Carolina Maia, Clara Damasio, Maria Clara Prado,
Madu Bataglia, Magno Júnior e Maiara Maia
A pluralidade que pulsa nas ruas de São João del-Rei ainda não se reflete nas urnas. Apesar de abrigar iniciativas pioneiras de valorização da comunidade LGBTQIAPN+, a cidade nunca elegeu uma pessoa trans para a Câmara Municipal – e apenas uma mulher assumidamente lésbica, Cassi Pinheiro (PT), conseguiu conquistar um mandato. A trajetória de Ruby Rivera, que tentou três vezes o cargo de vereadora e nunca foi eleita, sintetiza esse contraste entre o reconhecimento social e a barreira política. Enquanto municípios vizinhos, como Dores de Campos, avançam com a eleição de Walesca Teixeira (PT), São João del-Rei ainda carrega o peso de um voto conservador, que resiste à representatividade.
A primeira mulher trans nas urnas de São João del-Rei
A história de Ruby Rivera ajuda a compreender esse paradoxo. Primeira mulher trans a disputar uma vaga na Câmara Municipal de São João del-Rei, ela se candidatou três vezes – em 2012, 2020 e 2024 – sempre levantando as bandeiras da comunidade LGBTQIAPN+, da saúde e dos direitos das minorias, conforme relembra à reportagem. Contudo, não foi eleita em nenhuma das tentativas eleitorais.
Ao Notícias del-Rei, Ruby recorda as inúmeras barreiras enfrentadas ao longo do caminho: a falta de recursos, o preconceito e o descaso de partidos que, segundo ela, a usavam apenas como “escadinha” para somar votos à coligação.
“Não dá pra competir com quem paga conta de luz ou cesta básica em troca de apoio”, afirma Ruby, sem mencionar nomes. “Era puro preconceito. O incômodo era uma mulher trans disputar espaço na política” comenta ela. Em 2012, ela concorreu pelo PRTB. Em 2020, estava filiada no partido Podemos. Já em 2024, no Mobilização Nacional.

Sem apoio consistente, nem mesmo da própria comunidade segundo relatado pela própria, e cansada dos ataques, Ruby admite que não pretende se candidatar novamente. Seu sonho segue: trabalhar com comunicação e televisão. Ainda assim, mantém viva a esperança de transformação: “a política deveria ser sobre lutar pelas pessoas. Espero que novos políticos surjam para transformar essa realidade“.
“A largada nunca é do mesmo ponto”
A trajetória de Lunna Beaumontt – mãe de santo, mulher trans e candidata a vereadora em 2024 – reflete as dificuldades enfrentadas por quem tenta disputar espaço político sem os mesmos recursos ou condições.
“A minha motivação foi em relação ao coletivo no atual momento da política”, conta. Antes de se candidatar, trabalhava como motociclista autônoma de aplicativo – experiência que levou para a pauta da campanha: “a mobilidade urbana sobre duas rodas. Eu entro com essa bandeira dentro da política, não era nem a pauta em si LGBT, até porque o meu corpo é político, eu falo por si só”.
Ao relembrar o período em que estudou Ciências Econômicas na UFSJ, Lunna descreve as barreiras que impediram sua permanência. “Ou eu trabalhava, ou eu passava fome, ou eu virava prostituta”, resume.
Para ela, políticas públicas isoladas não são suficientes. “Não tem como a gente ter uma reparação histórica imediata, porque a maioria das pessoas trans e travestis estão nas ruas, sem casa, sem documento, sem emprego, sem nada”, avalia.
Crítica à forma como o debate sobre inclusão costuma ser conduzido, Lunna argumenta que o problema começa muito antes. “A gente deveria questionar o porquê que há um número de inscrições no Enem tão baixo. […] O número crescente de casas de apostas, de dinheiro fácil, explica muito mais sobre o desinteresse do que a falta de vontade de estudar”, avalia.
Ao falar sobre a política local, Lunna é contundente. “A população que se diz progressista ‘bate pau de uma opa maluca’ se divide em detrimento de micro-bandeiras.” Para ela, a contradição é evidente: “quanto mais o tempo passa, mais as pessoas têm a cara de pau de falar de corrupção e se vender por conta da cesta básica”.
O desencanto com o contexto político-partidário veio depois de sucessivas decepções. “Eu acho que você precisa ter coerência. Não existe uma vida política se você não tiver coerência com os fatos”, avalia.
“Eu tô cansada de envolvimento com a política(-partidária) também, até porque uma das coisas que aconteceram foram várias ameaças na minha candidatura, diretas e indiretas, entendeu? Tanto em relação à minha segurança pessoal quanto à minha própria vida”, revela. Perguntada se gostaria de dar mais detalhes, Lunna responde: “eu acho que não tenho que me aprofundar. Só esse fato já é muito marcante”.
“A largada de partida, ela já não é do mesmo ponto”, resume.
Dores de Campos tem o que São João ainda não conseguiu
Enquanto São João del-Rei ainda não elegeu uma mulher trans, a vizinha Dores de Campos fez história nas eleições de 2024 com a vitória de Walesca Teixeira (PT). Ela foi a segunda vereadora mais votada da cidade, resultado simbólico em um cenário nacional onde, segundo a Rede Nacional de Pessoas Trans, 82% das pessoas trans abandonam o ensino médio entre os 14 e 18 anos por causa da violência e da exclusão.

