TRADIÇÃO E FAMÍLIA: COMO A BATE-PAUS CONQUISTOU O CARNAVAL 2025 EM SÃO JOÃO DEL-REI

Amanda Vitória e Gabriela Bastos

Depois de um ano fora da avenida, a Escola de Samba Bate-Paus voltou com força em 2025 e não voltou à toa: voltou para vencer. Representando com orgulho o bairro Senhor dos Montes, em São João del-Rei (MG), a escola conquistou notas máximas em todas as categorias e levou para casa o título de campeã do carnaval são-joanense.

A conquista do título não veio, contudo, sem obstáculos. A escola enfrentou sérias dificuldades financeiras, precisando recorrer a eventos comunitários e doações para viabilizar o desfile. A comunidade se uniu em mutirões para costurar fantasias, montar alegorias e ensaiar coreografias.

O enredo deste ano, “Anos 80: vamos reviver”, foi um mergulho na década mais colorida e ousada da história recente. A proposta era: resgatar memórias afetivas e culturais de uma região que cresceu entre fitas cassete, ombreiras, brincadeiras de rua e a efervescência de uma era criativa, vibrante e transformadora. Com uma mistura inteligente de nostalgia e alegria no desfile.

As fantasias vieram com referências aos ícones da época, com muito brilho, cores néon e elementos que relembram desde os programas de TV até os clássicos do cinema nacional e internacional. Os carros alegóricos desfilaram com riqueza de detalhes,trazendo à tona cenas emblemáticas e cheias de recordações.

A bateria da Bate-Paus, foi outro ponto alto. A batida firme e contagiante deu o ritmo para que cada ala evoluísse com harmonia e entusiasmo. A escola conquistou os jurados e obtiveram notas 10 em todos os quesitos, da comissão de frente a harmonia, passando pela evolução, samba-enredo e alegorias. Mas o desfile campeão foi apenas o trabalho coletivo que começou muito antes do carnaval. A escola promoveu um ensaio geral que contou com a participação ativa da comunidade. Moradores de todas as idades se uniram em um só propósito: colocar a Bate-Paus de volta ao topo. O retorno da Bate Paus à avenida foi mais do que uma conquista carnavalesca. Foi uma afirmação de identidade, resistência e amor à cultura popular.

Herança carnavalesca: O legado de José Pereira

Fundada em 1933 no bairro Senhor dos Montes, é a escola de samba mais antiga em atividade na cidade. Desde sua origem como rancho e depois bloco carnavalesco, a agremiação tem sido uma herança passada de geração em geração.

O nome “Bate-Paus” vem da tradição de incorporar ao desfile uma coreografia com bastões, inspirada nas danças africanas como o congado. Essa prática se mantém viva e resiste a cada novo carnaval. A Escola Bate-Paus, que ainda como bloco surgiu da ideia de um grupo de amigos que queriam se divertir no bairro onde moravam, entre eles o saudoso José Pereira, talvez nunca tenha imaginado onde essa diversão iria chegar, principalmente em sua família. 

Foto: arquivo / Grêmio Recreativo Escola de Samba – Bate-Paus

O que antes era considerado apenas uma diversão se tornou compromisso e paixão para os fundadores da agremiação, que mesmo em dificuldades financeiras, falta de apoio do poder público e contratempos mantiveram viva essa tradição. Anos depois é essa mesma família juntamente da comunidade que mantém viva a escola de samba.

Seguindo os caminhos do pai, Jacy Agostinho de Andrade, o popular Beleléu, é mais do que um integrante da Bate-Paus: ele é um símbolo vivo da escola. Filho de José Pereira, um dos fundadores da agremiação em 1933, Beleléu cresceu entre os batuques e os ensaios, desfilando pela primeira vez aos 12 anos. Desde então, nunca mais se afastou da escola. Hoje, com 90 anos, ele continua presente em todos os preparativos, seja orientando os mais jovens, seja compartilhando histórias dos antigos carnavais.

“A gente saia com mais ou menos 20 ou 30 pessoas só, saímos com sanfona, violão, cavaquinho e os batedores de pau e a tradição nós continuamos”, relembra ele, sobre quando a escola se apresentava como bloco, à reportagem.

Seguindo os passos do avô, Luara Santos carrega na pele e no coração a história de uma escola de samba que moldou sua identidade, ela  representa a quarta geração de uma linhagem profundamente entrelaçada com a cultura do samba.Fanática pela agremiação do bairro Senhor dos Montes, Luara ostenta uma tatuagem em homenagem a seu avô e a escola, uma marca visível de um amor que começou ainda na infância.

“A primeira vez que eu entendi que eu queria estar na escola foi porque desde muito novinha eu ia pra arquibancada com a minha avó, e sabia que eu precisava respeitar o momento que a Bate Paus estava na avenida. Aí eu entendi esse fascínio”, aponta emocionada.

 Mais do que uma espectadora, ela tornou-se parte ativa da escola, participando das alas e ajudando nos desfiles. Ouvir as histórias do avô, que ao lado do pai abria mão do conforto familiar para buscar recursos para o carnaval, moldou sua compreensão do que é compromisso com a cultura popular.

“Minha avó compreendia esse amor, porque ela sabia que não dava para desassociar ele da escola”, diz, reconhecendo que o samba sempre foi uma extensão da própria família. 

Para Luara, a Bate-Paus é mais do que uma escola: é um legado vivo que pulsa a cada batida do tambor, e que ela faz questão de preservar com orgulho, memória e paixão. Ela é parte de um futuro que honra o passado e mantém acesa a chama da tradição. Se depender dela, o samba continuará ecoando por muitas gerações.

Outro familiar apaixonado pela verde e rosa, com 45 anos de vida e pelo menos 40 deles dedicados ao Carnaval, Manoel Henrique de Andrade é mais do que o intérprete, ele é a própria voz da tradição. Também neto de José Pereira, Manoel cresceu embalado pelo som dos tamborins.

“Além do amor pelo samba, minha história com a Bate-Paus é uma herança familiar. A nossa história é entrelaçada com a da escola”, afirma com orgulho. E não é exagero: ao longo das décadas, ele já ocupou diversas funções dentro da agremiação, foi mestre de bateria, vice-presidente, coordenador de alas e, hoje, é uma das vozes que embalam o enredo na avenida. Para ele, a Bate Paus é mais do que uma escola de samba: é um elo afetivo que une passado, presente e futuro.

Herança Viva

A história da família Pereira é apenas um dos muitos exemplos de como a Bate-Paus é uma herança viva, passada de geração em geração. Famílias inteiras se envolvem com a escola, transmitindo saberes, valores e memórias.

O som dos tambores, os passos da comissão de frente, o brilho das fantasias, tudo ecoa a ancestralidade e a força de um povo que resiste com alegria .

A vitória de 2025 é, acima de tudo, uma celebração dessa continuidade. A Bate Paus não apenas venceu o carnaval: ela reafirmou seu papel como pilar cultural de São João del-Rei, onde tradição e renovação caminham lado a lado, embaladas pelo ritmo contagiante do samba.

Série especial

Com esta reportagem, o portal Notícias del-Rei inicia uma nova série especial de matérias jornalísticas sobre a Bate-Paus, a escola de samba mais antiga em atividade na cidade.


Supervisão: Márcia Eliane Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: arquivo / Grêmio Recreativo Escola de Samba – Bate-Paus

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