CRÔNICA: O PRÓXIMO DESTINO NEM SEMPRE ESTÁ NOS PLANOS

Arthur Raposo Gomes

Aniversários têm essa mania de provocar balanços, mesmo quando ninguém pediu. Alguns chegam em momentos mais comuns. Outros coincidem com o fim de etapas importantes, projetos andando, planos mudando e uma quantidade inesperada de carinho vindo de lugares completamente diferentes. E é curioso quando isso acontece.

Gente do trabalho, dos projetos, de outras cidades, de fases que já passaram. Até aquela conhecida que estava no passado pode reaparecer trazendo impressões guardadas por anos. Entre elas, a de que existe sensatez por ali. Mas sensatez é discutível.

Outro comentário, porém, fica por mais tempo: as pessoas percebem quando alguém vive aquilo que prega.

Talvez porque esse tipo de percepção não fale sobre títulos, cargos ou qualquer linha de currículo. Fala sobre o caminho. Sobre alguma coerência possível entre discurso, escolhas e a maneira de estar no mundo.

E há certa graça nisso quando se gosta tanto de planejar. Planejar o próximo mês, os projetos, as possibilidades profissionais, as viagens. Pensar no cenário A, deixar o B encaminhado e, dependendo do assunto, já imaginar o C. Só que planejamento não garante governabilidade sobre a vida. Ainda bem.

Algumas das melhores coisas acontecem fora do roteiro. Pessoas aparecem quando não estavam previstas. Convites chegam por caminhos improváveis. Um plano muda no meio da execução. Uma decisão precisa ser tomada sem todas as informações disponíveis. E, às vezes, o improvisado sai melhor. É a famosa “falta de governabilidade” dos rumos da própria vida.

Isso não significa que tudo esteja no lugar. Há incômodos, tensionamentos, dúvidas e situações importantes ainda procurando rumo. Uma fase boa não transforma a vida numa sequência organizada de acontecimentos felizes. Mas aquilo que incomoda também não precisa explicar todo o resto.

Quando o enquadramento aumenta, aparecem as etapas concluídas, os projetos que deram certo, as relações construídas e gente de núcleos completamente diferentes demonstrando, cada uma à sua maneira, que gosta de estar por perto.

Tem sido uma fase boa. Boa a ponto de causar algum estranhamento de vez em quando.

Os próximos planos certamente virão. Algumas planilhas mentais provavelmente também.

Só talvez seja prudente não ocupar todos os espaços.

A vida parece ter alguma habilidade para improvisar justamente onde ninguém planejou.

Aguardemos o passar dos dias.

* Arthur Raposo Gomes é jornalista, publicitário e estrategista em Comunicação.


Imagem de destaque: Arthur Raposo Gomes

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