Sua campanha custou apenas R$ 51, construída a partir de conversas diretas e caminhadas pelas ruas. Dentro da Câmara, porém, o ambiente é hostil. Quando questionada se se sente respeitada, Walesca é direta: “não, pelo contrário. Me sinto desrespeitada dentro da Câmara Municipal”, sem mencionar nomes.
Ela relata, contudo, episódios em que vereadores chegaram a compartilhar mensagens em grupos de WhatsApp comentando sua aparência. Mesmo assim, segue firme: “muitas das vezes eu saio dali com o meu emocional totalmente abalado, mas a gente vai seguir sendo resistência“. A vitória de Walesca mostra que a representatividade trans é possível, mesmo diante do preconceito e das barreiras impostas à participação política.
O avanço da ocupação LGBTQIAPN+ no Legislativo são-joanense
Em São João del-Rei, a eleição de Cassi Pinheiro (PT), em 2024, representou um marco. Primeira vereadora assumidamente lésbica da cidade, Cassi abriu espaço para pautas como direitos das mulheres, habitação e meio ambiente.

Ela defende que a política precisa ser construída com diálogo e participação popular. “Tenho tentado estar nas ruas, conversando com as pessoas. É um processo lento, mas necessário”, reflete.
Mesmo assim, o conservadorismo local ainda pesa. “Tem gente disposta a discutir, mas também muita resistência. É nosso papel furar as bolhas e mostrar por que esses debates importam”, garante.
A vereadora reconhece, inclusive, os desafios institucionais. “Os próximos anos vão ser difíceis. No Plano Plurianual, não há nenhuma menção à comunidade LGBT, por exemplo. Coloquei uma emenda para buscar garantir recursos, mas não sei se vai ser aprovada”.
Ainda assim, Cassi segue firme em seu compromisso com o mandato e com a população que representa.
Quando a lei não protege quem deveria
A falta de representatividade política tem consequências diretas na vida da população LGBTQIAPN+. Na madrugada de 3 de julho de 2025, uma mulher trans foi brutalmente agredida em público no centro de São João del-Rei diante de várias pessoas.
O caso reforça uma constatação: não basta ter leis avançadas no papel. É preciso vontade política para colocá-las em prática, recursos para executá-las e, sobretudo, espaço de poder para que as próprias pessoas LGBTQIAPN+ possam atuar na formulação dessas políticas.
A população LGBTQIAPN+ não sofre apenas com a ausência de novas leis, mas com o esquecimento daquelas que já existem. E isso revela muito sobre as prioridades de uma cidade que se orgulha de seu passado histórico, mas ainda hesita em construir um futuro verdadeiramente inclusivo.
Entre leis e representatividade: avanços no papel, lacunas nas urnas
O cenário revela um distanciamento entre as conquistas legais e a representatividade política. Desde 2007, São João del-Rei acumula marcos importantes: a Lei nº 4.172, que combate a discriminação por orientação sexual; a Lei Rosa, de 2008, que estabelece punições para atos discriminatórios; e a Lei nº 4.702, de 2011, que instituiu o Dia Municipal da Parada da Cidadania e do Orgulho LGBT. Em 2013, foi criado o Conselho Municipal dos Direitos LGBT, espaço de diálogo entre o poder público e a sociedade civil. Ainda assim, a representatividade nas urnas segue pequena.
Em um panorama nacional, as eleições municipais de 2024 mostraram avanço: segundo levantamento do Instituto VoteLGBT, houve um aumento de 130% nas candidaturas LGBTQIAPN+ em relação a 2020, com 225 pessoas eleitas, incluindo três prefeitos. Em Minas Gerais, dois prefeitos declaradamente gays foram eleitos: Rafael Freire (PSB), reeleito em Alpinópolis, com 62,28% dos votos válidos (7.527 votos), e Donatinho (PSD), reeleito em Santa Bárbara do Tugúrio, com 2.106 votos (58,79%). No total, 190 municípios em 22 estados elegeram representantes da comunidade.
O levantamento também apontou a eleição de 26 pessoas trans em todo o país. Entre elas, Amanda Paschoal (PSOL), travesti e quinta vereadora mais votada de São Paulo, com 108.654 votos, e Thammy Miranda (PSD), eleito com 50.234 votos. As trajetórias, no entanto, são distintas: Amanda atua como ativista de direitos humanos, enquanto Thammy construiu sua carreira política em partidos de direita, sem defender abertamente as pautas trans.
Em 2022, o Brasil elegeu pela primeira vez duas deputadas federais trans: Duda Salabert (PDT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP).
Duda foi a segunda mais votada de Minas, com 206 mil votos, e Erika teve destaque em São Paulo. Ambas vêm se consolidando como referências na defesa dos direitos LGBTQIAPN+, atuando também em pautas progressistas e enfrentando resistências de setores conservadores. Erika Hilton é autora do Projeto de Lei da Escala 6×1, que propõe a redução da carga horária semanal dos trabalhadores.
Juntas, as duas parlamentares simbolizam um avanço histórico – e o quanto ainda falta para que essa representatividade se reflita plenamente nos municípios brasileiros.
Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Freepik
Supervisão: Luiz Ademir de Oliveira
Edição: Arthur Raposo Gomes
