ARTIGO DE OPINIÃO: O QUE ESPERAR DA CÂMARA MUNICIPAL DE SJDR EM 2026?

Arthur Raposo Gomes

A atual legislatura da Câmara Municipal de São João del-Rei começou com um dado que, à primeira vista, poderia sugerir mudança: dos 13 vereadores empossados no início de 2025, sete foram reconduzidos ao cargo e seis estrearam no Legislativo. Uma renovação relevante em termos numéricos, ainda que parcial. Passado o primeiro ano de mandato, porém, o que se observa é menos novidade e mais a reprodução de práticas já conhecidas da política local.

Ao longo de 2025, o funcionamento da Câmara foi marcado por reuniões ordinárias extensas, com longas pautas concentradas em um único dia, dezenas de projetos apreciados em sequência sem muitos momentos de debate qualificado de pontos de vista contrastantes. Emendas apresentadas por parlamentares foram rejeitadas sem maior aprofundamento público. Propostas simbólicas, como homenagens a lideranças políticas, também repercutiram fora do plenário, assim como autorizações de empréstimos financeiros por parte do Poder Público local e a predominância de projetos de denominação de espaços públicos.

A Rádio São João publicou, no final de 2025, um panorama do teor dos projetos aprovados durante o ano no Legislativo (Imagem: reprodução / rede social – Rádio São João)

Um levantamento divulgado na imprensa local ajuda a dimensionar esse perfil legislativo. Entre janeiro e novembro de 2025, dos 185 projetos aprovados, mais da metade tratava de títulos, honrarias, medalhas ou mudança de nomes de vias públicas. Não se trata de desqualificar esse tipo de proposição, que faz parte da rotina de qualquer parlamento. O problema aparece quando ela se torna majoritária e ocupa o espaço que poderia ser destinado a debates estruturais sobre orçamento, políticas públicas e, sobretudo, fiscalização do Executivo.

Nesse cenário, não faltaram tentativas de tensionar esse padrão. Um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar pagamentos relacionados a obras inacabadas chegou a ser articulado nos últimos meses de 2025, após declarações do próprio secretário municipal de Obras em reunião na Câmara. A iniciativa, no entanto, não avançou. Apesar de ter contado inicialmente com algumas adesões, não alcançou as cinco assinaturas necessárias. Houve, inclusive, vereador que assinou e depois recuou, esfriando de vez o pedido.

De modo geral, com as devidas exceções, o Poder Executivo municipal aprovou seus projetos sem grandes sustos no Legislativo. A atuação da base governista garantiu maioria nas votações, enquanto colocações feitas por vereadores tidos como independentes ou de oposição em raramente se converteram em embates políticos mais consistentes.

A UPA em crise

O fim do ano trouxe um novo elemento de tensão. Já em janeiro de 2026, ainda durante o recesso legislativo, São João del-Rei ganhou espaço na imprensa estadual por conta das denúncias envolvendo a Unidade de Pronto-Atendimento. O boletim de ocorrência registrado por uma médica contra o então diretor da UPA, por assédio, foi apenas o ponto de partida. Um grupo de profissionais da saúde formalizou novas denúncias, ampliando o teor das acusações. O então gestor negou os fatos e atribuiu a crise à sua postura administrativa.

Diante da gravidade do cenário, um novo pedido de CPI começou a ser articulado, agora para apurar a situação da UPA. Até o momento, três assinaturas foram confirmadas. Outras duas ainda faltam para que a comissão seja instalada. Parte da população esperava que, com o retorno das sessões ordinárias, o tema ocupasse o centro do debate legislativo. Não foi o que aconteceu.

Pedidos de aberturas de CPIs chegaram a ser inicialmente articulados. Até então, no entanto, nenhuma foi aprovada no Poder Legislativo local (Foto: reprodução / rede social – Câmara Municipal de São João del-Rei)

Na primeira reunião após o recesso, realizada na última segunda-feira (dia 2), repetiu-se um roteiro já conhecido em 2025. Após a votação dos projetos (novamente com forte presença de propostas de mudança de nome de rua), a maior parte dos vereadores deixou o plenário. Permaneceram poucos. Não havia quórum suficiente para seguir até o chamado “grande expediente”, momento destinado justamente às manifestações livres dos vereadores sobre temas de interesse da cidade. O resultado foi um vazio político difícil de ignorar. Para alguns, pareceu até um movimento calculado para evitar que certos debates viessem à tona.

“Um silêncio ensurdecedor”

Durante um debate no ano passado, uma vereadora da atual legislatura definiu a postura recorrente de seus pares com uma expressão precisa: “um silêncio ensurdecedor”. A ironia é que a mesma expressão já havia sido usada por agora uma ex-vereadora, na legislatura anterior, em contexto semelhante, quando também se cobrava mais posicionamento político dentro da Câmara.

Se nada mudar, tudo indica que esse silêncio seguirá sendo regra em 2026. Um silêncio que não é ausência de som, mas ausência de disposição para enfrentar temas sensíveis, fiscalizar com profundidade e assumir o desgaste político que esse papel exige. O Legislativo municipal existe para representar a cidade em sua complexidade, não apenas para homologar decisões ou cumprir rituais formais.

Resta saber também se esse comportamento se manterá com a aproximação das eleições gerais de outubro. Em período eleitoral, é comum que vereadores estejam nas ruas pedindo votos para integrantes de suas dobradas políticas. O contraste entre o silêncio institucional e a presença ativa em campanha tende a ficar ainda mais evidente.

O ano que se inicia será decisivo para mostrar se a Câmara Municipal de São João del-Rei pretende romper com um padrão já criticado por diferentes setores da sociedade ou se continuará reproduzindo uma dinâmica confortável para alguns, mas frustrante para grande parte da população.

Aguardemos o passar dos dias…


Imagem de destaque: reprodução / rede social – Câmara Municipal de São João del-Rei

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