Guilherme Martins *
“Se o trauma pode ser passado ao longo das gerações, valores também podem”. Foi assim que Wagner Moura encerrou seu discurso no último domingo (dia 11), ao receber o prêmio “Globo de Ouro” de “Melhor Ator em Filme de Drama”.
O longa estrelado por Moura, “O Agente Secreto“, com direção e roteiro de Kleber Mendonça Filho, remonta a uma Recife nos tempos da ditadura militar. Na trama, o protagonista Marcelo, um professor universitário, parte para a capital pernambucana em busca de refúgio, mas encontra problemas ainda maiores ao se ver espionado e perseguido.

Ainda que a ficção possibilite aos cineastas uma liberdade essencial para fins dramáticos, o cinema de gênero se reafirma aqui como uma poderosa ferramenta de resgate da memória. A releitura de eventos históricos apresenta ao público não só a visão de uma vida, mas impede que os fatos caiam no esquecimento mesmo quando os personagens em tela são ficcionais.
Não se trata apenas de revelar o inédito. A revisitação de temas exaustivamente explorados, como as grandes guerras, o Holocausto ou a ditadura brasileira, é necessária. É pertinente que novos olhares sejam lançados e histórias sejam recontadas. É nessa transmissão contínua que novos e velhos públicos se abastecem de lembrança e educação.
Dialogando diretamente com essa proposta, o êxito global de “Ainda Estou Aqui” reitera que o mundo, e o próprio Brasil, anseia por narrativas que iluminem nosso passado recente. Se a obra de Mendonça Filho aposta na tensão do thriller, o longa de Walter Salles mergulha na intimidade familiar de Eunice Paiva para expor as feridas deixadas pelo regime.

Ambos os filmes, ao ganharem as telas e os prêmios internacionais, cumprem uma função vital: retiram a História dos livros didáticos e lhe dão rosto, voz e emoção. Eles garantem que as novas gerações compreendam o peso do autoritarismo não apenas como um dado estatístico, mas como vivência humana.
Ao despertar a curiosidade ou propor um novo ângulo sobre o real, o cinema mostra-se um importante documento histórico de uma nação.
Ainda assim, a sétima arte não se restringe a educar. Muitos cineastas dirão que esta sequer é a pretensão, já que, seja qual for a missão da obra, nada lhe retira o que lhe é mais característico: o entretenimento, se é que podemos chamar assim, e a capacidade única de despertar emoções diante do que se vê em tela.
Cinema, um exercício de valor.
* Guilherme é jornalista graduado pela UFSJ, com interesse profissional e pesquisa acadêmica na área de jornalismo cultural e crítica cultural.
Imagem de destaque: divulgação – Victor Jucá
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