 16% e depois 10%. A distância entre os dois, portanto, aumenta em relação ao início da série.
É verdade que entre julho e setembro os dois caem simultaneamente: Aécio de 16% para 10% e Áurea de 3% para 2%. Isso enfraquece a hipótese simples de uma transferência direta de Áurea para Aécio. Se estivéssemos vendo apenas um movimento de substituição entre os dois, esperaríamos encontrar indícios adicionais de que a queda de um acompanha o crescimento do outro.
Há ainda um pequeno “experimento” interessante dentro da própria Quaest de julho. No cenário 1, com Aécio, Áurea tinha 3%. No cenário 4, sem Aécio, Áurea continuava com exatamente 3%. Quem mudava eram outros candidatos e, principalmente, indecisos: estes passavam de 10% para 17%.
Uma análise da Quaest de julho por O Tempo afirma que Aécio aparecia como o segundo nome mais citado tanto entre eleitores de esquerda quanto entre eleitores de direita para a segunda vaga. Como o eleitor mineiro pode votar em dois candidatos ao Senado, isso levanta uma questão diferente e mais interessante do que simplesmente “Aécio rouba votos de Áurea”: o tucano pode estar conseguindo entrar como segundo voto de eleitores de diferentes campos políticos.
Pesquisas eleitorais
Na primeira rodada da Quaest para o Senado em 17 de setembro, a corrida ao senado apontava Marília (PT) na liderança com 13%, Aécio Neves (PSDB) com 10% e Carlos Viana (PSD) com 8%. Na retaguarda, Domingos Sávio (PL) com 6%, Marcelo Aro (PP) com 4% e Áurea Carolina com 2%. Outros candidatos somam 7%, indecisos 29%, brancos e nulos 21%.
É pelo número de indecisos que podemos afirmar que a corrida ao senado não tem ninguém garantido e se o campo da esquerda começar a atribuir voto útil em candidatos de direita, até a preferência em Marília pode ser derrubada. A desculpa, no entanto, é derrotar o PL, partido do antagonista do presidente Lula, Flávio Bolsonaro, mesmo ele estando em terceiro. É nisto que a campanha de Aécio Neves tem apostado nas redes sociais e o que tem preocupado a campanha petista.
Há ainda um dado muito expressivo na pesquisa espontânea: 85% não souberam indicar candidato ao Senado. Marília tinha 3%; Carlos Viana, Marcelo Aro e Domingos Sávio, 2% cada; Aécio e Áurea, 1% cada. Este é um tipo de levantamento feito por institutos de pesquisa em que o entrevistador pergunta ao eleitor, sem apresentar nenhuma lista de candidatos, em quem ele pretende votar. Ou seja, a resposta vem da lembrança imediata do eleitor, sem estímulos ou opções prévias.
O efeito Dilma
Um exemplo de como a decisão tomada na reta final pode alterar uma disputa ocorreu na eleição para o Senado por Minas Gerais em 2018. Dilma Rousseff (PT) liderou as pesquisas durante a campanha, mas terminou fora das duas vagas.
Na véspera da eleição, o Datafolha mostrava Dilma com 23% dos votos válidos, seguida por Rodrigo Pacheco (DEM), com 15%, Carlos Viana (PHS hoje PSD), com 14%, e Dinis Pinheiro (Solidariedade), com 12%. Pacheco, Viana e Dinis estavam tecnicamente empatados. Havia ainda grande indefinição: considerando o segundo voto para senador, 28% dos entrevistados não sabiam em quem votar.
As urnas produziram um resultado bastante diferente. Rodrigo Pacheco e Carlos Viana foram eleitos, enquanto Dinis Pinheiro ficou em terceiro e Dilma, em quarto.
- Os dados oficiais da eleição estão disponíveis na base de resultados do Tribunal Superior Eleitoral.
A mudança ocorreu num contexto de forte disputa política em torno do PT e de Dilma, que havia sofrido impeachment dois anos antes. O próprio desempenho eleitoral mostra, porém, que houve também uma movimentação expressiva entre os demais candidatos nos últimos dias: em 28 de setembro, por exemplo, o Datafolha registrava Dilma com 28%, Pacheco com 17%, Viana com 14% e Dinis com 10%.
Uma das hipóteses para compreender mudanças desse tipo foi o voto útil ou estratégico. O eleitor abandonou sua primeira preferência e escolheu outra candidatura para evitar um resultado. No caso mineiro, a enorme quantidade de eleitores ainda indecisos para a segunda vaga deixava espaço para esta alteração importante na reta final. E é um quadro pré-eleitoral que se repete esse ano.
É verdade que o caso de 2018, apesar de mostrar com segurança uma grande mudança entre as pesquisas finais e as urnas, não prova simplesmente a consequência do voto útil. Pois a participação do voto estratégico nessa mudança é uma interpretação que precisa ser sustentada por pesquisas específicas sobre comportamento eleitoral. Mas ele é uma expressão política que merece atenção.
Recordando 2022
Em 2022, o voto estratégico ganhou espaço na reta final da disputa presidencial. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), que lideravam as pesquisas, buscavam conquistar eleitores de candidaturas que apareciam atrás, especialmente Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB).
A campanha de Lula procurava antecipar para o primeiro turno com votos de eleitores que declaravam preferência pelo petista em um eventual segundo turno contra Bolsonaro. O objetivo era tentar alcançar mais de 50% dos votos válidos e encerrar a eleição já em 2 de outubro. Ciro e Tebet reagiram à estratégia, tentando evitar a migração de seus eleitores.
