ERA UMA VEZ UM MENINO QUE CONTAVA HISTÓRIAS; CONHEÇA GUILHERME NASCIMENTO

Ana Messias, Jak Azevedo e Lívia Godoi

Guilherme do Nascimento Júnior ensina literatura, pesquisa identidade e escreve para entender o próprio caminho. E é por meio de versos que ele conta sua história.

O silêncio das manhãs é uma das coisas que Guilherme mais aprecia. Antes da cidade acelerar o ritmo, das notificações, das aulas, das leituras acadêmicas e das demandas do cotidiano, existe um intervalo raro em que ele consegue escrever: é nesse espaço quase suspenso do dia que ideias amadurecem, poemas aparecem e reflexões ganham forma.

Mas o silêncio, para Guilherme, nunca significou ausência. Há muito movimento dentro dele.

(Foto: arquivo pessoal)

Aos 25 anos, o jovem nascido em São João del-Rei carrega o tipo de fala que traz firmeza. Enquanto conversa sobre literatura, educação e universidade, alterna pensamentos acadêmicos com lembranças afetivas, cenas simples da cidade e histórias que parecem continuar ressoando depois que terminam. Guilherme não fala da educação como um conceito abstrato, ele fala da educação como quem viveu cada etapa dela.

Filho da escola pública, cresceu cercado por incentivo familiar, livros e pela ideia de que estudar poderia abrir caminhos que, muitas vezes, pareciam distantes para jovens de origem simples.

“Desde muito novo, a relação com os estudos foi de dedicação”, conta. “O estudo sempre foi encarado não apenas como uma obrigação, mas como o caminho mais seguro para a transformação e uma vida estável“, complementa Guilherme.

Na memória dele, algumas figuras aparecem quase como personagens permanentes dessa trajetória. A mãe, Elisabeth, acompanhando de perto o desenvolvimento escolar. O pai, Antônio, sustentando o apoio diário. E a madrinha Rosilene, professora, responsável por apresentar ao menino os livros que mais tarde ajudariam a construir o homem, o pesquisador e o professor.

Através dessas pequenas insistências cotidianas, a literatura entrou na vida dele. Não de forma grandiosa. Entrou aos poucos, como entram as coisas que ficam. Aquilo que começou no gosto juvenil pelos livros de ficção, mais tarde, incentivou Guilherme a publicar seu primeiro livro.

Hoje, Guilherme cursa o mestrado em Teoria Literária e Crítica Cultural na Universidade Federal de São João del-Rei, trabalha como revisor, mentor acadêmico, professor voluntário e escritor. Ele diz que gosta do Centro Histórico, da arquitetura barroca, do movimento cotidiano, da contemplação silenciosa das paisagens da cidade. Também gosta do campus da UFSJ. Os dois espaços parecem dialogar diretamente com sua personalidade: um mistura memória; o outro, transformação.

E foi justamente dessa necessidade de transformar as observações que fazia todos os dias que nasceu “Flores – Coletânea de Poemas”, livro escrito por ele e atravessado por memórias pessoais, afetos, luto e reconstruções emocionais.

“’Flores’ nasceu da necessidade de materializar sentimentos que a prosa acadêmica não comporta”, explica. “Os poemas são atravessados por afetos muito íntimos, pelo luto, pela saudade e pelas memórias de pessoas que me ajudaram a reconstruir quem eu sou”, pontua o mestrando.

Ao falar da poesia, sua voz ganha outro ritmo. Menos técnico e mais íntimo.

A poesia escapa às amarras da norma estrutural rígida”, diz. “Enquanto na teoria literária eu analiso o pacto autobiográfico com um distanciamento crítico, na poesia eu vivencio esse pacto na pele”, explica.

As palavras parecem importantes para ele não apenas pelo significado, mas pela capacidade de devolver humanidade às experiências. E é por isso que Guilherme encontrou na docência um espaço tão natural.

“A literatura entrou na minha vida como uma forma de entender o mundo e a mim mesmo”, diz. “A escolha por Letras foi natural. Eu queria trabalhar com a língua, a palavra, a memória e com a reconstrução de identidades“, revela o professor.

(Foto: arquivo pessoal)

Quando fala da universidade, Guilherme não romantiza o ambiente acadêmico: reconhece as barreiras, o distanciamento e a sensação de não pertencimento que muitos estudantes enfrentam ao entrar no ensino superior.

“A universidade, historicamente, pode soar como um espaço elitista e distante da realidade de muitos”, defende.

Ele conhece essa sensação de perto: não necessariamente pela rejeição explícita, mas pelos códigos invisíveis que atravessam o ambiente universitário: a linguagem acadêmica, as formalidades, os costumes e até o modo como certos espaços parecem ter sido desenhados para poucos.

Foi criando redes de amizade e acolhimento que Guilherme conseguiu transformar esse ambiente em território possível: amigos, colegas de pesquisa e professores se tornaram parte fundamental do processo.

“Nós celebramos as qualificações e defesas uns dos outros, lembrando que não estamos sozinhos nesse espaço”, expõe.

(Foto: arquivo pessoal)

Hoje, ele atua como professor voluntário de Literatura no Cursinho Popular Edson Luís, em São João del-Rei. Entrou no projeto depois de descobrir um processo seletivo pelo Instagram. Conversou com amigos que já davam aula lá, se candidatou e passou. O que começou como busca por experiência em sala de aula acabou se transformando em algo maior.

“Dar aula lá significa agir diretamente na base da democratização do saber”, afirma.

No Cursinho Popular, Guilherme encontrou estudantes que convivem diariamente com jornadas exaustivas, inseguranças financeiras e dúvidas profundas sobre pertencimento. Muitos chegam depois do trabalho. Outros carregam cansaço no corpo e a preocupação com o futuro no olhar.

Por isso, ele acredita que ensinar vai muito além do conteúdo. “O ensino precisa ser não apenas excelente tecnicamente, mas profundamente empático e acolhedor”, aponta.

Nas aulas, tenta aproximar literatura e realidade. Cria atividades interativas, utiliza dinâmicas inspiradas em game shows, trabalha com fichas de leitura e constrói uma relação mais horizontal com os alunos.

O propósito das aulas é humanizar a relação entre aluno e professor“, finaliza.


Imagem de destaque: arquivo pessoal

Edição: João Barreto, Najla Passos e Arthur Raposo Gomes

Supervisão: Arthur Raposo Gomes

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