A HISTÓRIA DA BATE-PAUS: RESISTÊNCIA E GLÓRIA NO CARNAVAL DE SÃO JOÃO DEL-REI

Amanda Vitória

A década de 1990 marcou uma transformação no carnaval de São João del-Rei, em Minas Gerais. O que antes era uma das festas mais importantes da cidade começou a se enfraquecer, afetada por negligência do poder público, cortes de verbas, crises econômicas e desinteresse institucional pela cultura popular. Nesse contexto, a Escola de Samba Bate-Paus se tornou símbolo de resistência e identidade comunitária.

Em 1990, a Bate-Paus abriu a década com o título de campeã ainda como bloco carnavalesco. No entanto, aquele triunfo marcaria também o início de um período de instabilidade para o carnaval são-joanense. Já em 1991, mesmo com recursos escassos, a escola levou à avenida o enredo “É proibido proibir o jogo”, combinando irreverência e crítica social. A escola conquistou o terceiro lugar no Grupo 1A, provando que, apesar das limitações, ainda era possível fazer arte com impacto.

No ano de 1992, chuvas intensas atingiram a cidade durante o período carnavalesco, impossibilitando o desfile de algumas escolas, frustrando quem ainda lutava para manter viva a tradição. Em 1993, com o início do mandato do então prefeito Nivaldo Andrade, o cenário piorou.

Naquele ano, a relação entre a administração municipal, a Associação das Escolas de Samba e Blocos de Rua (AESBRA) e agremiações é relatada, segundo fontes ouvidas pela reportagem, como desorganizada, sem planejamento e repasses financeiros. Diante disso, a Bate-Paus optou por não desfilar, uma decisão difícil, tomada com respeito à sua história e ao seu público.

No ano seguinte, 1994, a crise atingiu seu ápice. A ausência de repasses, a fragilidade da AESBRA e o desinteresse político culminaram no cancelamento do carnaval. Pela primeira vez em décadas, a festa não aconteceu. O silêncio tomou conta da cidade, e a ausência dos desfiles escancarou a deterioração da cultura carnavalesca local. 

Entretanto, foi justamente no auge da adversidade que a Bate-Paus escreveu mais um capítulo da sua história. Em 1995, apesar dos impasses entre a AESBRA e a prefeitura e da falta de infraestrutura, a comunidade do Senhor dos Montes decidiu agir. Com esforço coletivo os moradores construíram um desfile com os poucos recursos que tinham: fantasias foram costuradas à mão, carros alegóricos reaproveitados e o desfile aconteceu. O enredo “Mercadores de Ilusões”, que homenageava artistas de rua, ciganos e a magia dos parques de diversão, encantou o público. Ao final: Bate-Paus campeã do carnaval de 1995. A vitória da Bate-Paus não foi apenas artística; é tida como política, cultural e simbólica. 

O ano de 1996 marcou uma virada. Em pleno ano eleitoral, o discurso político voltou a se voltar para a cultura popular e houve uma tentativa de revalorização do carnaval. A Bate-Paus retornou à avenida com o enredo “Lendas e Fantasias em Noite de Folia”, uma homenagem a Raimundo Nonato, figura da cultura local. Com samba assinado por Didi e Juca, e puxado por Ribeiro, a escola apostou na riqueza folclórica brasileira. O resultado foi o segundo lugar, além de fortalecer o orgulho da comunidade.

Em 1997, o carnaval passou por uma tentativa de organização. Novas regras foram estabelecidas para padronizar os desfiles, definir critérios de julgamento e fortalecer a competição. Com o enredo “Rio 2004 – Olimpíadas”, a escola fez uma aposta ousada, antecipando o desejo de ver o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos. O samba exaltava as belezas da cidade e o espírito olímpico. Mais uma vez, a escola conquistou o segundo lugar, mantendo sua posição dentre as agremiações da cidade.

Os dois anos seguintes, no entanto, voltaram a ser marcados por abandono e silêncio. Em 1998 e 1999, a falta de diálogo entre os setores responsáveis resultaram no cancelamento total dos desfiles. E mais uma vez, o carnaval da cidade foi colocado de lado, e com ele, parte importante da memória e identidade cultural foram deixados à margem.

Para a Bate-Paus, a década de 1990 foi marcada por resistência. A agremiação enfrentou descasos, falta de recursos, chuvas, censura indireta e até a invisibilidade da imprensa. Mas, ao mesmo tempo, foi também uma década de afirmação. A escola demonstrou que  não depende apenas de investimento ou visibilidade, mas principalmente da força do povo que a constrói. Nesse sentido, a escola se manteve viva ao longo da década mostrando o verdadeiro coração do carnaval.

Bate-Paus nos Anos 2000: Resistência, Memória e Reconstrução no Samba de São João del-Rei

A virada do milênio foi marcada por contrastes e tensões para a agremiação. Depois de dois anos sem desfiles, o ano 2000 representou um sopro de esperança: as escolas voltaram à avenida, reacendendo a chama do carnaval são-joanense. 