Na segunda quinzena de setembro, havia sinais dessa concentração. Em 15 de setembro, o Datafolha registrava Lula com 45%, Bolsonaro com 33%, Ciro com 8% e Tebet com 5% das intenções de voto. No fim do mês, diferentes levantamentos passaram a mostrar Ciro e Tebet com percentuais menores, embora as pesquisas variassem conforme instituto e metodologia. O CEO da Atlas, Andrei Roman, afirmou naquele momento que seus dados indicavam um movimento de voto útil em direção às duas candidaturas que lideravam a disputa.
A estratégia não levou à definição da eleição no primeiro turno. Segundo o TSE, Lula terminou com 48,43% dos votos válidos, e Bolsonaro, com 43,20%, e os dois seguiram para o segundo turno.
O episódio ajuda a mostrar uma característica importante do voto útil: ele não depende apenas de quem o eleitor prefere, mas também da percepção que ele tem sobre a disputa e sobre quais resultados são possíveis. Diante das alternativas disponíveis, o eleitor pode decidir não votar em sua primeira preferência para tentar produzir ou evitar determinado resultado eleitoral.
Voto útil não é estratégico
O que aconteceu na eleição presidencial de 2022 foi uma disputa pelo voto estratégico, que é diferente do voto útil. Para o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas, voto útil é uma modalidade de voto estratégico. O voto é estratégico sempre que o eleitor deixa sua primeira preferência e escolhe outra candidatura pensando nas consequências da escolha.
O voto útil seria um caso específico dessa estratégia, normalmente relacionado à tentativa de impedir determinado resultado eleitoral. Antonio Lavareda adotava uma definição mais ampla e considerava também voto útil a antecipação, para o primeiro turno, de uma preferência que o eleitor teria no segundo.
As pesquisas mostravam espaço para esse movimento. Em levantamento Genial/Quaest divulgado em 14 de setembro, 51% dos eleitores de Ciro indicavam Lula em um eventual segundo turno contra Bolsonaro, enquanto 19% indicavam Bolsonaro. Entre os eleitores de Tebet, naquele levantamento, 27% indicavam Lula e 35%, Bolsonaro.
A possibilidade de mudança era maior justamente entre os eleitores das candidaturas que estavam atrás. Já na última semana de setembro, outra pesquisa Genial/Quaest mostrou que 48% dos eleitores de Ciro e 49% dos de Tebet admitiam que ainda poderiam mudar de candidato.
Depois da votação, houve indícios de concentração nas duas candidaturas que lideravam a disputa. Lula recebeu 48,43% dos votos válidos e Bolsonaro, 43,20%. Andrei Roman interpretou o resultado como uma onda de voto útil que beneficiou ambos, enquanto Ciro e Tebet perderam espaço na reta final. Trata-se da interpretação do pesquisador, e não de algo que o resultado eleitoral, sozinho, seja capaz de demonstrar.
Entre o cálculo e a escolha política
Voltamos, então, a Minas Gerais. Na reta final da eleição, a disputa pelas duas vagas ao Senado continua aberta e o segundo voto ganhou um peso político que talvez não tivesse no início da campanha. A Quaest divulgada nesta terça-feira (29) mostra Domingos Sávio com 14%, Marília Campos com 13%, Carlos Viana e Aécio Neves com 12% cada. Áurea Carolina aparece com 4%. Com margem de erro de três pontos percentuais, os quatro primeiros estão tecnicamente empatados.
É nesse cenário que o “Marécio” ganhou espaço. Para uma parcela do eleitorado de esquerda, votar em Marília e Aécio passou a ser apresentado como uma estratégia para tentar impedir a eleição de candidaturas mais à direita. A defesa da dobradinha Marília e Áurea parte de outra lógica: manter os dois votos dentro do campo político que sustenta as duas candidaturas. Lula entrou diretamente nessa disputa ao rejeitar publicamente a combinação com Aécio e pedir votos para as duas candidatas.
E aqui o voto estratégico deixa de ser apenas uma conta eleitoral. Escolher o segundo nome pensando em quem pode ou não vencer também significa decidir quais diferenças políticas podem ser relativizadas para tentar produzir determinado resultado. No caso de Minas, essa discussão ganha ainda mais peso pela história recente: PT e PSDB estiveram em lados opostos de disputas que marcaram a política mineira e nacional nas últimas décadas.
Também não há pesquisa capaz de garantir que determinada combinação produzirá o resultado imaginado por quem a defende. O histórico de 2018 mostra justamente o tamanho da movimentação possível nos últimos dias, mas não oferece uma fórmula para 2026. Pesquisa registra um momento da disputa. O voto estratégico depende da leitura que o eleitor faz desses números, das candidaturas que considera competitivas e, sobretudo, do resultado que pretende favorecer ou evitar.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas se o voto útil orienta. Ele orienta a partir de uma escolha anterior: qual resultado o eleitor considera mais importante produzir. Em uma eleição com duas vagas para o Senado, isso fica ainda mais evidente. O primeiro e o segundo voto podem expressar preferência, cálculo, rejeição ou uma mistura dessas coisas.
No domingo, quando essa conta sair das pesquisas e chegar às urnas, vamos descobrir o resultado. O que não será possível saber apenas olhando o placar é quanto dele nasceu da primeira preferência do eleitor e quanto veio dessas escolhas feitas na reta final.
Para entender isso, como quase sempre acontece na política, será preciso olhar além da campanha.
Imagem de destaque: Ricardo Stuckert / divulgação
