Ana Cláudia Almeida e Laura Brêtas
A força artística e a paixão intensa que movem as escolas de samba no Brasil justificam sua relevância cultural e sua fama mundial. Ultrapassando aspectos como a música e a dança, essas instituições comunitárias – originadas, principalmente, nas periferias/favelas urbanas – se transformam em um espaço de memória, pertencimento e afirmação social. Para seus fiéis integrantes, os sentimentos despertados no desfile se conectam com o histórico de resistência dos povos negros e periféricos. Nesse sentido, mais do que se apresentar na avenida, o carnaval brasileiro é sobre representar sua comunidade e dar voz aos que foram esquecidos pela historiografia oficial.
Na mineira São João del-Rei, a religiosidade aflorada esbarra no culto também desta arte popular afro-brasileira. Entre igrejas centenárias, ruas antigas e um estilo arquitetônico oscilando entre o barroco e o moderno, seis agremiações fazem ressoar tamborins, chocalhos, surdos e agogôs. Nesses verdadeiros polos culturais, um encontro de gerações e individualidades se concretiza e fortalece este amor pelo samba e pela folia.

Sendo o carnaval um símbolo nacional e um evento de grande magnitude, sua organização exige sempre extrema dedicação dos envolvidos. As sedes e os chamados “barracões” (oficinas criativas) das escolas se tornam palco, por meses, de exemplos de abdicação e empenho em prol de um objetivo maior e coletivo.
No Grêmio Recreativo Escola de Samba (GRES) Bate-Paus essa é uma realidade transmitida através do seu sucesso recente com o enredo inspirado nos anos 80. Sagrando-se campeã do carnaval 2025 após o hiato de um ano, a agremiação demonstrou a poderosa harmonia e devoção que conecta seus membros, a maioria moradores do bairro Senhor dos Montes.
Hellena Sarah, rainha de Bateria da escola aos 16 anos, admite que a recepção calorosa em sua chegada e as amizades justificam o reconhecimento da Bate-Paus como sua segunda casa.
Para ela, o carnaval é uma festividade anualmente desejada, que expressa profundamente sua identidade e seu sentimento de pertencimento.
“Desde quando cheguei, fui muito bem acolhida, e hoje, as melhores amizades que tenho foi a Bate Paus que me deu. (…) A minha mãe sempre foi diretora e meu pai é o mestre (de bateria). Não tinha como eu não me envolver nesse ramo e eu acabei pegando paixão e gosto”, relata emocionada, durante entrevista exclusiva.
Relembrando seus passos até ocupar, pela primeira vez, esse posto de destaque, a jovem, introduzida na Bate-Paus em 2017 (ano do último título), diz já conhecer o sentimento de orgulho da vitória e compreender as responsabilidades que agora carrega.
Estudante do ensino médio na Escola Municipal Garcia de Lima, entre a rotina de aulas e de ensaios, Hellena realiza também atividades de preparo físico e mental.
“Você escuta críticas, construtivas ou não, entre outras coisas, que é algo desagradável. Até mesmo o assédio. Então, tenho que preparar o psicológico. (Para este ano) eu também preparei não só o meu corpo, mas como ter uma presença boa para a bateria e a escola, enfim, como representar bem”, explica.

Tendo recebido o título de Rainha do Carnaval 2025, após vencer o concurso tradicional que marca o início da festividade na cidade, Hellena lidou não só com esta relação desafiadora com o público espectador, como também com momentos de muita euforia e tensão antes e durante o dia do desfile.
Nesse contexto, repleto de obstáculos que demandam suporte emocional, a adolescente confessa ter uma força de vontade baseada no apoio de sua família e da comunidade. Luciana Facion, em especial, foi uma peça chave no seu desenvolvimento após assumir o reinado. A antiga rainha da escola, compartilhando sua própria experiência, pôde orientar a novata de modo eficiente e com êxito.
Luciana, quando chegou em São João del-Rei ainda adolescente, não imaginava que a cidade a levaria ao carnaval. Aos 17 anos, a carioca entrou na Bate-Paus assim que chegou do Rio de Janeiro.
“No começo foi um desafio muito grande, porque eu vim de fora. Cheguei aqui como visita e acabei já entrando na bateria. Então, teve muito preconceito do pessoal, porque tinham as meninas daqui e eu era muito diferente”, relembra.
Em 2001, ano que Luciana estreou no carnaval são-joanense como rainha de bateria, a realidade do evento era muito diferente. Ela destaca que o suporte da Prefeitura era muito maior do que nos dias atuais. Exemplificando este fato, análises indicam que, durante o início dos anos 2000, o apoio financeiro municipal às escolas de samba e blocos carnavalescos era limitado e frequentemente marcado por incertezas quanto aos valores e prazos de repasse.
Hoje, uma das maiores dificuldades enxergadas pela carioca sobre a dinâmica carnavalesca é o clima de competição entre as escolas e também dentro das equipes. Segundo ela, isso acontece devido a uma sobrecarga e estresse. Aliado a isso, o baixo investimento público nas agremiações e a busca por recursos torna o processo ainda mais exaustivo. “Trabalho, foco, muita preocupação, muita coisa em cima. É tudo muito caro, é tudo muito… Nada se encontra em São João, tudo tem que ser fora, no Rio ou em São Paulo”, aponta.

Relacionamento com a equipe
Assumir um dos cargos mais cobiçados da escola logo no início de sua trajetória não foi uma tarefa fácil. Tendo em vista um fenômeno recorrente que afeta a mulher na sociedade e no meio carnavalesco, assim como Hellena, a eleita rainha do Carnaval de 2014 aponta situações constrangedoras e comentários maldosos que a levaram a ter a necessidade de se preparar melhor mentalmente.
“Eu tive que conquistar a confiança deles. Aprendi a ter jogo de cintura para lidar com 90 homens, com as esposas, namoradas e toda a dinâmica que envolve uma bateria”, relata.
O Carnaval, devido à crenças religiosas e falta de conscientização, é visto por muitos como uma manifestação vulgar. Em consequência, as mulheres que o representam sofrem com a objetificação de seus corpos.
Para Luciana, essa é uma questão que justifica sua preocupação referente ao que Hellena pode enfrentar estando à frente da bateria. Ela relata que conversou diversas vezes com a jovem e com a mãe dela.
“Você tem que fazer as pessoas entenderem que você está ali não para mostrar seu corpo, mas para fazer o que gosta. Todo mundo acha que, pelo fato de estar quase seminua, você está querendo mexer com alguém ou se mostrar. Não, não é isso”, reforça.
A “mineira naturalizada” complementa que – embora tenha sofrido uma decepção na agremiação e, por isso, tem medo de voltar, sem mencionar mais detalhes – se sente bem com a ajuda dada à Hellena, para a jovem evoluir e mostrar todo seu potencial. Quando perguntada se sente falta deste ambiente do carnaval, ela responde sem pestanejar: “é um meio de amizade muito grande, né? A gente tira as amizades verdadeiras dali. E hoje, eu posso dizer que a amizade verdadeira mesmo é com a mãe e o pai dela (Hellena)”.

Série especial
O portal Notícias del-Rei está com uma nova série especial de matérias jornalísticas sobre a Bate-Paus, a escola de samba mais antiga em atividade na cidade.
Supervisão: Márcia Eliane Rosa
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Ana Cláudia Almeida