Com o enredo “Bate-Paus rumo ao século XXI buscando paz”, a agremiação propôs uma reflexão sobre o futuro, ancorada em valores como esperança, união e compromisso com a paz. Apesar do forte impacto popular e do envolvimento dos moradores do bairro, o julgamento trouxe frustração. Uma nota 7 de um dos jurados comprometeu o resultado final, colocando a Bate-Paus em quarto lugar. 

Entre os anos de 2001 e 2009, o carnaval da cidade enfrentou uma nova fase de apagamento midiático. Poucas informações circulam sobre os desfiles das escolas nesse período, o que revela tanto a desvalorização institucional da cultura popular quanto a dificuldade de preservação da memória coletiva. Ainda assim, mesmo diante da invisibilidade, a tradição não morreu. A chama do samba permaneceu viva nos ensaios de bateria, nas rodas de conversa e nas lembranças. 

Foi apenas em 2010 que a Bate-Paus voltou a ganhar visibilidade com um desfile de  teor político e histórico. Com o enredo “Libertas Quae… É o outro nome de Minas”, a escola prestou homenagem a dois mineiros da luta pela liberdade: Tancredo Neves e Tiradentes

A proposta ousada e o envolvimento da comunidade geraram grande expectativa. No entanto, mais uma vez, o julgamento não refletiu o impacto cultural do desfile. Penalizações mínimas, mas decisivas, colocaram a Bate-Paus novamente em quarto lugar. Apesar da decepção, a apresentação ficou marcada como um exemplo de crítica no carnaval.

Após anos de esforço, o ano de 2014 trouxe de volta a glória. Depois de 19 anos sem conquistar o título, a Bate-Paus voltou ao topo do carnaval são-joanense com um desfile que celebrou as festas populares do Brasil. Cores vivas, alas coreografadas, alegorias criativas e um samba empolgante conquistaram jurados e público. A escola obteve 99,5 pontos, consagrando-se campeã do Carnaval. O grito de vitória ecoou pelo bairro Senhor dos Montes.

Em 2017, mais uma vez conquistou o título de campeã com um desfile envolvente, a agremiação agradou o público e os jurados, combinando criatividade e beleza. O enredo apresentado destacou-se pela originalidade, reforçando o compromisso da escola com a arte e a valorização das raízes locais. 

Nos anos de 2021 e 2022, a pandemia de Covid-19 silenciou o carnaval. Em respeito à vida e à segurança da população, os desfiles foram suspensos. A pausa, embora dolorosa, foi compreendida como um gesto de cuidado mútuo. Mesmo afastada da avenida.

E o retorno veio em 2023, a escola completou 90 anos de história, homenageando sua trajetória com o enredo “Bate-Paus: 90 anos de carnaval, identidade e memória”. O desfile foi uma viagem emocionante pelas décadas de luta, criatividade e paixão do povo do Senhor dos Montes. A comunidade se envolveu na produção do desfile, transformando o momento em uma celebração da identidade local. Ainda que o resultado oficial não tenha refletido na grandeza da homenagem, o carnaval de 2023 entrou para a história como um marco de resistência, memória e orgulho coletivo para a escola.

Porém, no ano seguinte, 2024, o silêncio voltou a tomar conta do morro. A Bate-Paus optou por não desfilar, iniciando um processo interno de reestruturação. A decisão, embora difícil, foi tomada com responsabilidade. A ausência da escola deixou um vazio perceptível na cidade, mas também evidenciou a importância da pausa estratégica para fortalecer as bases e preparar um novo ciclo de vitórias.

Esse novo ciclo veio com força total em 2025. Com o enredo “Venha brincar, é pra valer! Anos 80, vamos reviver!”, a Bate-Paus retornou à avenida e conquistou o título de campeã com nota máxima: 180 pontos. O desfile que foi de nostalgia e criatividade, homenageando ícones como Michael Jackson, Bozo, Chacrinha e Xuxa. A nave da eterna “rainha dos baixinhos” surgiu em um dos carros alegóricos, com a participação da cover Cintia Lopes, arrancando aplausos e sorrisos do público.

A nova diretoria, liderada por Rodrigo Andrade, promoveu uma gestão participativa, envolvendo ainda mais a comunidade no processo criativo. A escola também foi reconhecida com os prêmios do Estandarte Del-Rei: melhor escola, melhor samba-enredo, melhor carro de som e melhor intérprete.

A consagração em 2025 não foi apenas uma vitória carnavalesca, foi a reafirmação de que a Bate-Paus é, acima de tudo, resistência, memória e paixão coletiva.  A trajetória dos anos 2000 é um testemunho da resiliência da Bate Paus e de sua capacidade de se reinventar sem perder suas raízes. 

Série especial

O portal Notícias del-Rei está com uma nova série especial de matérias jornalísticas sobre a Bate-Paus, a escola de samba mais antiga em atividade na cidade.


Supervisão: Márcia Eliane Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: arquivo / Grêmio Recreativo Escola de Samba – Bate-Paus

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